SETEMBRO DE 2000 – Edição nº 50 – Controle & Instrumentação
Energia Elétrica & Eletrônica
"País corre risco de racionamento", alerta Fiesp
A Federação das Industrias do Estado de São Paulo - Fiesp voltou a pôr o dedo na ferida: há grandes possibilidades de o parque industrial sofrer significativa escassez de energia elétrica a partir de 2001. Para comprovar a teoria, a Fiesp promoveu o seminário "As Possibilidades de Interrupção de Abastecimento e o Planejamento Energético Brasileiro", em que o coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coppe / UFRJ, Maurício Tiomno Tomalsquim advertiu que o equilíbrio atual entre a oferta e a crescente demanda por energia do Brasil é mais precário do que aparenta.
Segundo Tolmasquim, uma mudança feita pelo governo no critério de cálculo do risco de déficit energético no País estaria ocultando um risco de faltar eletricidade, calculado em três vezes maior que o historicamente aceito. Além disso, o crescimento da demanda por conta da retomada da economia e a falta de chuvas nos últimos dois anos, estão fazendo com que o País absorva a energia elétrica estocada nos reservatórios que deveria ser usada nos próximos anos. "Existe hoje uma falsa impressão de tranqüilidade, pois o governo está abusando das vantagens oferecidas pelo sistema hidrelétrico para camuflar a real situação do fornecimento", disse o coordenador.
Na opinião de Tolmasquim, a solução para o atendimento do crescimento de demanda de energia no País reside em programas de conservação e uso racional de energia, pelo crescimento da co-geração, pela oferta de energia por usinas termelétricas e pela instalação de usinas hidrelétricas.
A definição do Programa Prioritário de Termelétricas também foi criticada pelo coordenador, durante seminário na Fiesp. Segundo Tolmasquim, o modelo de regime de consumo de gás natural take or pay levarão o país a desperdiçar água, e não otimizar o sistema complementando a oferta do parque hidrológico. O resultado será uma participação maior de uma energia mais cara: o megawatt-hora a ser gerado pelas usinas termelétricas custará R$ 70 - o dobro da atual tarifa de geração. Além disso, quando o problema da oferta estiver resolvido no futuro, Tolmasquim não descarta a possibilidade das hidrelétricas terem de verter água.
Outro ponto criticado por Tolmasquim é o estímulo que o governo vem dando à instalação de usinas termelétricas no País, o que acaba fazendo com que os investimentos deixem de ser privados e passem para o setor público. "O Ministério de Minas e Energia diz que o programa é privado, mas garante o preço da matéria-prima, a compra da energia gerada, o reajuste de preços conforme interessar aos investidores, o financiamento do BNDES para a instalação da usina e ainda pretende cotar a energia em dólar". Tolmasquim afirmou que o governo não tem dado a devida atenção ao problema de escassez de energia e, para começar a enfrentar a crise do setor, é preciso mudar a mentalidade de avaliar os investimentos. Segundo ele, se houver um déficit energético que obrigue o País a adotar o racionamento, isso implicará custos muito superiores aos necessários para ampliar a geração de energia. Pela análise do coordenador, enquanto as usinas termelétricas não saem do papel, o governo federal deve assumir os empreendimentos. "Um déficit de 1 GW de energia, ao longo de seis meses, ou cerca de 4.000 GWh, custaria ao País US$ 2 bilhões, ao passo que, para implantar uma usina a gás, da mesma potência, o investimento é da ordem de US$ 800 milhões".

Governo diz que não vai faltar energia

O ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, descartou a possibilidade de faltar energia nos próximos anos. "Não há qualquer possibilidade de falta de energia no próximos anos, nem mesmo nos horários de pico". Tourinho disse também que não há risco de atraso no cronograma de entrega das usinas termelétricas no próximo ano. "Os equipamentos já estão sendo entregues e a oferta de 3,1 mil megawatts no próximo ano está totalmente garantido".
Para o secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, não há risco de escassez de energia elétrica a partir de 2001. "Os critérios de cálculos do governo são diferentes", justificou, se referindo ao alarme feito por Tolmasquim. Mário Santos, presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONS , explicou que o sistema opera com uma previsão de risco de 5%, e a previsão de risco de desabastecimento de energia no País para o próximo ano caiu de 12% para 8% em função das recentes chuvas. "Vamos chegar ao fim do ano com valores menores que os do ano passado".

Aneel autoriza importação

A vulnerabilidade do sistema elétrico está levando o país a aumentar a energia comprada dos países vizinhos. Desde junho, 1 mil MW estão sendo comprados da Argentina. Para o ano 2001, pelo menos 1.420 MW serão importados do Uruguai (70 MW), da Bolívia (150 MW), da Venezuela (200 MW) e da Argentina (1 mil MW).
Em 2002, a empresa Tradener passará a receber uma carga de 600 MW, que, somados aos 2.400 MW a serem recebidos em 2003, resultarão em mais 3 mil MW de energia da Argentina. Além desses 5.420 MW já confirmados, uma série de pedidos das empresas Enersul, EBE, AES Bandeirante, Brasen e Eletronorte está sendo analisada pela Aneel para a importação de mais 3.200 MW de países vizinhos.


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