Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 74 – Outubro de 2002
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Segredos da instrumentação analítica
Sérgio Vieira
Conta a história que os pequenos pássaros foram os primeiros sensores adotados pelo homem para se medir a qualidade de gás num ambiente. Para quem não conhece, ainda hoje no Brasil, é possível encontrar minas clandestinas utilizadas para a extração de metais preciosos como ouro e diamante. Escavadas a mais de 100 metros de profundidade, essas minas emanam gases impróprios para a saúde. Para saber até quando é possível agüentar no interior das minas, os operários levam consigo um passarinho para fazer o trabalho de “sensor”. Quando o passarinho morre significa que é hora de sair correndo porque não existem mais condições de ficar no local.

Dos coitados dos primeiros passarinhos aos dias de hoje muita coisa evolui na medição de gases. Hoje capacetes de metano demonstram através de chamas a qualidade do ar no interior das minas. Na área industrial a tecnologia para a medição de gases transformou-se numa área conhecida como Instrumentação Analítica, mercado em franca expansão no Brasil, mas ainda cheio de segredos. Para alguns fornecedores, a expansão do mercado não acontece de forma tão acelerada como se devia, mas é inegável o potencial de crescimento do Brasil nesta área. Seja na parte de gases ou de líquidos, a medição do estado em que se encontram determinadas substâncias é uma necessidade de praticamente todo o segmento industrial. Também é perfeitamente perceptível a necessidade de instrumentação analítica bem maior em indústria de processo que aquelas situadas no grupo da manufatura.

Ninguém quer revelar quanto o mercado movimenta. Fala-se em milhões de três ou dois dígitos, só que tudo é na base da dedução. O fato é que ninguém gosta de entrar em detalhes financeiros para não despertar o interesse de concorrentes.

Números não são revelados, mas percebe-se claramente no Brasil fortes ações que culminam no interesse por informações sobre qualidade da água e do ar. A certificação ISO 14001 é um exemplo bem típico. A busca por esse selo fez com que as indústrias aumentassem o interesse por medição de efluentes e saídas de chaminés.
Certificações aumentaram a procura por instrumentos de medição
“O Brasil passou por um processo ruim na década de 60 quando a questão ambiental praticamente ficou estagnada. Enquanto os outros países partiram para tecnologias mais limpas, o Brasil insistiu em outro caminho. A partir da Rio 92 começaram as intenções de consolidar as posições na questão ambiental”, lembra Gilberto Branco, engenheiro de aplicação que durante os últimos dez anos trabalha especificamente com instrumentação analítica.

Na sua opinião, o próximo passo da questão ambiental deveria ser a criação de um órgão federal com o intuito de estabelecer diretrizes para a emissão de gases, assim como já aconteceu com a água com a criação da Agência Nacional das Águas - ANA. A maioria das indústrias brasileiras seguem o regulamento dos órgãos estaduais de meio ambiente. Entretanto, nem sempre esses órgãos possuem legislações para monitorar todos os tipos de gases poluentes.

Aliado a esse fato, o mercado nacional de instrumentação analítica é basicamente dividido entre os equipamentos importados, muito pouco se produz em solo brasileiro. As pesquisas nessa área, com algumas raras exceções, são consideradas isoladas ou de pouco incentivo empresarial. Branco, que trabalha na Contech (empresa que está explorando o mercado de instrumentação analítica com tecnologia nacional), avalia em torno de R$ 200 mil dólares o investimento necessário para desenvolver apenas um produto. O pioneirismo da empresa tende a forçar a queda de preços de instrumentos analíticos e, assim, espera-se aumentar o desenvolvimento nacional de monitoração de gases.

A questão ambiental e o barateamento de instrumentos também tende a descobrir novas aplicações da analítica. O engenheiro da Contech conta que no Canadá a monitoração de uma planta de extração do metano, a partir da decomposição do lixo, é exemplo desses novos caminhos da analítica. Aqui mesmo no Brasil há áreas novas para serem citadas. Com a chegada do Gasoduto Bolívia-Brasil e a construção de térmicas, órgãos ambientais apressaram-se em divulgar os perigos das emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) e dióxido de carbono (CO2) oriundos da queima do gás natural.
Branco: poucas pessoas entendem de instrumentação analítica no país
Na parte de líquidos, a preocupação quanto à qualidade da água está ligada tanto à questão ambiental como comercial. “Os usuários começaram a medir como uma solução poderia agregar melhor ao produto”, avalia Filomena Vieira, gerente geral da Mettler Toledo no Brasil. Pela sua avaliação, à medida que as indústrias brasileiras aumentarem suas exportações buscarão medições mais confiáveis de processo.

A instrumentação analítica em líquidos esbarra em algumas limitações de legislação. Principalmente, quando o assunto é medição na indústria alimentícia. Em alguns casos não é permitida a introdução de peças de vidro para medição de substâncias. Por esse motivo, segundo Filomena, a tendência do setor nesta parte é a criação de sensores construídos a partir de novos materiais. Um deles é o sensor construído a partir do plástico com uma ponta de silício responsável pela captação das variáveis.

Filomena chama a atenção para o fato de que em instrumentação analítica não é possível trabalhar com padrões de instrumentos. Ou seja: ter produtos de prateleira que sirvam para as mais diferentes aplicações. Por este motivo, Filomena gaba-se em trabalhar numa empresa que tem mais de mil sensores diferentes para oferecer aos usuários. “É preciso ter diversidade para atender o usuário”, recomenda.
Analítica requer muito conhecimento do equipamento e do processo
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