Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 85 – Outubro de 2003
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Setor de Papel e Celulose supera crises
e cresce no Brasil
Rajendra Mehta, director de papel e celulose da Smar: Automação com foco no gerenciamento de negócios

Os primeiros documentos mostram que o papel nasceu na China no ano 105, e só chegou ao Brasil por volta de 1809. Hoje, mesmo com todas as novidades do mundo moderno, ele ainda ocupa espaços importantes na vida de toda sociedade. Muitos imaginavam, por exemplo, que seu destino era desaparecer com o surgimento dos computadores e com a expansão do uso de outros materiais. Mas, ao contrário, seu mercado foi se expandindo de tal forma que, atualmente, tornou-se essencial para diversos setores. Hoje o Brasil ocupa a 7ª posição no ranking mundial de produção de celulose e a 11ª posição na produção de papel.

A indústria de papel e celulose brasileira caracteriza-se por possuir uma grande intensidade de capital aplicado. Foi principalmente a partir de 1999, com a estabilização do mercado – em quantidade de produtos e preços – e com a desvalorização do Real, que a indústria evoluiu significativamente e se tornou ainda mais exportadora e competitiva. Somente nos últimos 10 anos o setor de papel e celulose recebeu investimentos da ordem de US$ 10 bilhões; a previsão para os próximos 10 é ainda mais otimista: o setor deve investir cerca de US$ 14 bilhões.

Em 2002, este setor conseguiu um volume de US$ 1,46 bilhões de saldo na balança comercial, o que corresponde a pouco mais de 10% do saldo do país. De acordo com Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio, o saldo da balança comercial de 2002 foi de US$ 13,130, considerando que o setor tem uma forte característica exportadora, especialmente em celulose de fibra curta. Segundo o presidente da ABTCP (Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel), Celso Foelkel, desde a década de 70 a indústria tem recebido apoio do Governo via BNDES para exportar. “O empresário que acreditou e não desperdiçou dinheiro e tempo, cresceu”, diz.

Com a expansão e desenvolvimento da produção, a tecnologia tornou-se mais que necessária para agilizar e otimizar o processo de produção. Antigamente quando o assunto era automação, conta o coordenador da Comissão Ténica de Automaçõa e Controle da ABTCP, e diretor de Papel e Celulose da Smar, Rajendra Mehta, isso significava ter a técnica para fazer um produto mais uniforme, mais repetítivel, de melhor qualidade e de forma mais econômica. “Esta definição tinha o foco na produção, mas os conceitos mudaram com o tempo e hoje temos uma maior ênfase no gerenciamento de negócios, ou seja, naquilo que podemos chamar de automação integrada, com controle de processos, controle de manufatura, entre outros”, diz Mehta. Segundo o diretor, atualmente na indústria, muita informação fica disponível e precisa ser analisada, interpretada adequadamente.

Automação na prática

Exemplos de modernizações e investimentos no setor de papel e celulose não faltam. A ABB, por exemplo, fechou há alguns meses um contrato de R$ 8,6 milhões para modernizar a linha de produção da Companhia Suzano de Papel e Celulose.

O novo sistema de acionamento, dosagem e filtragem de matéria-prima vai permitir à Suzano aumentar a disponibilidade das máquinas. O projeto conta com tecnologia de diferentes fábricas da ABB, localizadas no Brasil, França, Finlândia, Suécia e Alemanha e faz parte de um investimento maior da Suzano para aumentar o volume de papel fabricado entre 40% e 50%.

O fornecimento, previsto para ser concluído entre seis e oito meses, consiste na reforma e instalação de sistemas de acionamentos seccionais que tornarão mais preciso o controle dos motores, assim como a confiabilidade e disponibilidade da máquina de produção de papel. Será instalado também um novo sistema de filtragem e dosagem de amido, matéria-prima utilizada na produção de papel dentro da unidade em operação na cidade de Suzano, em São Paulo. A nova geração de filtros da ABB permite a limpeza com jatos de alta pressão. “Com essa tecnologia, o intervalo entre as limpezas dos filtros será ampliado, aumentando a disponibilidade da máquina e reduzindo a quantidade de matéria-prima desperdiçada em cada ação”, explica Welington Cintra, gerente de negócios de Papel e Celulose da ABB.

Outro sistema para preparo de sulfato de magnésio, matéria-prima utilizada na preparação da celulose, também será atualizado, melhorando a qualidade do produto final. Essas mudanças fazem parte de um projeto maior de ampliação de equipamentos da Suzano que tem como meta aumentos de produtividade, qualidade e adequações ambientais.

Um outro exemplo é o trabalho de atualização feito pela Ibema Companhia Brasileira de Papel, localizada no Estado do Paraná. A empresa fez, no ínicio deste ano, um contrato com as empresas ABB, Voith, Mservices, Weg e Emerson Process Management para implementar um novo sistema que elevasse a capacidade de produção, facilitasse o trabalho e agregasse melhoria à segurança operacional.

Investindo em tecnologia de ponta, a Ibema já está produzindo papel com a arquitetura PlantWeb, na planta de Aparas. O sistema é composto por uma Estação de Engenharia e Operação; duas Estações de Engenharia; três Estações de Operação, 14 Controladores MD Redundantes, instalados em sete painéis distribuídos pela planta; Cartões de I/O Convencionais e Cartões Seriais (para interfaces com o sistema de gramatura Metso e IHMs locais – pasta mecânica, caldeira e refinadores), Devicenet com 128 pontos para rede de Válvulas ON/OFF; Cartão Fieldbus para 15 redes com 257 transmissores e válvulas de controle em Foundation Fieldbus; Profibus com 131 pontos para comunicação com CCMs inteligentes e comunicação com um sistema de infrared Krieger da secagem / aplicação de tintas.

Já a Woodward, fabricante de reguladores de velocidade para turbinas a vapor e gás, forneceu seus equipamentos para empresas como a Jari Celulose e a Aracruz. As duas utilizaram regulador digital modelo Micronet para controle de turbinas à vapor em geração de energia em máquina Toshiba de 55MW com dupla extração controlada e, no caso da Aracruz, uso de reguladores digitais PEAK em turbo acionadores KKK de bombas e ventiladores de caldeira.

Com a instalação destes equipamentos, as empresas ganharam estabilidade na rotação da máquina – mesmo com grandes variações de carga – reduzindo choques e perdas no processo, em função de ajustes de ganho feitos digitalmente; economizaram vapor com o aumento de eficiência da turbina, mantendo a rotação nominal ou variando a rotação automaticamente em função de nível de água da caldeira, bem como das pressões envolvidas. Isto pode evitar o uso constante de dampers – e consequentemente quebra ou travamento – ou das válvulas de controle de vazão de água. Os reguladores podem receber sinais remotos de 4-20mA para ajuste de rotação em função das variáveis. E ainda possui a comunicação com sistemas supervisórios via Modbus.

A Ripasa também modernizou seus sistemas para fabricação de papel por meio de um plano de modernização empreendido na planta de Limeira, interior de São Paulo. Estratégica para a operação da empresa, a reforma da fábrica paulista exigiu investimentos de US$ 250 milhões. Neste projeto, a Siemens participou, como responsável pela reforma das máquinas de papel nº 1 e nº 2 e do coater, além da instalação de três novas rebobinadeiras, processo concluído em 22 meses.

Agora, a máquina de papel nº 1 passa a operar com velocidade de 1,1 mil metros por minuto, enquanto a MP2 é a mais rápida em operação no Brasil em sua categoria, alcançando 1,3 mil metros por minuto. Já o coater, em sintonia com os mais modernos padrões da indústria papeleira, passa a operar com velocidade de 880 metros por minuto. As três rebobonadeiras (Coater – Variflex S, MP1 – Variflex M e a Rebobinadeira 3 – Voith 85ML) atingiram a velocidade de 2,5 mil metros/minuto.

Em regime turnkey, a Siemens também esteve à frente de todo o projeto elétrico e de instrumentação, numa solução que envolveu uma vasta gama de produtos e sistemas, incluindo toda a engenharia básica e executiva dos equipamentos de média e baixa tensão, PLC’s de processo e sistemas de acionamentos multi-motores em tecnologia PCS7, além da engenharia e execução da montagem. Para dimensionar o fornecimento, a instalação utilizou 250 mil metros de cabos e 91 mil quilos de materiais de montagem, além de 3 mil I/Os de supervisão e controle. Com a modernização, a planta de Limeira reduziu suas perdas e aumentou a produtividade.

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