Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 90 – Março de 2004
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Usinas: de olho no futuro
Capitalizadas e ávidas por competitividade, unidades sucroalcooleiras aumentam investimentos em automação

O ano de 2004 começou agitado para o mercado sucroalcooleiro com o anúncio do contrato fechado entre a GE Fanuc - através de seus distribuidores GE Supply do Brasil e Aquarius Software - e o Grupo Nova América. Com duração de cinco anos e avaliado em aproximadamente R$ 3 milhões, o acordo prevê o fornecimento de equipamentos para controles de automação (PLC) e softwares de supervisão para quatro empresas do conglomerado, incluindo as Usinas Nova América e Maracaí, além do Terminal Portuário de Açúcar Teaçu.

Um dos cinco maiores produtores de açúcar refinado do mercado nacional e décimo colocado no ranking dos principais fabricantes de álcool do Brasil, o Grupo Nova América decidiu investir em automatização para aumentar a sua competitividade. Além da aquisição de novos equipamentos, as unidades sucroalcooleiras estarão padronizando todos os processos, substituindo também alguns produtos por novas soluções da GE Fanuc.

Para o coordenador do Grupo de Automação Nova América, Carlos Donizeti Morbi, a automatização dos sistemas está se tornando fundamental para as usinas brasileiras. “Se torna possível garantir maior segurança operacional da planta, a uniformidade dos processos, evitando perdas e desclassificação do produto final, além de possibilitar maior produtividade industrial, reduzindo paradas indesejadas”.

Tradicionalmente incomuns no setor sucroalcooleiro, os grandes investimentos em automação começam a movimentar o mercado canavieiro com maior intensidade. “Temos recebido consultas constantes”, relata Antônio Cardoso, responsável pelo desenvolvimento de negócios do Estado de São Paulo da GE Fanuc.

Ao contrário do que acontece em outros segmentos de indústrias de processo (petróleo, petroquímico, alimentício ou papel e celulose), em que a automação é um valor agregado a projetos turn key, o setor sucroalcooleiro agora está esboçando um movimento de reconhecimento aos benefícios proporcionados pela automatização das usinas. “Aumento das áreas cultivadas, diversificação do mix de produtos e elevação de produção são prioritários, e muitas vezes os investimentos em automação são preteridos pelas unidades de açúcar e álcool”, observa Jayme Tamaki Júnior, gerente de produto da Smar.

Há cinco anos passou a ser observado no setor um maior interesse por automação de sistemas, o que está demandando crescentes investimentos por parte das usinas. Alguns fornecedores acreditam que isso só está acontecendo neste momento porque se solidificou no segmento canavieiro uma falta de reconhecimento quanto à contribuição da automatização para otimização financeira das unidades. “Pouco tempo atrás isso existia SIM, com letras maiúsculas. No entanto, essa realidade vem claramente sendo transformada. Hoje, a grande maioria já percebe claramente a contribuição dos sistemas automáticos na redução de custos de produção”, acredita o empresário Paulo Gallo,diretor da empresa Authomathika.

Outra hipótese levada em consideração para o atraso tecnológico da agroindústria canavieira seria a falta de conhecimento profundo sobre toda a funcionalidade da automação. “Acredito que as usinas, bem como outros setores da indústria de processos, já reconhecem os benefícios da automação para a redução de custos. O que se passa é que, em muitos casos, falta conhecer o que há disponível no mercado de tecnologia para isso, assim como ainda existe uma cultura um pouco refratária para mudanças”, analisa André Luís Coutinho, gerente de contas da Woodward.

O engenheiro César Rodrigues, responsável pelo setor de Automação Industrial da Usina Alta Mogiana, tenta ampliar o ângulo da discussão. Para ele, existe reconhecimento, o que falta é confiança. “Acreditar que a automação ajudará a empresa a resolver vários problemas é o grande desafio dos fornecedores. Considero que a questão não seja somente da cultura do setor, os fornecedores estão começando a crer que o segmento é um grande investimento, estão oferecendo equipamentos com boa relação custo x benefício”.

Reside justamente na falta de valorização da relação custo x benefício por parte de algumas usinas a principal reivindicação das empresas fornecedoras. “Isso se traduz claramente quando uma usina opta por sistemas de menor custo inicial de aquisição que, no médio prazo, tornam-se, ao final de certo tempo de utilização, bem mais caros em função de dois fatores básicos: primeiro, o sistema não opera de forma a atingir o máximo potencial de redução de custos; e, segundo, devido aos custos de manutenção decorrentes da utilização de equipamentos de qualidade inferior, principal razão do menor custo inicial de um dado sistema”, discorre Gallo.

“Acredito que a relação custo x benefício mereça mais atenção, os fornecedores e usinas devem trabalhar juntos para provar que isso é uma realidade”, reconhece Rodrigues.

Também atrapalha o desenvolvimento do mercado a idéia difundida de que a automação é responsável por suprimir vagas de trabalho. “O lado social também deve ser considerado. As usinas tiram o operador de um ambiente agressivo e oferecem melhores condições de trabalho. A automação não tem o objetivo de reduzir quadro de funcionários ou mão-de-obra, pretende reposicionar o colaborador para locais em que ele possa ser melhor aproveitado”, reforça Marcus Vinícius Ribeiro, gerente da engenharia de aplicações da Smar.

Contra as empresas fornecedoras pesa também a forte concorrência do mercado, que em casos extremos pode beirar a deslealdade. “Na maioria das vezes, não se trata de uma política de preços deliberadamente baixos, com intuitos que poderiam ser classificados de desleais. Existe no setor uma forte tendência a se comprar valor baixo inicial, e isto favorece o aparecimento, ano após ano, de ‘players’ no mercado que, possivelmente por falta de conhecimentos administrativos, entram com preços equivocados no mercado”, lamenta Gallo. “Além disso, empresas com esse perfil têm apenas um destino que sem duvida não é o sucesso”, confirma Matheus Galvani Antonelli, diretor comercial da Usitep e acionista do grupo J.C Antonelli.

Não é complicado compreender porque o mercado se comporta dessa maneira. Não é possível precisar com exatidão, mas disponibilizam tecnologias de automação para o setor em torno de uma centena de empresas, entre fabricantes, integradores, distribuidores e prestadores de serviços. Para se estruturar uma empresa que propõe fornecimento de sistemas de controle automático, o investimento inicial de capital financeiro é relativamente baixo. O principal patrimônio é a capacidade técnica de quem abre uma firma. “Mas, infelizmente, as pessoas carecem de conhecimentos relativos à administração de seu negócio e, quando compõem seu preço de venda, desconsideram uma série de custos e obtém como resultado final um valor artificialmente mais baixo”, prossegue o diretor da Authomathika.

Por outro lado, existem ainda empresas utilizando em seus sistemas equipamentos de baixa qualidade e/ou pouca tecnologia, o que também empurra os preços para baixo.
“O mercado é bastante competitivo. As negociações não podem ser passionais e as empresas necessitam de vendas e lucratividade para se manterem e até mesmo crescerem. Da mesma maneira que o cliente deve estar atento a outros fatores além do preço. A máxima expressão ‘o barato sai caro’ é verdadeira e se aplica neste caso”, argumenta Tamaki.

Para combater este tipo de problema e ampliar as negociações com o setor sucroalcooleiro, os fornecedores também contam com o respaldo do Governo Federal.
“Comercialmente, o Governo tem oferecido mais apoio nos últimos tempos. Há uma política mais séria para açúcar e álcool com recursos de grandes bancos e empresas, algumas até estrangeiras. Isso está oferecendo um alicerce mais sólido para as usinas fazerem novos investimentos em automação, de uma maneira mais contínua”, destaca Ribeiro.

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