Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 91 – Abril de 2004
Cover Page II
O futuro bate a nossa porta
Aos poucos a cultura da robotização conquista empresas brasileiras.
Queda dos preços e otimização são os principais atrativos desta tecnologia que imita os movimentos humanos
Renê Meira Medina, engenheiro de Aplicação da Kuka Automação do Brasil

Dentro da filosofia de que é preciso investir no desenvolvimento e na implementação de novas tecnologias, o Brasil desperta para um novo e promissor mercado: o da robotização. Mitos como altos custos e fim dos postos de trabalho são derrotados, aos poucos, pela necessidade de modernização, rapidez e precisão.

Há cerca de oito anos o país começou a dar os primeiros passos nessa área. Ainda não está entre os mais robotizados do mundo - isso é fato - mas parece se preparar cada vez mais para isso.

Um relatório divulgado pela Comissão Econômica da Organização das Nações Unidas em 2002, revela que o país possuía, na época, cerca de quatro mil robôs instalados. Neste mesmo ano, foram instalados cerca de 420 novos equipamentos em fábricas brasileiras, contra 450 no ano anterior. Os gigantes da robotização ainda são Japão – que possuía 350 mil unidades instaladas em 2002, e Alemanha – que possuía 105 mil. Estes dados já nos permitem fazer uma comparação: no Brasil, hoje, existem cerca de quatro mil robôs instalados. Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos, atualmente, a relação é de um robô para cada três pessoas, enquanto no Brasil existe um robô para cada 178 pessoas. Pois é, ainda temos muito que crescer !

Instalada no Brasil desde 1992, a multinacional nipo-americana Fanuc Robotics, por exemplo, está mudando seu perfil em busca da liderança do mercado no país.

Fanuc signifca Fujitsu Automation Numeric Control e foi o nome escolhido por Seiuemon Inaba, uma das principais personalidades do business japonês, para sua empresa de automação. A Fanuc Robotics foi fundada em 1956, tendo se dedicado à automação industrial até 1972, quando foram desenvolvidos os primeiros robôs. Com sede no Japão, a empresa possui 84 escritórios espalhados por 28 países. Seus 10 centros regionais estão localizados no Canadá, Estados Unidos, México, Europa, Ásia, Oceania e Brasil e seus robôs são utilizados nas mais diversas aplicações, entre elas manuseio de materiais, carga e descarga, paletização, empacotamento, corte a laser, solda a arco; em segmentos industriais como automotivo, eletrônica, alimentos, vidros, utensílios domésticos, papel, farmacêutica, entre outros.

Em 1992 a companhia começou a operar no Brasil em conjunto com a GE Fanuc, especializada em CLPs e em CNCs. Com o desenvolvimento do setor, o departamento responsável por toda a área de CRC (Controle Robótico Computadorizado) ganhou espaço e em 1998 nasceu a Fanuc Robotics do Brasil, responsável por toda a operação na América do Sul, como implantações de sistemas robotizados, venda de produtos e peças, aplicação, serviços na área de robótica, engenharia, CNC, manutenção e apoio técnico.

Segundo o presidente da empresa no Brasil, José Teixeira, o objetivo é crescer em torno de 80% nos próximos dois anos. “O Brasil é hoje o terceiro maior mercado emergente com um potencial muito alto na área de automação”, ressalta. A produção dos robôs da Fanuc Robotics é feita no Japão, com exceção dos robôs de pintura, que são produzidos nos Estados Unidos.

A empresa possui mais de 120 mil robôs instalados no mundo - sendo 55 mil distribuídos nas Américas do Norte e do Sul – e mais de 700 instalados no Brasil. No total, são mais de 175 modelos. Entre seus principais clientes estão empresas como General Motors, Audi, Caterpillar, Unilever, TWE, Procter&Gamble, Keiper, Saint Gobain e Honda.

Com modelos de diversas aplicações e para diversas atividades, a equipe técnica da Fanuc Robotics lança uma média de nove novos produtos por ano. Cerca de US$ 110 milhões são investidos em R&D nos dois principais centros de desenvolvimento de soluções e produtos da empresa, que acaba desenvolvendo um novo robô sempre que tem uma aplicação com um mercado que justifique essa produção.

As principais aplicações estão no manuseio de materiais, solda a arco e a ponto, colagem, montagem, corte, rebarbação, remoção de material, polimento, inspeção, laser, alimentação de máquinas, pintura, empacotamento, paletização, distribuição de materiais, entre outras.

Nos últimos dois anos, o faturamento da Fanuc Robotics do Brasil manteve-se entre R$ 10 e 12 milhões. Para Teixeira, a tendência é que esse mercado cresça de 20% a 30% nos próximos dois anos. “Nossa meta é chegar até o fim de 2005 com um faturamento superior a R$ 25 milhões”, completa.

Em março deste ano, a Fanuc Robotics do Brasil concretizou sua primeira grande venda: foram acertadas as fases I e II de um projeto com a empresa alemã Keiper, que produz assentos automotivos. Na primeira fase sete células robotizadas, de solda a arco, serão utilizadas na fabricação das estruturas metálicas dos bancos da linha Fox, da Volkswagen.

Durante dois meses, a Fanuc e seus concorrentes participaram de um processo de levantamento e pesquisas da empresa compradora. A filial brasileira da Keiper buscava, além do robô, todo o trabalho de after marketing. As unidades adquiridas são de alta tecnologia, com informações “on line” de processo e de produção inseridas em rede e disponibilizadas na WEB.

Até o final do ano, mais cinco unidades de robôs de solda a arco Fanuc deverão ser vendidas à Keiper, completando assim, o fornecimento para a terceira fase do projeto. No total serão 12 células robotizadas.

Recentemente a Fanuc Robotics do Brasil fechou outros dois importantes contratos em médio prazo com a Alstom do Brasil e com o Grupo Saint Gobain. O primeiro estabelece o fornecimento de um sistema composto por quatro robôs de soldagem a ponto e o segundo de um sistema robotizado para manipulação de materiais.

Uma outra meta é fechar cerca de 40 novos contratos até o fim de 2004. Anualmente cerca de 10% do faturamento do grupo é direcionado para investimentos em engenharia aplicada e novos produtos.

Dando continuidade aos investimentos, no último mês de maio, entrou em operação o novo centro de try out da empresa. Uma área apropriada com toda a segurança e recursos necessários, dentro da sede da empresa, em São Paulo, foi designada para abrigar os robôs. Lá são realizados testes em conformidade com as aplicações que os robôs terão quando instalados. Neste mesmo local são desenvolvidas novas aplicações.

O espaço é utilizado ainda para a realização de Customers Days - dias reservados exclusivamente para a visita de clientes. Empresas como Daimler Chrysler, Dana, Colgate, Volkswagen, Karmann-Guia, Tecumseh, Caterpillar, Aethra, Pilkington, Prismatic, Metalbages, Embraer, Johnson Controls, PSA, entre outras, já enviaram equipes para participar do evento.

Segundo a Fanuc, nos últimos oito anos, o preço de um robô diminuiu de cerca de US$ 100 mil para US$ 25 mil. Uma outra gigante do setor é a ABB, que possui uma base instalada de cerca de 100 mil robôs no mundo e mais de 2 mil unidades no Brasil, o que representa cerca de 50% de participação no mercado. No ano passado, a empresa instalou 100 robôs em plantas industriais brasileiras e já conta com 2.000 unidades vendidas em todo o país.

Outra que não poderia ficar de fora da lista é a Kuka Automação do Brasil. De origem alemã, a empresa está há oito anos no país, atuando com duas divisões: a de robôs e a de flexibilização para manufatura ou células especiais, onde encaixam-se todos os tipos de soldas: mig, solda a laser, solda a fricção e solda por magnetarq – “processo exclusivo da Kuka”, diz o engenheiro de Aplicação da empresa, Renê Meira Medina. “Estamos presentes em todas as montadoras, senão com robôs, com células especiais como para aplicação de cola e para handlink (manuseamento de peças)”, enfatiza.

Hoje, mundialmente, o foco da Kuka está 70% voltado para o setor automobilístico. No Brasil, pode-se dizer que 90% está direcionado para este setor. Entre outros mercados de atuação da empresa estão a indústria farmacêutica - com a paletização –, a indústria de autopeças, e indústrias em geral como madeireira, fábricas que fazem corte em mármore, entre outras. Segundo o engenheiro, a Kuka já possui quase mil robôs instalados no Brasil.

Wagner Bello, engenheiro de vendas da Fanuc Robotics do Brasil: robôs dedicados à paletização

Modelos adaptam-se às necessidades do mercado:
é preciso ir além da indústria automobilística


A indústria automobilística é campeã no Brasil – e em grande parte do mundo - quando o assunto é o número de robôs instalados. Mas, a grande demanda do setor não impede que as empresas fabricantes dessas tecnologias busquem outros mercados. É o caso da Fanuc Robotics, que atualmente está destacando robôs dedicados a paletização.

A empresa, que vende cerca de 16 robôs por ano no mundo, acompanha gradativamente o crescimento de suas vendas. “O cliente está se sentindo cada mais confortável com a idéia de ter um robô em sua linha de produção. A queda nos preços também ajuda”, diz o engenheiro de vendas da Fanuc Robotics do Brasil, Wagner Bello.

A linha de paletização é dedicada principalmente à indústria alimentícia, onde grande parte dos produtos são encaixotados. “Há pouco tempo atrás, serviços como a paletização e encaixotamento eram feitos em indústrias de bebidas e alimentos com máquinas dedicadas – feitas somente para aquele produto. Quando era necessário mudar a caixa ou o layer do palet a empresa tinha que trocar a máquina, o equipamento, e tudo acabava sendo jogado fora. Com o robô isso não é preciso, no máximo é preciso trocar a garra e ele pode ser aproveitado em qualquer linha do cliente final”, ressalta Bello.

Além dos robôs voltados à paletização, a empresa está recebendo do Japão uma nova série de robôs, mais rápidos do que os disponíveis no mercado. Entre as novidades no Brasil está o robô “inteligente” e uma versão com payload de 600 kg.
Há alguns anos atrás, o preço de um robô equivalia a mais que o dobro do que o de uma máquina dedicada. “Hoje, se não está igual, está muito próximo. O robô chegou a um preço e a uma flexibilidade que a máquina dedicada não alcança”, diz. Segundo o engenheiro, a Unilever, por exemplo, supriu em seis meses o investimento feito: são dois robôs que atendem onze extrusoras para sabonete.

Entre os modelos mais comuns, segundo a Fanuc, estão os arc mates (robôs de soldagem à arco), spot mates (robôs de solda à ponto/pressão), de manipulação (deslocam materiais diversos), de paletização (montam e organizam as camadas de produtos nos pallets), de corte (laser, água ou fresa), de laser (dimensional) e os de pintura.
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