Edição 228 – Junlo de 2001
 Boa Procedência

Jardim: algumas companhias estrangeiras nem sabem o que o país pode oferecer

Em tempos de abertura de mercado, o Brasil tem se mostrado capaz de superar a síndrome de terceiro mundo – pelo menos no que diz respeito a industria de petróleo. Aqui podem ser encontrados praticamente todos os equipamentos e serviços necessários desde a prospecção até o refino.
Com a chegada de novas companhias petrolíferas, o potencial brasileiro está sendo explorado, buscando uma maior nacionalização de todos os equipamentos a serem utilizados na exploração e produção do petróleo brasileiro. Até agora somente a Petrobras comprava equipamentos nacionais, mas com a entrada de empresas como Shell e BP, há um incentivo para que elas tenham conhecimento das condições de fornecimento das indústrias nacionais. “Não podemos condenar o que as companhias estrangeiras trazem na bagagem, porque às vezes elas nem sabem o que o país pode oferecer”, analisa José Eduardo Jardim, da Associação Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base – Abdib.
A começar pela geologia, o país dispõe hoje de empresas especializadas em pesquisa sísmica, com documentações em 2D e 3D das bacias sedimentares encontradas desde Pelotas até a Foz do Amazonas.
Segundo Sérgio Aguiar, da Associação Brasileira de Perfuradores, em matéria de perfuração também é possível executar qualquer projeto no Brasil. As empresas instaladas no país já executaram diversos projetos para a Petrobras e contam como atrativos, em sua avaliação, bons equipamentos, equipe e segurança.


Chiarelli: país pode fazer quase todos os produtos e engenharia de processo

Eglon Malta, executivo da Sotep, acrescenta que o mesmo pode ser dito da workover operation. “Todo o trabalho de montagem do sistema operacional do processo de produção pode ser feito aqui”. No projeto de Bijupirá-Salema, por exemplo, dos 34% de conteúdo nacional, perfuração responde por 29%.
Pelas contas de Gilberto Chiarelli, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas – Abimaq, cerca de mil empresas de bens de capital produzem equipamentos para o setor de petróleo e gás no Brasil, oferecendo aproximadamente 300 mil produtos, entre tubos, válvulas, reatores, aquecedores e bens para a indústria de perfuração. “Somente alguns tubos de perfuração precisam ser importados. Podemos fazer quase todos os produtos no Brasil e, como algumas empresas atuam como EPCistas, ainda fazemos aqui toda a engenharia de processo, como design, projeto e procurement”.
Marcelo Correa, vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial - Abemi, explicou que o setor conta com mais de cem empresas, com pelo menos dez trabalhando diretamente para o setor de petróleo e gás. “Muitas empresas têm estaleiro e podem fazer desde a engenharia básica até o top side, obras de conversões, design e semisubmersíveis, entre outros projetos. Várias empresas já exportaram pacotes inteiros nos últimos anos”.

Fragoso: governo teria que apoiar as empresas

Como nem tudo é perfeito...
Se as companhias petrolíferas estrangeiras tivessem desembarcado no Brasil antes da década de 90, a indústria nacional teria como certo o fornecimento de materiais e serviços. Hoje o cenário é outro: com a abertura de mercado, os compradores têm a chance de procurar, em qualquer parte do planeta, os menores preços e a melhor tecnologia.
Tome como exemplo a Petrobras: no final da década de 80 os fabricantes instalados no país chegaram a suprir 93% dos materiais adquiridos pela companhia, hoje essa parcela gira em torno de 80%.
Mas os compromissos firmados nos leilões de blocos exploratórios da Agência Nacional de Petróleo põe os fabricantes em estado de alerta: nas três rodadas, a média de comprometimento com as compras locais não ultrapassou os 46%, sendo que, na mais recente, as companhias se comprometeram a adquirir, em média, 34% dos bens e serviços dos fornecedores brasileiros.
Além de competir com fornecedores do mundo inteiro, a indústria nacional precisa enfrentar o conhecido “custo Brasil”. Um dos pontos fracos do país é o regime fiscal e triburário: é só observar o Repetro – regime fiscal de isenção de impostos para a indústria do petróleo – que ainda não está equacionado.

Coester: empresas estrangeiras ainda têm uma visão
predatória em relação a parcerias
Recentemente a Usiminas perdeu uma venda de US$ 4 milhões em chapas de aço para uma empresa holandesa porque a Halliburton preferiu adquirir o produto importado, sem pagar os 18% de ICMS. “Tentamos um acordo: a Halliburton assumiria o preço maior para comprar o produto nacional, mas o valor final ficaria cerca de 25% mais caro”, conta Nelson Moczydlower, diretor da Halliburton no Brasil.
Somando todos os tributos, até a mão–de–obra acaba saindo mais caro para a indústria nacional. Um estudo da Abdib revela que, para um salário de US$ 1.200, o funcionário paga US$ 400 enquanto o empregador desembolsa US$ 2.400 na forma de encargos. “Se o Brasil quisesse uma política voltada a empregos, teria que apoiar a empresa. Mas acontece o contrário: onera o emprego, com FGTS e contribuições previdenciárias cada vez mais rigorosas, forçando a redução no número de empregos”, explica Carlos Fragoso, presidente da Protubo.
Outro fator de competitividade para os estrangeiros é a produção em escala: empresas localizadas no Golfo do México, por exemplo, têm um volume de fornecimento bem superior em comparação com os brasileiros, e, em conseqüência, preços mais competitivos.“Eles têm prazos menores para entrega e preços melhores porque têm escala de produção e estoques maiores”, conta Fragoso.

O que fazer?
Se não podemos vencê–las, juntamo–nos a elas? Não é bem assim... Apesar de existirem várias empresas estrangeiras querendo firmar parcerias com produtores nacionais, os empresários brasileiros precisam ter uma certa desconfiança antes de firmar qualquer acordo. Recentemente a Coester – que faz automação de válvulas – encerrou uma parceria com um grupo francês porque não teve suas expectativas correspondidas. “As empresas estrangeiras ainda têm uma visão um pouco predatória em relação a parcerias no Brasil. Várias empresas que passaram por aquisições tiveram desativadas a área de desenvolvimento tecnológico no Brasil, e as competências que existiam foram levadas para fora”, explica Marcus Coester, diretor de marketing da Coester.
Tecnologia não é problema para a indústria nacional. Prova disso é a liderança da Petrobras em exploração e produção em águas profundas. “Se a Petrobras é recordista mundial e compra a maior parte dos bens no Brasil, é porque o país tem uma indústria boa, capacitada, que fornece equipamentos de qualidade”, explica Eduardo Rappel, diretor–geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo – Onip.
A liderança da Petrobras em águas profundas foi um dos principais fatores de desenvolvimento da indústria nacional nos últimos anos. Incentivado pela companhia, o setor passou a produzir todo o tipo de bens – para a produção offshore, por exemplo, passou a fabricar equipamentos para atuar cada vez em maior profundidade. “A indústria seguiu a liderança da Petrobras. Este ano, as seis empresas que produzem equipamentos subsea no Brasil estão fabricando árvores de natal para atuar a 2.500 metros de profundidade, o que é inédito”, conta José Mauro Ferreira, da FMC.
Até a ANP tem adotado mecanismos para estimular o desenvolvimento da indústria nacional. A Agência introduziu em seus leilões a pontuação por comprometimento de aquisição de equipamentos ou serviços no mercado local – enquanto o lance financeiro tem peso de 85% na oferta, o comprometimento de utilização da indústria nacional conta 15%.
“É elogiável a ação da ANP de pontuar a participação do conteúdo nacional na oferta. Isso tem uma aplicação prática: as companhias têm interesse em comprar no mercado local porque valoriza a proposta, e os fornecedores nacionais têm interesse em vender”, conta José Eduardo Jardim.
“Há uma série de vantagens competitivas em você comprar localmente, como assistência técnica, manutenção e reposição”, analisa Eduardo Rappel. “Até porque comprar no Brasil, com um dólar girando em torno de R$ 2,45, é muito mais interessante”, completa Teófilo Orth, da Abdib.
Rappel: tônica da Onip tem sido maximizar a participação da indústria nacional
Maximizando a participação da indústria local
Quando o assunto é importação, ainda existem duas barreiras a serem ultrapassadas: Em primeiro lugar, alguns itens são fabricados por poucas empresas e não é usual serem produzidos em alta escala mundial. É o caso de grandes turbocompressores e de turbinas a gás, no qual existem apenas quatro fabricantes capacitados. “Tentamos incentivar as indústrias estrangeiras a se instalarem aqui. Mesmo que não produza determinados componentes em solo brasileiro, já conseguiremos maximizar em determinado grupo o conteúdo nacional”, informa Alberto Machado Neto, superintendente da Onip.
A idéia é também nacionalizar a manutenção dos produtos importados, através da criação de subsidiárias de empresas estrangeiras, ou por convênios, treinando equipes brasileiras.
Por outro lado, as companhias que estão se instalando no país já possuem uma carteira de fornecedores tradicionais e não conhecem ainda o mercado nacional. “Existem casos de usinas termelétricas que foram importadas integralmente. À medida que essas companhias conhecerem a indústria nacional, o cenário mudará radicalmente”, conta Teófilo Orth.
Pelas contas da Onip, a indústria eletroeletrônica, por exemplo, tem condições de fornecer 80% de equipamentos necessários. “Temos algumas empresas que estão no top em determinados processos. É o caso da Altus e da Coester, que atuam na área eletroeletrônica tendo condições de fazer toda a parte de gerenciador de processo. O sistema todo tem um alto conteúdo nacional”, diz Alberto Machado.
Criada há dois anos, a tônica da Onip tem sido maximizar a participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços.
“Trabalhamos de duas formas: uma é o Cadastro de Fornecedores, e outra é divulgar essa capacitação instalada para as companhias”, explica Eduardo Rappel.
O Cadastro da Onip dispõe de 350 empresas qualificadas para fornecer equipamentos e serviços para o setor de petróleo, sem contar outras 700 que estão em processo de cadastramento. “As companhias precisavam ter uma fonte de informação sobre quem produz no Brasil, então a Onip se prontificou a fazer esse cadastro. A idéia é chegar ao final do ano com 1000 empresas cadastradas, praticamente 90% dos principais fornecedores de bens e serviços do setor de petróleo no país”, conta o diretor da entidade.
Para divulgar o potencial da indústria brasileira, a Onip tem levado as empresas para participar de eventos mundo afora. “Temos um programa chamado ‘Visibilidade Competitiva’. Ele busca mostrar a capacitação do mercado nacional às empresas que irão se instalar aqui. Para isso participamos de feiras no exterior que, muito mais do que a busca de exportação, mostramos que quem vier se instalar aqui pode comprar aqui. Fazemos propaganda lá fora visando o próprio mercado nacional”, diz Machado.
Só este ano, a Onip levou 15 empresas para a Offshore Technology Conference, que aconteceu em maio, em Houston / EUA. E ainda estão programadas exposições na Offshore Europe, em setembro, na Inglaterra, e na Argentina Oil & Gas, em outubro.
Medeiros: direcionar a pesquisa ao interesse das empresas
Finep quer empresa participando de pesquisas
O Plano Nacional de Ciência e Tecnologia de Petróleo e Gás Natural – CTPetro, novo modelo de financiamento ao desenvolvimento científico, deverá aproximar a indústria dos centros de pesquisa com o lançamento de carta–convite às empresas. “O CTPetro inaugurou essa nova modalidade de financiamento tanto para reunir competências em busca de um resultado comum quanto para direcionar as atividades de pesquisa e desenvolvimento ao interesse das empresas”, explica Rogério Amaury de Medeiros, coordenador setorial de Petróleo, Gás e Petroquímica da Financiadora de Estudos e Projetos – Finep.
Pelo modelo, as empresas interessadas devem estar dispostas a aplicar no mínimo R$ 250 mil – com a contrapartida da Finep no mesmo valor – no projeto que se enquadre em suas necessidades. “Queremos ver a universidade e a empresa trabalhando juntos”, conta Medeiros.
“Essa combinação é extraordinária, e quem ganha com isso é o Brasil”, avalia José Eduardo Jardim.
Só a Petrobras tem uma carteira que ultrapassam 400 projetos financiados pelo CTPetro. “As empresas podem participar do desenvolvimento tecnológico em algum desses projetos, evitando que sejam surpreendidos com uma demanda que não possam atender”, disse Carlos Camerini, gerente executivo do Centro de Pesquisas da Petrobras.
Um bom exemplo de parcerias entre empresas e centros de pesquisa foi o desenvolvimento de métodos de previsão da vida útil de cabos umbilicais, desenvolvido a partir de uma parceria firmada entre a Pirelli e a Unicamp. “O que é importante não é só o produto final, mas também as trocas que ocorrem durante o convênio, como o envolvimento do aluno com a empresa”, avalia o professor Clovis de Arruda Martins.
A Atri–Nylox, que fabricava mangueiras de jardim, foi outra empresa que investiu no desenvolvimento tecnológico através de acordos de parceria com a Petrobras e com a Coppe / UFRJ. O resultado foi o desenvolvimento do umbilical para operação em lâminas d’água de até 3 mil metros.
Tome como exemplo os Estados Unidos, onde o desenvolvimento tecnológico é mais adiantado que no Brasil: 80% dos PhD’s estão nas empresas. No Brasil esse valor é inversamente oposto: 80% dos doutores continuam nas universidades.
“A inovação se dá na empresa, porque tem a aplicação prática. A pesquisa básica é indispensável, mas o lado prático dá o caráter inovador ao pensamento, porque a preocupação com os conceitos está relacionada à solução de um problema real”, avalia Eduardo Rappel.
Mas grande parte das indústrias ainda tem receios em firmar parcerias dessa natureza. “As empresas brasileiras não estão acostumadas a investir em tecnologia”, conta Camerini.
Se o problema for dinheiro, a Finep ainda permite a criação de consórcios entre as empresas interessadas em um projeto comum. “Mesmo esse investimento, que será pequeno dependendo do número de empresas, a Finep pode financiar”, explica o gerente do Cenpes.
Segundo Camerini, é comum, no exterior, existirem projetos sendo executados por um centro de pesquisas, onde participam várias empresas. “Aqui no Brasil os concorrentes não se unem para desenvolver tecnologia”.
Nem mesmo os sub–fornecedores costumam participar de desenvolvimentos tecnológicos. “Se a Petrobras está desenvolvendo uma tubulação nova, o fabricante do tubo, da chapa ou a empresa que inspeciona não participam. No exterior, esse grupo normalmente está unido Essa sinergia entre os vários atores traz um ganho muito grande no desenvolvimento tecnológico”, avalia o gerente do Cenpes.
“O projeto ainda é uma novidade. À medida em que as empresas começarem a participar, a moda pega”, finaliza Teófilo Orth.