Edição 228 – Junlo de 2001
ANP arrecada R$ 595 milhões e já prepara Round 4º

Dos 43 blocos oferecidos, 34 despertaram interesse

A Terceira Rodada de Licitações de Áreas de Exploração de Petróleo e Gás da Agência Nacional do Petróleo não teve apenas uma arrecadação recorde; na verdade, mais sete empresas privadas entram na corrida de exploração dos recursos brasileiros. Antes, 36 já estavam explorando o território a procura de petróleo. E as que entraram neste leilão, fizeram questão de mostrar o seu poder de fogo. A alemã Wintershall investiu R$ 83 milhões; a norueguesa Statiol R$ 5 milhões; a dinamarquesa Maersk R$ 614 mil, a Kock, R$ 1,8 milhão e as americanas Phillips e Samson, somaram mais de R$ 155 milhões de investimentos.
Dos 43 blocos oferecidos, 34 despertaram interesse das empresas do setor. Isso gerou uma receita de R$ 595 milhões nos dois dias de leilão. As empresa que ofereceram os maiores lances foram a Phillips, a Wintershall, a Petrobras (com R$ 82 milhões e 15 blocos arrematados), e Amerda Hess, a El Paso e a Ocean Energy.
Um fato positivo foi que a atual crise de energia não atrapalha o interesse das empresas no leilão. O diretor-geral da ANP, David Zylbersztajn, disse que o “setor de petróleo é um setor de investimentos de longo prazo”, acentuando que a crise de energia elétrica não é problema, já que ela leva à diversificação das formas de energia como o gás.
Apesar do ágio ter sido alto – o preço mínimo era de R$ 10,2 milhões e o valor arrecado foi de R$ 594 milhões – ficando em cerca de 5.733%, a ANP não considera este percentual, alegando que o valor inicial não é um valor de mercado. O aproveitamento total da venda dos blocos foi de 66%, considerado um bom percentual pela ANP.

Vedetes do Leilão
Num leilão atípico, pelo lance milionário e surpreendente dado pela Philips, a Terceira Rodada teve como vedetes os blocos situado no Espírito Santo, na Bacia de Potiguar, no Ceará, no Maranhão e no Pará. Juntas elas somaram cerca de 48% dos lances, sendo bastante disputadas pelas novas empresas que entraram no país.
Campos e Santos não despertaram tanto interesse nesta rodada por seus blocos se situarem em águas ultraprofundas. As companhias que tem experiência nesta área estão comprometidas com blocos adquiridos em outras rodadas de leilão.
A própria Petrobras, que em alguns momentos foi agressiva nos lances e em outros foi tímida, se espantou com as novas companhias que desembarcaram no país. Segundo o gerente da companhia Carlos Alberto de Oliveira, “o apetite das empresas que vieram para o Brasil foi uma surpresa”.
Na verdade, as estrangeiras foram responsáveis pelas quatro derrotas sofridas pela Petrobras no primeiro dia de leilão. A companhia sozinha ou em parcerias disputou 20 áreas, venceu em 15 (sozinha em 7) e fez um investimento total de R$ 82,2 milhões.
Para o país, um retrocesso. O compromisso de contratação de materiais e serviços no país na fase exploratória foi de 28,4% e de 39% na fase de desenvolvimento. O índice médio ficou então em 34%. No último leilão este investimento foi de 47%. A Organização Nacional da Indústria de Petróleo – Onip esperava pelo menos 50% e seu diretor-geral, Eduardo Rappel, disse que esta retração deve prejudicar a indústria brasileira que tomou providências para garantir a capacidade brasileira em fornecer serviços e equipamentos.

Round 4º terá áreas inéditas
David Zylbersztajn anunciou que a próxima rodada de licitações, no ano que vem, incluirá quatro bacias inéditas: Pernambuco/Paraíba, Bacia de Pelotas (no Rio Grande do Sul), Parnaíba (Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará), e São Franscisco (Bahia, Minas, Goiás e Tocantins). A ANP já está convidando empresa para ajudar a formatar o Round 4. Em comunicado no site da agência, (www.anp.gov.br), foi disponibilizada uma mensagem com o objetivo de preparar as próximas rodadas de licitações para a contratação de atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural. A idéia é que a ANP receba comentários e sugestões sobre áreas a serem ofertados nas próximas rodadas de licitações. Segundo a Agência, todas as correspondências recebidas serão utilizadas internamente e tratadas como confidenciais. Não há, por parte da ANP, obrigação legal ou comprometimento de que os blocos ou as áreas sugeridas serão ofertadas nas próximas licitações. As companhias também não terão nenhuma obrigação legal de fazer ofertas para os blocos ou áreas por elas sugeridas.

Margem Equatorial: o novo Eldorado de Oil & Gás
O 3º Round mostrou, em parte, uma certa saturação das áreas já exploradas na região sudeste. Segundo o superintendente de licitações da ANP, Ivan Simões Filho, o interesse das empresas daqui para frente deve se concentrar na região nordeste que se apresenta como uma nova fronteira para exploração e produção de petróelo no Brasil. Já no 3º Round esta tendência se mostrou com a aquisição de oito das nove áreas oferecidas na chamada margem equatorial, que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. Empresas que tem um faro apurado no setor como a Petrobras, Koch, Rainier, Philips e Pan Canadian já delimitaram seu espaço nesta região que deve ter mais blocos oferecidos num 4º Round. Para apoiar a tese de que a região é promissora e tem um potencial geológico interessante, a Universidade Federal de Ouro Preto tem feito um estudo contratado por dez empresas há dois anos. Segundo Simões Filho, a reserva provável do Brasil é de 22 bilhões de barris de petróleo, dos quais 10 bilhões já estão provados. Num corte comparativo com a Nigéria, que tem um espelho de reservas idênticas às nossas, é certo que a margem equatorial terá um papel importante nos próximos anos de exploração de petróleo e gás. Os lances mais expressivos do leilão estiveram concentrados nesta área da margem equatorial. Foi lá que a Phillips investiu parte dos R$ 154 milhões e ganhou o BM-Pama-3 na bacia Pará-Maranhão derrotando a Petrobras e a PanCanadian. A Petrobras investiu na margem equatorial R$ 48,3 milhões pelo BM-BAR-1 e a Pan Canadian também levou um bloco na área com R$ 6,3 milhões, o BM-Pama-2. Koch, Partex, Marítima, El Paso e Rainier também demonstraram interesse pela área.


El Paso firma compromisso com o país
A El Paso não fez feio no 3º Round de licitações da ANP. Adquiriu no total quatro blocos. Seu compromisso com o Brasil é de tal ponto que no primeiro dia do leilão, 19 de Junho, inaugurou um novo escritório no Rio. No total a El Paso tem 7 blocos operando no Brasil: dois no Paraná, dois na Bahia, um em Santos, um no Espírito Santo e outro no bloco de Pará-Maranhão. A empresa já investiu mais de um bilhão de dólares no país. Eles querem criar aqui o mesmo tipo de operação verticalizada que realizam nos Estados Unidos. Sendo uma das maiores companhias de coleta de gás natural norte-americana, a El Paso pretende produzir, transportar e construir usinas termelétricas. O gás produzido irá ser vendido para quem quiser e precisar. Os blocos adquiridos nessa rodada foram o BM-ES-5, no Espírito Santo sendo a Petrobras como operadora, o BM-ES-6, também no Espírito Santo, o BM-S-13, em Santos, o BM-CAL-5, em parceria com a Petrobras, Queiroz Galvão e Petroserv. A empresa se mostrou disposta a operar em todos os novos blocos. O valor mais alto pago pela a El Paso em um bloco foi de R$ 52.243.729 para o BM-S-13. “Demos essa oferta alta por causa da competição. As outras empresas eram grandes, como a BHP e a Maersk, e nós realmente queríamos esse bloco” explica o vice presidente Harvey Klingensmith.
Phillips: de novata a campeã da 3ª Rodada
A Phillips foi a grande vencedora do 3º Round de licitações da ANP. No total a empresa gastou R$ 154.067.550 em dois blocos. Até então desconhecida no mercado brasileiro, a empresa surpreendeu a todos com o alto valor de suas aquisições em solo nacional. Segundo o diretor geral no Brasil Bob Fryklund quem entra em uma disputa como essa, é para ganhar.
Os blocos adquiridos pela Phillips foram BM-PAMA-3, localizado na Bacia Para-Maranhão e o BM-ES-11, localizado na Bacia do Espírito Santo. O segundo bloco foi adquirido em preço recorde: R$ 117 milhões. “Nós já estavamos estudando esse bloco a um ano e ele é muito promissor” explica Fryklund. A empresa participou do 2º Round, mas perdeu para Shell.
A Phillips é a segunda maior refinaria do Estados Unidos. Ela se dedica a atividades como exploração e produção de óleo e gás em todo o mundo, assim como a coleta e processamento de gás natural no seu país de origem. A empresa tem participação acionária na Duke Energy Field Services, que cuida da comercialização do gás, e na Chevron Phillips Chemical Company, fábrica de produtos químicos e matéria plástica.
A exploração e produção são o maior segmento da companhia. Só no ano de 2000 a E&P tinha 14 bilhões de dólares ativos em dezembro, e 31 países foram explorados, como Canadá, Nigéria e Venezuela. A produção média de óleo cru desse ano foi de 437 mil barris por dia e de gás natural foi de aproximadamente 1,4 bilhões de pés cúbicos por dia. A Phillips comprou em abril do ano passado a Arco’s Alaskan, dobrando suas reservas de hidrocarbonetos.Espera-se que esse número aumente nos próximos anos, tornando o Alasca a principal área de produção, sendo seguida pelo complexo de Ekofisk, no setor norueguês do Mar do Norte.
Esse ano a Phillips está concentrando seus projetos no Alasca e em países no continente americano, bem como projetos de desenvolvimentos de gás no Mar do Timor e projetos no campo PL-19-3 na Baía de Bohai da China. No Brasil, a companhia pretende ainda este ano fazer os estudos geológicos e geofísicos nos dois blocos adquiridos. “Queremos que nossa estadia no Brasil seja longa e duradoura” diz Bob Fryklund.