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A integração dos países da América do
Sul, tão sonhada por Simon Bolívar, tem caminhado a largos passos quando
o assunto é energia. Hoje o Brasil compra energia elétrica do Paraguai,
gás natural da Bolívia e petróleo da Argentina, que vende gás natural
também para o Chile e Uruguai. Mas isso é só o começo... “Independente
das outras variáveis macroeconômicas, a energia poderá integrar–se”, avaliou
o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, que coordenou uma
das mesas redondas no 18º World Energy Congress, realizado na Argentina.
Reichstul explica que a relevância da América Latina e Caribe está no
fato de que os investidores, o abastecimento e a demanda estão todos juntos.
Para o presidente da Repsol YPF, Afonso Cortina, a integração energética
resultará na estabilidade do mercado e em novas oportunidades. Cortina
cita como exemplo a crise energética por que passa o Brasil. “A crise
energética brasileira mostra o custo da não-integração: a falta de interconexão
do Brasil com seus vizinhos resultou numa forte dependência de chuvas.
Se a interconexão existisse, evitaria a atual crise”.
Segundo Reichstul, a energia é um produto básico, que pode ser comercializado
independente de outros produtos. “Qualquer que seja o futuro no cenário
macroeconômico, combustíveis e energia passam pela fronteira mais facilmente
do que frangos ou sapatos”.
O presidente da Repsol YPF lembra que os governos terão de desempenhar
um papel fundamental para alcançar a integração do setor energético: se
o setor privado é o protagonista dos investimentos necessários, os governos
deverão harmonizar suas regras e criar marcos regulatórios. “À medida
que o setor energético se expande, a integração regional se torna imprescindível”.
Presidente destaca situação argentina
O 18º World Energy Congress foi inaugurado
pelo presidente argentino Fernando de la Rúa, que destacou o papel que
o país alcançou no setor energético. “A Argentina conta com grandes reservas
de hidrocarbonetos líquidos e gasosos, com energia elétrica de diversas
fontes, com energia nuclear, térmica, hidrelétrica, e estamos incorporando
a eólica. E a produção e comercialização se desenvolvem em um ambiente
de estabilidade e segurança jurídica, com uma legislação e regulação cuja
instrumentação foi pioneira na região e no mundo”.
Para de la Rúa, a energia forma parte dos problemas estratégicos mais
importantes que afrontam os Estados: os problemas de abastecimento diversificado
e seguro, a esgotabilidade dos recursos não renováveis, o impacto sobre
o meio ambiente provocado tanto pela produção quanto pelo consumo, e os
problemas derivados do funcionamento dos mercados. “Estes temas são parte
da agenda nacional e internacional. Porque existe uma desequilibrada distribuição
dos recursos energéticos naturais, muitas vezes distantes dos centros
de consumo. Isto obriga aos governos a definir estratégias para um aproveitamento
regional”.
O presidente destacou ainda a prevenção ambiental. “O impacto da produção
e do consumo desordenado no passado estamos pagando hoje, com fenômenos
como o aquecimento global. A questão ambiental é chave para um desenvolvimento
sustentável. Os países que produziram os grandes passivos ambientais devem
esforçar para saldá-los. E isso ainda não possui um acordo mundial indispensável
para levá-lo a cabo”.
O secretário geral do World Energy Conceil, Gerald Doucet, destacou como
a maior exposição da história da organização, agradecendo as “395 empresas
e países que procuram ser parte da solução aos desafios do setor energético”.
Desafios
Peter Sutherland, presidente da BP, que
participou da primeira sessão plenária do Congresso através de videoconferência,
avalia que o desafio principal do setor não é uma limitação dos recursos
energéticos, mas saber como utilizá-los sabiamente. “A indústria não deve
manter-se excessivamente na defensiva, nem realizar promessas excessivas,
que não podem ser cumpridas. Tem que debater os temas com franqueza”.
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O presidente da Endesa, Rodolfo Villa, destacou a relação existente entre
o desenvolvimento do setor energético e o desenvolvimento de uma nação.
“As desigualdades entre os países serão maiores se não corrigimos o desenvolvimento
energético”.
Para Pierre Gadonneix, presidente da Gaz de France, os desafios que as
indústrias enfrentam são de ordem ambiental e de proporcionar acesso a
todos. “O dinamismo do setor responderá positivamente”.
Gadonneix, que presidiu a sessão de discussões sobre as perspectivas da
indústria, explica que a energia de fontes renováveis ainda é restrita
nas primeiras décadas do século. “Mais de 80% das fontes ainda são fósseis.
Nos próximos dez anos se manterá em 70%”.
Uma das formas mais imediatas para responder aos desafios, segundo Maurice
Valais, da TotalinaElf, é o gás natural liquefeito. “50% das reservas
do mundo estão ociosas, por isso o LNG é interessante para alcançar outros
mercados”.
Além do LGN, que poderá ter seus custos reduzidos em 20% em 10 anos, a
quantidade de petróleo recuperável poderá chegar a 50% nos próximos 20
anos, e o rendimento das usinas movidas a carvão deverá chegar a 50%.
“O progresso tecnológico é um fator chave para tornar a energia acessível”,
avalia o presidente da Gaz de France.
A discussão também fez parte da mesa redonda sobre o mercado regional
da América Latina. Para Thierry Desmarest, CEO da TotalFinaElf, ainda
falta uma tecnologia para viabilizar a produção de petróleo extra-pesado.
Dos atuais 600 mil barris diários, a produção desse tipo de óleo poderá
saltar para 2 milhões a 4 milhões de barris diários em 2020. “A América
Latina tem muitos recursos naturais e grande capacidade para produzir
energia renovável”.
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Volatilidade de preços
Outro desafio do setor é acabar com a volatilidade nos preços do petróleo,
problema enfrentado desde a década de 1970 – e por conseqüência nos preços
do gás natural, que ainda são vinculados ao petróleo. “A criação de mercados
futuros de energia pode acabar com essa volatilidade”, sugere Reichstul.
A idéia é ratificada pelo ministro de Desenvolvimento Econômico da Bolívia,
Carlos Kempff Bruno. “Para um país exportador de gás, a volatilidade nos
preços é preocupante. Esse insumo tem que ser menos influenciado pelo
petróleo”.
A saída, segundo o ministro, é criar um mercado spot a partir do LGN.
O transporte de gás natural liquefeito tem crescido cerca de 6% ao ano,
atingindo mercados que não poderiam receber o insumo através de gasodutos.
“A Ásia é a maior consumidora de LNG, responsável por 70% das importações
globais no ano 2000”, conta Kempff Bruno.
Segundo o ministro, a volatilidade nos preços do petróleo é provocada
por uma série de fatores, com destaque para os eventos políticos, a balança
entre as decisões da OPEP e os países importadores, e as crises econômicas.
“Devido a esses problemas, os planos de longo prazo são sempre dificultados”.
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