Edição ESPECIAL 231 – Outubro de 2001

Energia dá exemplo de integração regiomal

Reichstul: energia poderá integrar–se, independente das outras variáveis macroeconômicas

A integração dos países da América do Sul, tão sonhada por Simon Bolívar, tem caminhado a largos passos quando o assunto é energia. Hoje o Brasil compra energia elétrica do Paraguai, gás natural da Bolívia e petróleo da Argentina, que vende gás natural também para o Chile e Uruguai. Mas isso é só o começo... “Independente das outras variáveis macroeconômicas, a energia poderá integrar–se”, avaliou o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, que coordenou uma das mesas redondas no 18º World Energy Congress, realizado na Argentina.
Reichstul explica que a relevância da América Latina e Caribe está no fato de que os investidores, o abastecimento e a demanda estão todos juntos.
Para o presidente da Repsol YPF, Afonso Cortina, a integração energética resultará na estabilidade do mercado e em novas oportunidades. Cortina cita como exemplo a crise energética por que passa o Brasil. “A crise energética brasileira mostra o custo da não-integração: a falta de interconexão do Brasil com seus vizinhos resultou numa forte dependência de chuvas. Se a interconexão existisse, evitaria a atual crise”.
Segundo Reichstul, a energia é um produto básico, que pode ser comercializado independente de outros produtos. “Qualquer que seja o futuro no cenário macroeconômico, combustíveis e energia passam pela fronteira mais facilmente do que frangos ou sapatos”.
O presidente da Repsol YPF lembra que os governos terão de desempenhar um papel fundamental para alcançar a integração do setor energético: se o setor privado é o protagonista dos investimentos necessários, os governos deverão harmonizar suas regras e criar marcos regulatórios. “À medida que o setor energético se expande, a integração regional se torna imprescindível”.

Presidente destaca situação argentina

O 18º World Energy Congress foi inaugurado pelo presidente argentino Fernando de la Rúa, que destacou o papel que o país alcançou no setor energético. “A Argentina conta com grandes reservas de hidrocarbonetos líquidos e gasosos, com energia elétrica de diversas fontes, com energia nuclear, térmica, hidrelétrica, e estamos incorporando a eólica. E a produção e comercialização se desenvolvem em um ambiente de estabilidade e segurança jurídica, com uma legislação e regulação cuja instrumentação foi pioneira na região e no mundo”.
Para de la Rúa, a energia forma parte dos problemas estratégicos mais importantes que afrontam os Estados: os problemas de abastecimento diversificado e seguro, a esgotabilidade dos recursos não renováveis, o impacto sobre o meio ambiente provocado tanto pela produção quanto pelo consumo, e os problemas derivados do funcionamento dos mercados. “Estes temas são parte da agenda nacional e internacional. Porque existe uma desequilibrada distribuição dos recursos energéticos naturais, muitas vezes distantes dos centros de consumo. Isto obriga aos governos a definir estratégias para um aproveitamento regional”.
O presidente destacou ainda a prevenção ambiental. “O impacto da produção e do consumo desordenado no passado estamos pagando hoje, com fenômenos como o aquecimento global. A questão ambiental é chave para um desenvolvimento sustentável. Os países que produziram os grandes passivos ambientais devem esforçar para saldá-los. E isso ainda não possui um acordo mundial indispensável para levá-lo a cabo”.
O secretário geral do World Energy Conceil, Gerald Doucet, destacou como a maior exposição da história da organização, agradecendo as “395 empresas e países que procuram ser parte da solução aos desafios do setor energético”.

Desafios

Peter Sutherland, presidente da BP, que participou da primeira sessão plenária do Congresso através de videoconferência, avalia que o desafio principal do setor não é uma limitação dos recursos energéticos, mas saber como utilizá-los sabiamente. “A indústria não deve manter-se excessivamente na defensiva, nem realizar promessas excessivas, que não podem ser cumpridas. Tem que debater os temas com franqueza”.

Cortina: interconexão com países vizinhos poderia evitar racionamento no Brasil

O presidente da Endesa, Rodolfo Villa, destacou a relação existente entre o desenvolvimento do setor energético e o desenvolvimento de uma nação. “As desigualdades entre os países serão maiores se não corrigimos o desenvolvimento energético”.
Para Pierre Gadonneix, presidente da Gaz de France, os desafios que as indústrias enfrentam são de ordem ambiental e de proporcionar acesso a todos. “O dinamismo do setor responderá positivamente”.
Gadonneix, que presidiu a sessão de discussões sobre as perspectivas da indústria, explica que a energia de fontes renováveis ainda é restrita nas primeiras décadas do século. “Mais de 80% das fontes ainda são fósseis. Nos próximos dez anos se manterá em 70%”.
Uma das formas mais imediatas para responder aos desafios, segundo Maurice Valais, da TotalinaElf, é o gás natural liquefeito. “50% das reservas do mundo estão ociosas, por isso o LNG é interessante para alcançar outros mercados”.
Além do LGN, que poderá ter seus custos reduzidos em 20% em 10 anos, a quantidade de petróleo recuperável poderá chegar a 50% nos próximos 20 anos, e o rendimento das usinas movidas a carvão deverá chegar a 50%. “O progresso tecnológico é um fator chave para tornar a energia acessível”, avalia o presidente da Gaz de France.
A discussão também fez parte da mesa redonda sobre o mercado regional da América Latina. Para Thierry Desmarest, CEO da TotalFinaElf, ainda falta uma tecnologia para viabilizar a produção de petróleo extra-pesado. Dos atuais 600 mil barris diários, a produção desse tipo de óleo poderá saltar para 2 milhões a 4 milhões de barris diários em 2020. “A América Latina tem muitos recursos naturais e grande capacidade para produzir energia renovável”.

De la Rúa: legislação pioneira na região e no mundo

Volatilidade de preços

Outro desafio do setor é acabar com a volatilidade nos preços do petróleo, problema enfrentado desde a década de 1970 – e por conseqüência nos preços do gás natural, que ainda são vinculados ao petróleo. “A criação de mercados futuros de energia pode acabar com essa volatilidade”, sugere Reichstul.
A idéia é ratificada pelo ministro de Desenvolvimento Econômico da Bolívia, Carlos Kempff Bruno. “Para um país exportador de gás, a volatilidade nos preços é preocupante. Esse insumo tem que ser menos influenciado pelo petróleo”.
A saída, segundo o ministro, é criar um mercado spot a partir do LGN. O transporte de gás natural liquefeito tem crescido cerca de 6% ao ano, atingindo mercados que não poderiam receber o insumo através de gasodutos. “A Ásia é a maior consumidora de LNG, responsável por 70% das importações globais no ano 2000”, conta Kempff Bruno.
Segundo o ministro, a volatilidade nos preços do petróleo é provocada por uma série de fatores, com destaque para os eventos políticos, a balança entre as decisões da OPEP e os países importadores, e as crises econômicas. “Devido a esses problemas, os planos de longo prazo são sempre dificultados”.