Edição 233 – Dezembro/Janeiro de 2002

ISO 9000 passa por transição
Lobo: “edição 2000 da norma vem focada em qualidade da gestão”

A partir de 15 de dezembro de 2003, os certificados baseados na versão 1994 das normas ISO 9000 perderão a validade. Após mais de dois anos de trabalho, o comitê técnico TC-176, da ISO, publicou, em 15 de dezembro do ano 2000, a nova versão da norma. Criado em 1986, o protocolo da ISO 9000 prevê atualizações num intervalo médio de 5 anos. “A primeira revisão aconteceu em 1994. A versão 2000 traz agora uma visão da gestão”, pontua Alfredo Lobo, diretor de certificações do Inmetro.
“Uma norma como essa, que acabou sendo adotada como padrão de referência em diversos países, não pode ficar mudando a toda hora, pois provocaria uma revolução na vida das empresas”, avalia Pedro Paulo Guimarães, vice-presidente da certificadora Bureau Veritas.
Frederico Cabral, diretor de Certificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, explica que as mudanças na ISO 9000 requerem sugestões dos agentes envolvidos com a norma – organismos credenciadores, entidades certificadoras e usuários. “As mudanças na norma não nasceram na cabeça de um grupo, foram solicitações dos próprios usuários”.
A principal diferença da versão 2000 em relação à anterior, destacada por todos os agentes, é a ênfase na gestão do processo. “Enquanto a versão 94 da ISO 9000 enfatizava requisitos específicos de gestão da qualidade, a edição 2000 da norma vem focada em qualidade da gestão”, explica Lobo.
“A nova norma deu ênfase ao sistema de gestão da qualidade”, complementa Maurício Venturim, diretor de Certificações da DNV. Venturim destaca ainda as diretrizes de melhoria contínua embutidas na nova versão e o maior comprometimento da alta administração da empresa – o que torna o sistema mais dinânico.
A ISO 9000:2000 também traz uma abrangência maior em relação ao atendimento das necessidades de todas as partes da organização a ser certificada. Na versão anterior, cada tipo de empresa se enquadrava em uma ramificação da norma (ISO 9001, 9002 ou 9003), agora essa diferença estará descrita no escopo de certificação. “A norma é aplicável a qualquer tipo de empresa”, explica Cabral.
Nessa nova edição, os 20 requisitos do padrão anterior estão agora divididos em quatro grupos: Responsabilidade da direção, Gestão de recursos, Realização do Produto e Medição, Análise e Melhoria. A revisão permitiu uma série de mudanças para facilitar a aplicação dentro das empresas, principalmente as de pequeno e médio porte – uma das reclamações era quanto a inclinação da ISO para o setor industrial, complicando a certificação para os segmentos comercial e de serviços. “A nomenclatura está mais adaptada ao setor de serviços, que utilizava a norma ISO 9000, mas apresentando alguma dificuldade em compreender os conceitos”, pontua Cabral.
Um dos objetivos, tanto dos órgãos credenciadores quanto das entidades certificadoras, é conseguir que micro e pequenas empresas implantem sistemas de gestão com vistas à certificação. “A fase de certificação das grandes empresas já passou, o mercado hoje gira em torno de médias e pequenas empresas”, avalia Julio Fonseca, diretor da certificadora BVQI.

Pedro Paulo: padrão de referência em diversos países

Empresas têm dois anos para novos certificados
Seguindo as práticas internacionais e as orientações do International Acreditation Forum – IAF, no Brasil foi estabelecida uma fase de transição para a implantação da versão 2000. A versão 1994 da ISO ainda pode ser utilizada para certificação de sistemas de gestão da qualidade até 15 de dezembro de 2003. “As empresas podem ser certificadas, ou renovar a certificação com base na versão anterior. No ano 2001, mais de 90% dos certificados foram emitidos com base na edição 1994”, conta Lobo.
Segundo Maurício Venturim, a tendência será, a partir do segundo semestre de 2002, haver um aumento gradual no número de adaptações para a nova ISO 9000. “Como as empresas têm prazo até o final de 2003, muitas estão apostando em treinamento da nova versão”.
Isso justifica a retração no número de certificações em 2001. “Com a aproximação da mudança de uma norma, quem já vinha trabalhando com a nova versão se certificou. Outras empresas preferiram esperar a publicação para começar seus trabalhos”, conta Cabral.
Pelos dados do Inmetro, mais de 3000 certificados foram expedidos baseados na versão 1994, ao passo que, até o final de 2001, 125 certificados emitidos estavam baseados na nova ISO 9000. “Por conta da edição da nova norma, as empresas precisaram de um tempo para interpretar as mudanças”, completa Alfredo Lobo.
Venturim explica que a DNV vem se preparando para atender a quantidade de serviço que será gerada até o final de 2003, em virtude das adaptações à versão 2000 da ISO.

ABNT e Inmetro querem acabar com uso indevido da ISO
A ABNT – órgão representante da ISO no Brasil – e o Inmetro – órgão credenciador de entidades certificadoras – estão preocupados com a maneira como a marca ISO vem sendo utilizada no país. Não é difícil ver uma empresa que se auto-intitula “certificada pela ISO”. Segundo Cabral, a certificação não é feita pela instituição ISO, mas por intermédio de uma certificadora. “A entidade certificadora assegura que o sistema de gestão da empresa tenha um padrão de qualidade dentro da norma ISO”.
Outro problema é a confusão formada entre certificação de sistema de gestão e qualidade do produto. O diretor da ABNT explica que a ISO não é sinônimo de excelência de produto, mas uma norma de gestão. “O produto não é especificado na certificação ISO 9000. Para isso, existem as certificações de produtos”, explica o diretor de certificações da ABNT.


Certificados Válidos com Marca de Credenciamento Inmetro
Total Apurado por
Quantidade
Certificados com Padrão Normativo ISO 9001:1994
700
Certificados com Padrão Normativo ISO 9001:2000
125
Certificados com Padrão Normativo ISO 9002:1994
2762
Certificados com Padrão Normativo ISO 9003:1994
13
Total de Certificados ISO 9000
3600

Atenção ao cliente é maior vantagem da ISO 9000:
2000, avalia BVQI
Julio: retomada das certificações

Enquanto a versão 1994 da ISO 9000 a preocupação com as necessidades do cliente final era tratada apenas como uma prescrição, a nova versão da norma exige que esse item seja identificado através de técnicas, e que, por conseqüência, isso signifique um ajuste dos processos internos da empresa. “Algumas empresas se preocupavam em mostrar que faziam alguma coisa, e portanto conseguiam uma certificação, mas o processo de melhoria contínua no relacionamento entre fornecedor e cliente não era o caráter da norma. Assim as entidades certificadoras não cobravam dessa forma”, conta Pedro Paulo Guimarães, VP da Bureau Veritas para a América Latina.
Na análise de Pedro Paulo, um sistema de gestão é algo que precisa evoluir, e passar por verificações do atendimento às necessidades. “Esse é o maior ganho que se podia ter”.
Julio Fonseca, diretor da certificadora BVQI – braço de certificações do Bureau Veritas, explica que, entre a primeira edição da ISO 9000 – em 1986 – e a revisão – em 1994 – não ocorreu uma mudança substancial, mas o detalhamento de alguns pontos. “Em 1994 já havia uma tendência, entre os grandes usuários da norma, das evoluções que iriam ocorrer, como deixar de lado um enfoque nos 20 requisitos normativos”.
Em meio às discussões, surgiu a proposta de dar mais atenção aos requisitos do cliente, que deveria perceber o efeito positivo da implementação de um sistema de qualidade baseado em um padrão normativo internacional. “Isso deveria trazer benefícios palpáveis para as pessoas. A norma precisa estar ligada diretamente às necessidades e ao grau de satisfação dos clientes e da melhoria contínua dos processos internos das empresas, para atender cada vez mais as necessidades desse cliente”, complementa Julio.
O diretor do BVQI destaca também que a versão 2000 da ISO esboça uma convergência em direção de outros sistemas de gestão, como a norma ambiental ISO 14001 e alguns sistemas internacionais de gestão de saúde ocupacional. “A ISO 9000:2000 faz referência, por exemplo, a condições internas de trabalho. Isso foi proposital: os conteúdos da ISO 9000 e da ISO 14001 estão se aproximando porque a tendência das empresas é manter sistemas de gestão integrados”.

Muito trabalho pela frente
A BVQI, maior entidade certificadora do Brasil, prevê muito trabalho para os próximos dois anos – pelo planejamento traçado no final de 2001, a expectativa é crescer 25% em 2002. Isso está baseado em três aspectos: crescimento da economia, retomada das certificações e aumento no número de empresas implantando sistemas de gestão. “2001 foi um ano extremamente confuso: a economia mundial sofreu problemas, em diversos países. Isso afeta diretamente o processo de certificação e também o trabalho de consultoria, que sofreram uma desaceleração”, avalia Julio.
O que também irá trazer um fôlego à entidade serão as certificações baseadas na nova edição da ISO 9000. Isso porque várias empresas prorrogaram sua certificação, para ter mais tempo de treinar seu pessoal com as novidades trazidas pela ISO 9000:2000. “Mesmo com os drafts da norma publicados, algumas empresas continuavam trabalhando na versão 1994 da norma. Para não ter dois trabalhos, inclusive por questões de custo, essas empresas retardaram a certificação”.
“Estamos partindo para outro cenário: as empresas estão desengavetando seus projetos, e muito provavelmente, neste ano vamos sentir uma aceleração nas atividades. Além disso, em 2003 temos a data limite para migração para a nova norma. Tudo isso impacta na atividade”, complementa Pedro Paulo.
A BVQI vem trabalhando ainda, na difusão do padrão normativo ISO 9000 para as pequenas e médias empresas – que representam um grande mercado para as entidades certificadoras. Isso porque praticamente todas as grandes empresas já estão certificadas segundo a norma. “Primeiro as empresas de ponta, que estão buscando as novidades em ferramentas de administração ou de diferenciação de mercado, ou ainda as exportadoras, para quem a ISO era um diferencial. Em seguida, as pequenas e médias empresas, em geral fornecedores das grandes, começam a implantar sistemas de gestão. E, quando as demais empresas vêem seus concorrentes certificando seus sistemas de gestão, também procuram certificar-se”, explica Pedro Paulo.
A preocupação do BVQI é que as empresas adiem as certificações, esperando o prazo final. “Isso pode criar um gargalo, devido ao acúmulo na demanda de atualizações nos últimos seis meses, o que vai criar um transtorno tanto para as empresas quanto para as certificadoras. Temos procurado conscientizar nossos clientes quanto a isso”, finaliza Julio.