Edição 235 – Março de 2002 – Revista Petro & Química
Empresas começam a quantificar ganhos com ISO 14001

É possível mensurar ganho ambiental a partir da certificação ISO 14001? Se partirmos do princípio que a gestão ambiental está relacionada com desempenho ambiental, identificação de impactos e responsabilidades, a resposta pode ser afirmativa. A dimensão fica mais clara quando a quantificação está relacionada com redução do consumo de água e energia, ou redução nas emissões de efluentes. Mas isso são apenas alguns pontos que podem relacionar a certificação da norma com os resultados financeiros.

A Petrobras, que recentemente atingiu a certificação ISO 14001 em todas unidades de negócios, vem desenvolvendo uma metodologia para quantificar os benefícios promovidos pela gestão ambiental. “Se a gestão de saúde, meio ambiente e segurança é parte indissociável do negócio, é questão de responsabilidade da companhia atender a legislação, mas a visão da Petrobras é alcançar a referência internacional nessas questões”, explica Rui Fonseca, gerente executivo de SMS da Petrobras.

Para o diretor, os critérios para avaliar o desempenho de uma companhia perpassam a administração e os assuntos financeiros, chegando a questões ambientais – onde o fator de risco é inerente às suas atividades. Da agilidade na obtenção de licenciamentos ambientais à boa imagem junto aos investidores, o gerente destaca outros benefícios assegurados pela gestão ambiental. “A partir do momento que a empresa tem uma gestão mais eficaz, consegue obter licenciamentos em menores prazos, de forma que os empreendimentos possam entrar em operação o mais breve possível. E quanto melhor a gestão de saúde, meio ambiente e segurança, melhor será a relação com os investidores. A empresa também obtém melhores linhas de financiamento, e consegue também adequar o aspectos de seguros”.

Para Nelson Christianini, gerente de Meio Ambiente da Polibrasil, a certificação dos sistemas de gestão tem um importante papel no planejamento e organização da empresa, determinando padrões para a implementação de medidas de controle e busca de boas práticas, e também estabelecendo os critérios de monitoramento e requerendo a prática da melhoria contínua. “A verificação dos sistemas de gestão por terceiros para a manutenção dos certificados é um agente motivador, para que os sistemas sejam mantidos e aperfeiçoados. Desta forma, a certificação efetivamente tem como um dos seus produtos fortes promover a melhoria no desempenho ambiental”.

Seja por questões ambientais, empresariais, ou até mesmo para ser utilizada como ferramenta de marketing, a procura pelo certificado tem aumentado no Brasil. “O mercado está crescendo. Ano a ano aumenta a equipe que trata do assunto na BVQI”, comenta Hugo Pacheco, gerente técnico da certificadora.

Entre os motivos do aumento na demanda, Hugo destaca a cobrança das chamadas “partes interessadas” – ONG’s, vizinhança, clientes. “Uma boa gestão ambiental contribui diretamente para a gestão do negócio”.

À frente desses certificados estão as indústrias petroquímicas, de mineração e de papel e celulose. “Geralmente a busca por uma certificação ISO 14000 parte de uma decisão corporativa de empresas multinacionais, e suas filiais brasileiras têm que buscar a certificação de seus sistemas de gestão ambiental, adequando-se ou superando, em alguns casos, a padrões internacionais de desempenho ambiental. Isso incentiva toda a cadeia produtiva”, avalia Sílvio Hirata, auditor líder de ISO 14000 da DNV.

Mudanças

Criada em 1996, a norma ISO 14001 já se prepara para uma primeira atualização. “A norma já está em revisão pelo Comitê Técnico 207 da Organizaçao Internacional de Normalização – ISO, visando o seu aperfeiçoamento. No entanto, a revisão final das mesmas, só deverá ser concluída no final de 2003, pois necessita de consenso dos países membros”, conta Sergio Pinto Amaral, coordenador Corporativo do Processo ISO 14000 na Petrobras.

A mais importante mudança, no entanto, não será contemplada: a integração com os sistemas de gestão da qualidade e de segurança ocupacional. “Nesta revisão deveria ser considerada a integração com o Sistema de Saúde e Segurança do Trabalho, dada a total sinergia que estes processos apresentam em todos os requisitos definidos. No entanto, isto não está sendo contemplado”, critica Christianini.

“A ISO 14001 já nasceu moderna. Além disso, a versão 2000 da ISO 9001 se aproximou mais da norma ambiental”, justifica Pacheco.

Independente da quantidade de aspectos comuns entre as duas normas, a tendência das empresas é integrar num sistema unificado a gestão ambiental com qualidade e saúde e segurança ocupacional. “Dependendo do processo, o controle pode ser único”, completa o gerente da BVQI.

Christianini explica que o sistema de gestão ambiental é semelhante ao sistema de gestão de saúde e segurança no trabalho em praticamente todos os requisitos. O diferencial está somente na metodologia utilizada na identificação dos riscos e medidas de controle. “Há também uma sinergia com o sistema de gestão da qualidade, pelo uso de estrutura organizacional e ferramentas comuns, principalmente com a nova estruturação dada à norma ISO 9001.

A própria ISO já vem trabalhando na criação de uma norma única, para certificação dos sistemas de qualidade e ambiental. “Já existe um draft para a ISO 19000, que ainda está numa fase de discussões. Também está sendo criada a ISO 19011, estabelecendo os critérios de auditoria em sistemas integrados”, conta Pacheco.

Gerenciamento dos resíduos

Uma das preocupações em relação à gestão ambiental é o gerenciamento de resíduos, tanto pela normatização quanto pela legislação. “Resíduos, são pela própria natureza, o resultado final do processo de produção. Bem controlados, e devidamente separados por classe de resíduos, podemos perfeitamente estabelecer controles de processos, que facilitam o destino final. O que não se pode fazer, é mistura-los entre si, dificultando a sua caracterização, tornando difícil e com alto custo a eliminação final destes resíduos. Temos controles de processo de resíduos, tornando assim uma tarefa muito mais fácil, e o que é melhor, sem trazer prejuízos ambientais”, explica o diretor industrial da Rohm and Haas, Antonio Pizzigatti.

A Petrobras, por exemplo, dispõe de diversas normas técnicas, padrões e procedimentos para o gerenciamento de resíduos em uso nas várias unidades de negócios. “Algumas normas e padrões são corporativas e desenvolvidas pelo Comitê de Resíduos da Petrobras, que tem coordenação da Unidade Segurança, Meio Ambiente e Saude, com participação do Cenpes”, explica o coordenador Corporativo do Processo ISO 14000 da empresa.

O próprio programa Pégaso, criado pela empresa após o derramamento de óleo na Baía da Guanabara, há dois anos, mantém um quesito sobre o controle de resíduos. Do orçamento reservado ao programa, R$ 570 milhões são destinados à melhoria de efluentes. “O mais importante são as tecnologias que minimizam a geração de resíduos. Hoje o Centro de Pesquisas trabalha no desenvolvimento dos processos de exploração, produção ou refino que gerem menos resíduos”, conta Rui Fonseca.

Na Refinaria de Paulínia, a Petrobras vem desenvolvendo um projeto para eliminar a emissão de efluentes. A idéia é converter todo efluente em água de reúso – além de acabar com o despejo de efluentes nos cursos d’água, o projeto reduzirá a captação de água.

Na Polibrasil, a implantação do sistema de gestão ambiental permitiu que fosse implementado o processo de melhoria contínua no desempenho ambiental da empresa, principalmente com a melhoria da qualidade dos efluentes e redução das emissões. “Todos os resíduos gerados na Polibrasil são classificados de acordo com os critérios da NBR 10004 e tratados, tanto no armazenamento como na destinação, conforme definido na legislação”, conta o gerente de Meio Ambiente da empresa.

Christianini explica que a nova unidade que a Polibrasil está construindo em São Paulo, com capacidade de 300 toneladas anuais, tem como uma de suas características a questão ambiental. “A tecnologia Spheripol reduz sensivelmente as emissões atmosféricas, a geração de efluentes líquidos e resíduos sólidos”.

Para se ter uma idéia, comparando esta unidade com uma planta com processo Slurry com uma capacidade de 125 toneladas, há uma queda na vazão de efluentes de 12 m³/h para 2,8 m³/h, e na geração de resíduos de 170 ton/ano para não detectável. ”Como consequência direta esta nova planta traz uma redução de custo ambiental em relação ao processo Slurry de US$ 1,00 / ton produzida para US$ 0,20 / tonelada”.

Como ainda mantém o processo Slurry para a produção de polipropileno, a Polibrasil encaminha parte do resíduo catalítico para uma indústria de cerâmica.

A Rohm and Haas também estuda a reutilização de polímeros residuais na producão de cerâmica. O material, que é incinerado, pode aumentar a resistência física das peças.“Todos os resíduos sólidos, são hoje separados e devidamente controlados. Uma parte é enviada para co-processamento para posterior incineração em cimenteiras autorizadas para este serviço pelos órgãos ambientais e outra parte é enviada para reciclagem. Uma parte deste resíduo, que podemos denominar de sub-produto, já que tem um processo de geração controlado, pode eventualmente ser utilizado como agente de processo, pela indústria de cerâmica. Estamos junto com uma destas indústrias, fazendo testes experimentais”, conta o diretor industrial da empresa.

Na Petroquímica Triunfo, a borra oleosa retirada do separador água-óleo passou a ser enviada para co-processamento numa cimenteira do Paraná, onde é utilizada como carga térmica nos fornos. O resíduo, por seu alto poder calorífico, pode ser reaproveitado, caracterizando-se como uma reciclagem energética.
Na Edição Impressa
Câmbio e nafta afetam resultados das petroquímicas

ANP é contrária a utilização de GLP como alternativa energética

Rio: líder no desenvolvimento de gás natural

Petrobras reajusta preços de derivados

Indústria do petróleo vai contratar 15.600

Revista Petro & Química homenageia empresas TOP 2001

2001 foi um ano atípico na valiação do Siresp

Indústria do cloro discute sustentabilidade

E muito mais...