Quando assumiu a Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo,
em 1999, nem o próprio Wagner Victer poderia prever que o trabalho
de retomada do setor naval renderia tantos frutos. Passados três anos,
o setor cresceu vinte vezes – tanto na carteira de pedidos quanto
no número de empregados. Em 1998, as encomendas giravam em torno de
US$ 50 milhões, e hoje ultrapassam os US$ 1,1 bilhão. “São números
contundentes. Hoje o setor mantém 10 mil empregos diretos. Fico feliz
quando encontro pessoas que estavam desempregadas, e vêm me agradecer
por ter arrumado um novo emprego”, comenta Victer.
Em entrevista à Revista Petro & Química, o secretário comenta o movimento
de retomada do setor e a competitividade dos estaleiros nacionais.
“Esse é um trabalho de desenvolvimento sustentável, talvez único no
Brasil, que consistiu em retomar um setor arrasado. Estamos fazendo
isso em parceria com os empresários e os trabalhadores certos. Esse
trabalho tem que prosseguir, como uma criança que está crescendo:
apesar de a criança estar linda, se descuidarmos, a criança pode ficar
doente”.
A missão da Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo está
cumprida no processo de reestruturação da indústria naval?
Nem o maior dos otimistas – eu mesmo sou um otimista – poderia afirmar
que, em três anos a Secretaria conseguiu fazer tudo isso. Há três
anos tínhamos um cenário arrasado: o setor naval parecia a cidade
japonesa de Nagasaki após a bomba nuclear. Os estaleiros que não foram
fechados, estavam em total processo de definhamento. Hoje os estaleiros
reabriram, muitos até apresentam crescimento, tanto que já falta mão-de-obra
especializada em algumas áreas. O setor, que há três anos mantinha
500 empregos, hoje tem 10 mil empregos diretos, ou seja, vinte vezes
mais. Veja o caso do estaleiro Verolme, que há um ano e meio tinha
seis empregados, e hoje tem 2570, ou seja, 430 vezes mais. Enquanto
outros setores industriais partem para acordos de redução de salário,
a indústria naval apresenta contratação e aumentos salariais. São
números contundentes. A carteira de encomendas, que em 1998 girava
em torno de US$ 50 milhões, hoje já ultrapassa US$ 1,1 bilhão. Após
muitos anos, alguns navios serão construídos nestes estaleiros. Esse
movimento que tem que continuar fortalecido.
Atualmente é mais vantajoso construir no Brasil?
Não há a mínima dúvida. O Brasil só não é competitivo em relação aos
países que praticam subsídios ou que alimentam seus trabalhadores
com “tigelas de arroz”. Nossos preços são extremamente competitivos
em relação aos praticados pelos estaleiros americanos e europeus.
O Brasil tem que estabelecer sua economia em bases competitivas, não
em menor preço do mundo, porque sempre vai aparecer um país que vai
subsidiar sua indústria. Como é possível competir com China e Coréia,
que praticam subsídio e salários de tigela de arroz?
Quem contrata pode confiar na qualidade?
As plataformas e os navios feitos no Brasil são extremamente melhores
que as feitas no exterior. Algumas plataformas que foram feitas no
exterior eram problemas ambulantes. A P-32, por exemplo, feita na
Espanha, ficou quase um ano sem operar porque apresentou uma série
de problemas. A qualidade do produto brasileiro suplanta, em muito,
os produtos feitos no exterior – as melhores performances de plataformas
alocadas na bacia de Campos foram feitas no Brasil. O produto nacional
tem reconhecidamente qualidade, pelo esmero do trabalhador brasileiro.
Os investimentos em tecnologia são suficientes?
Segundo estudos realizados por entidades independentes, como a Puc,
a indústria nacional tem hoje condição de produzir 80% dos produtos
que suportam uma plataforma ou um navio. A Petrobras já chegou a apresentar
índices de nacionalização superiores a 90%. Veja o exemplo da Smar,
que há vinte anos era uma pequena empresa de Sertãozinho, no interior
paulista, e hoje possui 920 empregados. Você pode imaginar uma empresa
de Sertãozinho está exportando para mais de 90 países? Isso demonstra
a capacidade e a criatividade do brasileiro. Se a política fosse predominantemente
importadora, essa empresa poderia não existir. Nossa engenharia naval
é muito capaz. O Brasil tem hoje o récorde mundial de produção em
águas profundas, feito com tecnologia naval brasileira.
E por que ainda há quem prefira importar embarcações?
É uma questão de opção. Existem pessoas que têm uma visão puramente
financista – não é nem econômica. A tendência é achar que tudo deve
se dar a curto prazo. Quando passamos a enxergar a longo prazo, é
importante para qualquer empresa ter um mercado mobilizado, para ter
melhores preços no futuro. Veja esses quatro navios encomendados pela
Transpetro ao Eisa: os futuros navios certamente serão feitos em prazos
menores e com preços menores, porque o estaleiro já vai estar mobilizado.
Não se pode ter uma visão puramente pontual: ao passo que a economia
é incrementada, a sociedade ganha.
O Fundo de Marinha Mercante e o Programa Navega Brasil estão a contento?
Antes de assumirmos a Secretaria, o Fundo de Marinha Mercante via
todos os recursos expurgados ao final do ano. Isso tinha feito com
que, nos dois últimos anos, o Fundo tivesse escoado para outras fontes
US$ 1 bilhão, o que dava para construir mais de 20 navios. Com mobilização,
conseguimos criar uma medida provisória que excepcionalizou o Fundo.
Isso provocou substância de crescimento – o Fundo atualmente cresce
cerca de R$ 500 milhões ao ano. Conseguimos ampliar os prazos de financiamento,
que estavam em 12 anos, para 20 anos. As taxas de juros viraram competitivas,
e depois de 15 anos, a Petrobras voltou a cotar a construção de navios
nos estaleiros nacionais – no resultado final, um estaleiro brasileiro
vai construir os quatro navios, financiados pelo Fundo. O programa
Navega Brasil tem uma proposta muito boa, que converge com as nossas
expectativas, mas que precisa ter um cronograma de fatos que se liberem.
A nossa expectativa é que o “navio saia do porto”. Se esses navios
não saírem, vira “Naufraga Brasil”.
A criação de um fundo setorial seria interessante?
Poderia ser feito, por uma questão tecnológica. No projeto de reestruturação
do setor naval americano, foi criado um fundo tecnológico. O presidente
Bill Clinton remeteu uma proposta, que foi aprovada pelo congresso
americano em menos de uma semana. Uma das linhas desse projeto é o
Marinetech, uma linha de financiamento à tecnologia para a área naval.
Uma parcela do Fundo de Marinha Mercante poderia ser utilizado para
fomentar novas tecnologias no Brasil. Eu encaminhei o primeiro projeto
de cunho tecnológico aprovado pelo Fundo de Marinha Mercante, para
a construção do Tanque Oceânico da Coppe / UFRJ, que acabou nem utilizando,
porque conseguiu captar recursos dos royalties do petróleo.
Qual é o caminho daqui para frente?
Numa conversa com o engenheiro José Fantini, da Petrobras, o engenheiro
Segen Estefen, da Coppe, e o engenheiro Marco Petkovic, do Cenpes,
era consenso a necessidade da construção de um tanque oceânico no
Brasil, porque todas as suas simulações navais eram realizadas na
Holanda. Como não haviam recursos disponíveis em 1997, cogitamos até
construir o tanque para funcionar, a princípio, como piscina olímpica,
caso o Rio de Janeiro viesse sediar a Olimpíada de 2004. Já a frente
da Secretaria, conseguimos os recursos dos royalties, e o Estado alocou
quase R$ 1 milhão no simulador de corrente. Agora vamos usar um tanque
nacional, que tem simulações de águas profundas maiores do que o da
Holanda. O Brasil tem que cuidar de sua economia, senão os lobos maus
vão arranhar. Bobo é aquele que acredita que o mercado resolve tudo.
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