Edição 235 – Março de 2002 – Revista Petro & Química
Trabalho tem que proceguir

Quando assumiu a Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo, em 1999, nem o próprio Wagner Victer poderia prever que o trabalho de retomada do setor naval renderia tantos frutos. Passados três anos, o setor cresceu vinte vezes – tanto na carteira de pedidos quanto no número de empregados. Em 1998, as encomendas giravam em torno de US$ 50 milhões, e hoje ultrapassam os US$ 1,1 bilhão. “São números contundentes. Hoje o setor mantém 10 mil empregos diretos. Fico feliz quando encontro pessoas que estavam desempregadas, e vêm me agradecer por ter arrumado um novo emprego”, comenta Victer.

Em entrevista à Revista Petro & Química, o secretário comenta o movimento de retomada do setor e a competitividade dos estaleiros nacionais. “Esse é um trabalho de desenvolvimento sustentável, talvez único no Brasil, que consistiu em retomar um setor arrasado. Estamos fazendo isso em parceria com os empresários e os trabalhadores certos. Esse trabalho tem que prosseguir, como uma criança que está crescendo: apesar de a criança estar linda, se descuidarmos, a criança pode ficar doente”.

A missão da Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo está cumprida no processo de reestruturação da indústria naval?

Nem o maior dos otimistas – eu mesmo sou um otimista – poderia afirmar que, em três anos a Secretaria conseguiu fazer tudo isso. Há três anos tínhamos um cenário arrasado: o setor naval parecia a cidade japonesa de Nagasaki após a bomba nuclear. Os estaleiros que não foram fechados, estavam em total processo de definhamento. Hoje os estaleiros reabriram, muitos até apresentam crescimento, tanto que já falta mão-de-obra especializada em algumas áreas. O setor, que há três anos mantinha 500 empregos, hoje tem 10 mil empregos diretos, ou seja, vinte vezes mais. Veja o caso do estaleiro Verolme, que há um ano e meio tinha seis empregados, e hoje tem 2570, ou seja, 430 vezes mais. Enquanto outros setores industriais partem para acordos de redução de salário, a indústria naval apresenta contratação e aumentos salariais. São números contundentes. A carteira de encomendas, que em 1998 girava em torno de US$ 50 milhões, hoje já ultrapassa US$ 1,1 bilhão. Após muitos anos, alguns navios serão construídos nestes estaleiros. Esse movimento que tem que continuar fortalecido.

Atualmente é mais vantajoso construir no Brasil?

Não há a mínima dúvida. O Brasil só não é competitivo em relação aos países que praticam subsídios ou que alimentam seus trabalhadores com “tigelas de arroz”. Nossos preços são extremamente competitivos em relação aos praticados pelos estaleiros americanos e europeus. O Brasil tem que estabelecer sua economia em bases competitivas, não em menor preço do mundo, porque sempre vai aparecer um país que vai subsidiar sua indústria. Como é possível competir com China e Coréia, que praticam subsídio e salários de tigela de arroz?

Quem contrata pode confiar na qualidade?

As plataformas e os navios feitos no Brasil são extremamente melhores que as feitas no exterior. Algumas plataformas que foram feitas no exterior eram problemas ambulantes. A P-32, por exemplo, feita na Espanha, ficou quase um ano sem operar porque apresentou uma série de problemas. A qualidade do produto brasileiro suplanta, em muito, os produtos feitos no exterior – as melhores performances de plataformas alocadas na bacia de Campos foram feitas no Brasil. O produto nacional tem reconhecidamente qualidade, pelo esmero do trabalhador brasileiro.

Os investimentos em tecnologia são suficientes?

Segundo estudos realizados por entidades independentes, como a Puc, a indústria nacional tem hoje condição de produzir 80% dos produtos que suportam uma plataforma ou um navio. A Petrobras já chegou a apresentar índices de nacionalização superiores a 90%. Veja o exemplo da Smar, que há vinte anos era uma pequena empresa de Sertãozinho, no interior paulista, e hoje possui 920 empregados. Você pode imaginar uma empresa de Sertãozinho está exportando para mais de 90 países? Isso demonstra a capacidade e a criatividade do brasileiro. Se a política fosse predominantemente importadora, essa empresa poderia não existir. Nossa engenharia naval é muito capaz. O Brasil tem hoje o récorde mundial de produção em águas profundas, feito com tecnologia naval brasileira.

E por que ainda há quem prefira importar embarcações?

É uma questão de opção. Existem pessoas que têm uma visão puramente financista – não é nem econômica. A tendência é achar que tudo deve se dar a curto prazo. Quando passamos a enxergar a longo prazo, é importante para qualquer empresa ter um mercado mobilizado, para ter melhores preços no futuro. Veja esses quatro navios encomendados pela Transpetro ao Eisa: os futuros navios certamente serão feitos em prazos menores e com preços menores, porque o estaleiro já vai estar mobilizado. Não se pode ter uma visão puramente pontual: ao passo que a economia é incrementada, a sociedade ganha.

O Fundo de Marinha Mercante e o Programa Navega Brasil estão a contento?

Antes de assumirmos a Secretaria, o Fundo de Marinha Mercante via todos os recursos expurgados ao final do ano. Isso tinha feito com que, nos dois últimos anos, o Fundo tivesse escoado para outras fontes US$ 1 bilhão, o que dava para construir mais de 20 navios. Com mobilização, conseguimos criar uma medida provisória que excepcionalizou o Fundo. Isso provocou substância de crescimento – o Fundo atualmente cresce cerca de R$ 500 milhões ao ano. Conseguimos ampliar os prazos de financiamento, que estavam em 12 anos, para 20 anos. As taxas de juros viraram competitivas, e depois de 15 anos, a Petrobras voltou a cotar a construção de navios nos estaleiros nacionais – no resultado final, um estaleiro brasileiro vai construir os quatro navios, financiados pelo Fundo. O programa Navega Brasil tem uma proposta muito boa, que converge com as nossas expectativas, mas que precisa ter um cronograma de fatos que se liberem. A nossa expectativa é que o “navio saia do porto”. Se esses navios não saírem, vira “Naufraga Brasil”.

A criação de um fundo setorial seria interessante?

Poderia ser feito, por uma questão tecnológica. No projeto de reestruturação do setor naval americano, foi criado um fundo tecnológico. O presidente Bill Clinton remeteu uma proposta, que foi aprovada pelo congresso americano em menos de uma semana. Uma das linhas desse projeto é o Marinetech, uma linha de financiamento à tecnologia para a área naval. Uma parcela do Fundo de Marinha Mercante poderia ser utilizado para fomentar novas tecnologias no Brasil. Eu encaminhei o primeiro projeto de cunho tecnológico aprovado pelo Fundo de Marinha Mercante, para a construção do Tanque Oceânico da Coppe / UFRJ, que acabou nem utilizando, porque conseguiu captar recursos dos royalties do petróleo.

Qual é o caminho daqui para frente?

Numa conversa com o engenheiro José Fantini, da Petrobras, o engenheiro Segen Estefen, da Coppe, e o engenheiro Marco Petkovic, do Cenpes, era consenso a necessidade da construção de um tanque oceânico no Brasil, porque todas as suas simulações navais eram realizadas na Holanda. Como não haviam recursos disponíveis em 1997, cogitamos até construir o tanque para funcionar, a princípio, como piscina olímpica, caso o Rio de Janeiro viesse sediar a Olimpíada de 2004. Já a frente da Secretaria, conseguimos os recursos dos royalties, e o Estado alocou quase R$ 1 milhão no simulador de corrente. Agora vamos usar um tanque nacional, que tem simulações de águas profundas maiores do que o da Holanda. O Brasil tem que cuidar de sua economia, senão os lobos maus vão arranhar. Bobo é aquele que acredita que o mercado resolve tudo.
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