Edição 235 – Março de 2002 – Revista Petro & Química
US$ 1 bilhão em pedidos
Garotinho: política de incentivos e atração
de parcerias internacionais
"Engenheiro naval virou mico-leão-dourado”. A frase com tom humorístico utilizada pelo secretário Wagner Victer, em recente reabertura de mais um estaleiro, quer mostrar que, no atual momento da Indústria Naval, os recém-formados engenheiros já saem da faculdade disputados pelo mercado. Uma nova realidade, que vem ao encontro da comparação entre os dados da Indústria Naval da década de 90 e hoje, pode levar a suposição que o setor saiu da UTI e começa dar seus primeiros passos a uma convalescença. “A indústria naval é uma das maiores vocações da economia fluminense, gerando renda e empregos, portanto era inadmissível que estivesse em declínio”, conta o governador Anthony Garotinho.

Em números isso representa a geração de mais de 10 mil empregos nos próximos cinco anos quando, acredita-se, a retomada da indústria naval estará totalmente concretizada. Neste novo momento, os estaleiros Brasfels, SNO, Mauá- Jourong, Caximbau, Eisa, Rio Nave, Caneco e Sermental se animam com a carteira de pedidos, que ultrapassa US$ 1 bilhão.

O estaleiro Transnave, por exemplo, tomou um vulto com as construções de três LHs, e prevê fechar as contas de 2001 com um faturamento de R$ 11 milhões. A entrada em operação do SR&D e a construção do pólo naútico completam o ciclo de ocupação das antigas instalações do estaleiro Verolme, em Angra dos Reis, desativadas desde a metade da década de 1990. As instalações do SR&D ocupam a área militar do antigo estaleiro.

A empresa vai fazer reparos e fabricar navios especializados em apoio offshore. “O estaleiro já possui contratos para reparos em uma plataforma da Transocean e docagem de uma embarcação”, informa Danilo Peres, diretor do Grupo SR&D.

O Estaleiro Caneco, após oito anos sem construir navios, vai fornecer três embarcações especializadas no suporte a plataformas de petróleo – um PSV e dois LH – que prestarão serviços à Petrobras, dentro de seu Programa de Modernização de Barcos de Apoio. O último grande contrato para construção no Estaleiro Caneco foi assinado em Agosto de 1993 com a Companhia de Navegação Norsul. “O estaleiro já vinha sendo revitalizado desde 2001. Objetivando viabilizar a parte Sul de suas instalações o Caneco está recebendo investimentos da ordem de R$ 2,5 milhões para transformar a área em um porto especializado no apoio às produções nas bacias de Campos e de Santos. E quando os serviços de dragagem da área estiverem concluídos irão viabilizar a infra-estrutura de acesso para a reabertura definitiva do Estaleiro Caneco”, explica Victer. As obras, contratada pela Superpesa, terão investimentos de cerca de US$ 20 milhões e irão gerar cerca de 300 empregos diretos.

Parte desta revitalização se deve ao Governo do Estado. A Secretaria de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo do Estado do Rio de Janeiro conseguiu convencer a área fazendária a conceder um diferimento de ICMS para construção de embarcações por 48 meses. No caso destas embarcações virem a se registrar no Registro Especial Brasileiro – REB, o deferimento vira isenção mesmo. O REB é regido pela Lei 9432/97. De fato, o atual Governo revitalizou um decreto do tempo do então governador Marcelo Alencar, colocando em prática a isenção que chega a 18% sobre o valor da obra, incluindo a aquisição de produtos importados. “A indústria de construção naval fluminense, que já empregou mais de 40 mil trabalhadores, estava completamente parada, com os estaleiros fechados e sem encomendas. Agora, por meio de uma política de incentivos fiscais e da atração de parcerias internacionais, conseguimos reabrir todos os estaleiros do Estado e já temos mais de oito mil trabalhadores empregados. A expectativa é que, em médio prazo, tenhamos mais de 12 mil contratados pelo setor”, conta o governador.

No final de 1999 o governo federal lançou o Programa Navega Brasil. Até o momento só houve uma contratação com os recursos deste programa pelo estaleiro Eisa, que são os quatro petroleiros da Transpetro. Estas leis deram competitividade e o mercado brasileiro ficou mais atrativo. “Do ponto de vista tecnológico a performance dos estaleiros brasileiros é excelente. De plataformas a conversões, os estaleiros fazem tudo. Ao longo deste tempo, tudo que foi contratado foi entregue”, comenta um armador do setor.

O que vem por aí

Só em embarcações de apoio, a Petrobras, quem faz as maiores encomendas do setor, deverá contratar seis AHTS, com construção prevista para iniciar em julho deste ano e entrega para outubro de 2004.

Segundo Roberto Silva, coordenador do Comitê de Logística e Infraestrutura da Onip, a necessidade de encomendas é de pelo menos para mais seis, sete anos. “Hoje, existem cerca de 132 embarcações e apoio na Bacia de Campos. 80% delas são embarcações estrangeiras. A idéia é que, na medida em que a Petrobras considere a necessidade de mais embarcações com bandeira nacional, as encomendas aumentem. A demanda então é de 80 a 90 barcos, só para a Petrobras”.

De fato, a Transpetro ainda é a mola propulsora da retomada dos estaleiros. A subsidiária da Petrobras já licitou treze embarcações para o programa suplay-boats, na área de offshore que está alimentando uma série de estaleiros menores que não têm condições de atender às encomendas. Neste projeto o Eisa está construindo um LH 1800 para a Equipemar, que será usado em afretamento, e uma Cabria (guindaste flutuante) de 350 toneladas. “O binômio entre Transpetro e Petrobras é um grande fator de retomada da indústria naval do Brasil”, avalia o presidente da Transpetro, Mauro Orofino Campos.

O interesse de gigantes do setor de construção naval pelo mercado nacional também serviu de mola neste novo momento. Jurong e Keppel Fels, de Cingapura, e Acker, da Noruega estão presentes hoje na indústria naval do país com arrendamentos, participações ou como proprietários de antigos estaleiros que tiveram suas atividades paralisadas. “Atualmente a construção naval do Estado encontra-se em condições de competitividade com o mercado internacional. Isto foi conseguido por intermédio de uma forte política de incentivos fiscais nos reparos e na construção de embarcações e da medida provisória 1960-67, que alterou os prazos para amortização dos empréstimos de 15 para 20 anos, as taxas de juros de 6% para 4% e aumentou o valor dos financiamentos de 85% para 90%”, explica o governador.

No Eisa, a associação com o grupo Jurong veio dar fôlego a uma das maiores operações do momento na área naval, a construção e entrega de quatro petroleiros, 2 Suezmax (140 mil toneladas cada) e 2 Panamax (70 mil toneladas cada). A entrada do Jurong deu o controle do Eisa ao grupo estrangeiro, com 80% do capital acionário. Foi a segunda aquisição do Jurong, que há um ano arrendou o estaleiro Mauá.

A operação deu suporte suficiente para o Eisa renegociar com o BNDES uma dívida antiga de US$ 30 milhões e conseguir crédito para a construção das embarcações no valor de US$ 244,4 milhões.

O Estaleiro Promar, associado do grupo norueguês Aker Brattvaag, assinou recentemente um contrato referente à construção de mais um PSV, encomendada pelo grupo Norskan Offshore. Os investimentos são da ordem de US$ 16 milhões e a obra irá criar cerca de 400 empregos durante a construção, com previsão de término para julho de 2003.

A parceria entre o grupo Aker e o Promar deve promover o início da construção de mais quatro embarcações ainda este ano. Isso vai melhorar e muito a relação de bandeiras no mar nacional que hoje tem menos de 3% do transportes marítimos feitos com embarcações de bandeira brasileira.

Seja nos projetos de exploração e produção (plataformas), seja na área de logística (apoio marítimo e transporte de petróleo e derivados), a demanda é estimulante. “A retomada de encomendas pela indústria do Petróleo é o grande motivador para reativação dos estaleiros”, avalia o diretor Comercial do estaleiro Mauá Jurong, José Roberto Simas.

O Mauá-Jurong, reativado recentemente, tem o seu foco nos projetos de produção offshore e no reparo naval. A intenção é reativar a construção de navios, na medida em que a empresa se consolide também do ponto de vista gerencial e tecnológico. Simas mostra-se animado com a nova parceira do Jurong no Estado do Rio de Janeiro com o estaleiro Eisa.

“Acompanhamos com interesse a aproximação do Jurong com o Eisa, pois isto vai permitir uma grande sinergia com o Mauá-Jurong. Pelo que sabemos o Eisa continuará com seu foco na construção de navios”, diz ele lembrando que as duas empresas terão vida independente.

Hoje, o grande projeto em carteira do Mauá Jurong passa pela construção de 10 módulos para os dois FPSO’s que irão operar no projeto de Barracuda e Caratinga. O peso varia entre 800 e 1200 ton. por módulo, o que exige, além de tecnologia adequada, um planejamento detalhado para que tudo aconteça na seqüência correta. O estaleiro é o responsável direto pela construção além de gerenciar a execução da totalidade dos topsides do empreendimento. O número de empregos diretos, hoje em cerca de 1.000, deverá atingir 1.500 até o meio do ano.

Simas diz que, neste novo momento de retomadas dos estaleiros, é fundamental que os clientes acreditem na competência e compromisso dos estaleiros. “Com a continuidade das encomendas podemos aumentar a eficiência. A participação nacional é função direta da competitividade. Isso é questão de escala e continuidade de encomendas. Com a continuidade seremos competitivos em qualquer mercado”, acrescentando que o Mauá Jurong está pronto e tem capacidade para novos projetos que não podem tardar muito, sob pena de perda de tudo o que foi conquistado “a duras penas nesses últimos dois anos”.

Parte da retomada dos estaleiros é devido ao Fundo de Marinha Mercante. Nos últimos três anos foram contratados US$ 62,5 milhões para cinco embarcações de apoio. A projeção do fluxo de caixa para o Fundo em 2005 é de R$ 4 bilhões dos quais R$ 973,26 milhões seriam saldo para novos projetos, R$ 2 bilhões de projetos em prioridade, R$ 929 milhões de novos pedidos e R$ 178,71 comprometidos com obras contratadas. O fluxo de arrecadação foi de R$ 550 milhões no ano passado e será, segundo projeções, de aproximadamente R$ 700 milhões este ano. A previsão para 2002 é de encerrar o ano com R$ 1 bilhão em arrecadação. Isso pode representar um forte impulso em financiamento para os estaleiros.

Segundo Celso Luiz de Souza, superintendente do Fronape, existem estaleiros espalhados pelo mundo que são competitivos e que estabelecem o mercado internacional para navios e plataforma. “O Brasil já teve uma indústria muito forte. Hoje está praticamente paralisada, com reacendimento gradativo. Quando o mercado lá fora cai, o estaleiro aqui para continuar a vender tem que acompanhar”.

Todo cuidado é pouco

Com tanta movimentação, é possível que haja uma nova derrocada na indústria naval, como em outros tempos? “Por enquanto não, mas se não mantivermos a pressão sobre as companhias que estão se instalando no Estado para realizar exploração de petróleo, para que aumentem suas aquisições na indústria local, os atuais patamares podem sofrer alterações”, avalia o governador.

“Eu diria que ainda é um doente que inspira cuidados”, diz Jorge Roberto Coelho Gonçalves, diretor do Eisa, um dos poucos estaleiros que se manteve de pé frente à derrocada nos anos 90.

Não é preciso ir muito longe para atestar: a Petrobras, por exemplo, teve que refazer a concorrência para a conversão da plataforma P-50, porque achou as primeiras propostas muito altas – até uma proposta de afretamento foi estudada. As mudança na licitação, por outro lado, reflete o compromisso com a geração de empregos e a recuperação da indústria naval. Uma plataforma do porte da P-50, encomenda orçada em pelo menos US$ 450 milhões, é capaz de garantir a sobrevivência de um estaleiro, ao longo de dois anos.

Já no lastro do crescimento da frota, a Transpetro adquiriu, recentemente, dois navios que estão sendo convertidos em aliviadores DP, para garantir o escoamento da crescente produção da Bacia de Campos. Em todo o mundo só existem 50 navios deste tipo, controlados por sistema de computadores, recebendo sinais de satélite e do alvo do qual tem que manter distância, o que torna a operação mais rápida e segura.

Segundo a Transpetro os DPs tem características especiais que dão capacidade de posicionamento dinâmico, independente das condições do vento e do mar. Durante a operação de transferência do óleo dos FPSOs e navios-cisterna para o navio aliviador atual, este tem que ser mantido em sua posição com a ajuda de um rebocador. “Os DPs representam um outro patamar tecnológico no escoamento da Bacia de Campos”, avalia Paulo Jansen Ferreira, gerente da Getram 5.

Segundo os estudos da Transpetro o escoamento da Bacia de Campos projeta a necessidade de até 12 unidades deste tipo de navio. A empresa justifica a opção pela conversão e não pela compra, dizendo que quem tem os DPs não vende e que uma encomenda em estaleiro exigiria um processo mais demorado, o que faz considerar como mais ágil a conversão que está sendo feita em Singapura, no estaleiro Sembawang – o Fels Setal participou da licitação, mas perdeu.

Segundo Campos, os estaleiros brasileiros foram convidados para acompanhar a conversão dos DPs, por conta da nova licitação que acontecerá para a construção de mais quatro aliviadores. A adaptação leva três meses e a expectativa da Transpetro é que no início de maio o primeiro dos DPs comece a operar, para que o outro também comprado possa passar pela conversão.
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