Garotinho: política de incentivos e atração
de parcerias internacionais |
|
"Engenheiro naval virou mico-leão-dourado”. A frase com tom
humorístico utilizada pelo secretário Wagner Victer, em recente reabertura
de mais um estaleiro, quer mostrar que, no atual momento da Indústria
Naval, os recém-formados engenheiros já saem da faculdade disputados
pelo mercado. Uma nova realidade, que vem ao encontro da comparação
entre os dados da Indústria Naval da década de 90 e hoje, pode levar
a suposição que o setor saiu da UTI e começa dar seus primeiros passos
a uma convalescença. “A indústria naval é uma das maiores vocações
da economia fluminense, gerando renda e empregos, portanto era inadmissível
que estivesse em declínio”, conta o governador Anthony Garotinho.
Em números isso representa a geração de mais de 10 mil empregos nos
próximos cinco anos quando, acredita-se, a retomada da indústria naval
estará totalmente concretizada. Neste novo momento, os estaleiros
Brasfels, SNO, Mauá- Jourong, Caximbau, Eisa, Rio Nave, Caneco e Sermental
se animam com a carteira de pedidos, que ultrapassa US$ 1 bilhão.
O estaleiro Transnave, por exemplo, tomou um vulto com as construções
de três LHs, e prevê fechar as contas de 2001 com um faturamento de
R$ 11 milhões. A entrada em operação do SR&D e a construção do pólo
naútico completam o ciclo de ocupação das antigas instalações do estaleiro
Verolme, em Angra dos Reis, desativadas desde a metade da década de
1990. As instalações do SR&D ocupam a área militar do antigo estaleiro.
A empresa vai fazer reparos e fabricar navios especializados em apoio
offshore. “O estaleiro já possui contratos para reparos em uma plataforma
da Transocean e docagem de uma embarcação”, informa Danilo Peres,
diretor do Grupo SR&D.
O Estaleiro Caneco, após oito anos sem construir navios, vai fornecer
três embarcações especializadas no suporte a plataformas de petróleo
– um PSV e dois LH – que prestarão serviços à Petrobras, dentro de
seu Programa de Modernização de Barcos de Apoio. O último grande contrato
para construção no Estaleiro Caneco foi assinado em Agosto de 1993
com a Companhia de Navegação Norsul. “O estaleiro já vinha sendo revitalizado
desde 2001. Objetivando viabilizar a parte Sul de suas instalações
o Caneco está recebendo investimentos da ordem de R$ 2,5 milhões para
transformar a área em um porto especializado no apoio às produções
nas bacias de Campos e de Santos. E quando os serviços de dragagem
da área estiverem concluídos irão viabilizar a infra-estrutura de
acesso para a reabertura definitiva do Estaleiro Caneco”, explica
Victer. As obras, contratada pela Superpesa, terão investimentos de
cerca de US$ 20 milhões e irão gerar cerca de 300 empregos diretos.
Parte desta revitalização se deve ao Governo do Estado. A Secretaria
de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo do Estado do Rio de Janeiro
conseguiu convencer a área fazendária a conceder um diferimento de
ICMS para construção de embarcações por 48 meses. No caso destas embarcações
virem a se registrar no Registro Especial Brasileiro – REB, o deferimento
vira isenção mesmo. O REB é regido pela Lei 9432/97. De fato, o atual
Governo revitalizou um decreto do tempo do então governador Marcelo
Alencar, colocando em prática a isenção que chega a 18% sobre o valor
da obra, incluindo a aquisição de produtos importados. “A indústria
de construção naval fluminense, que já empregou mais de 40 mil trabalhadores,
estava completamente parada, com os estaleiros fechados e sem encomendas.
Agora, por meio de uma política de incentivos fiscais e da atração
de parcerias internacionais, conseguimos reabrir todos os estaleiros
do Estado e já temos mais de oito mil trabalhadores empregados. A
expectativa é que, em médio prazo, tenhamos mais de 12 mil contratados
pelo setor”, conta o governador.
No final de 1999 o governo federal lançou o Programa Navega Brasil.
Até o momento só houve uma contratação com os recursos deste programa
pelo estaleiro Eisa, que são os quatro petroleiros da Transpetro.
Estas leis deram competitividade e o mercado brasileiro ficou mais
atrativo. “Do ponto de vista tecnológico a performance dos estaleiros
brasileiros é excelente. De plataformas a conversões, os estaleiros
fazem tudo. Ao longo deste tempo, tudo que foi contratado foi entregue”,
comenta um armador do setor.
O que vem por aí
Só em embarcações de apoio, a Petrobras, quem faz as maiores encomendas
do setor, deverá contratar seis AHTS, com construção prevista para
iniciar em julho deste ano e entrega para outubro de 2004.
Segundo Roberto Silva, coordenador do Comitê de Logística e Infraestrutura
da Onip, a necessidade de encomendas é de pelo menos para mais seis,
sete anos. “Hoje, existem cerca de 132 embarcações e apoio na Bacia
de Campos. 80% delas são embarcações estrangeiras. A idéia é que,
na medida em que a Petrobras considere a necessidade de mais embarcações
com bandeira nacional, as encomendas aumentem. A demanda então é de
80 a 90 barcos, só para a Petrobras”.
De fato, a Transpetro ainda é a mola propulsora da retomada dos estaleiros.
A subsidiária da Petrobras já licitou treze embarcações para o programa
suplay-boats, na área de offshore que está alimentando uma série de
estaleiros menores que não têm condições de atender às encomendas.
Neste projeto o Eisa está construindo um LH 1800 para a Equipemar,
que será usado em afretamento, e uma Cabria (guindaste flutuante)
de 350 toneladas. “O binômio entre Transpetro e Petrobras é um grande
fator de retomada da indústria naval do Brasil”, avalia o presidente
da Transpetro, Mauro Orofino Campos.
O interesse de gigantes do setor de construção naval pelo mercado
nacional também serviu de mola neste novo momento. Jurong e Keppel
Fels, de Cingapura, e Acker, da Noruega estão presentes hoje na indústria
naval do país com arrendamentos, participações ou como proprietários
de antigos estaleiros que tiveram suas atividades paralisadas. “Atualmente
a construção naval do Estado encontra-se em condições de competitividade
com o mercado internacional. Isto foi conseguido por intermédio de
uma forte política de incentivos fiscais nos reparos e na construção
de embarcações e da medida provisória 1960-67, que alterou os prazos
para amortização dos empréstimos de 15 para 20 anos, as taxas de juros
de 6% para 4% e aumentou o valor dos financiamentos de 85% para 90%”,
explica o governador.
No Eisa, a associação com o grupo Jurong veio dar fôlego a uma das
maiores operações do momento na área naval, a construção e entrega
de quatro petroleiros, 2 Suezmax (140 mil toneladas cada) e 2 Panamax
(70 mil toneladas cada). A entrada do Jurong deu o controle do Eisa
ao grupo estrangeiro, com 80% do capital acionário. Foi a segunda
aquisição do Jurong, que há um ano arrendou o estaleiro Mauá.
A operação deu suporte suficiente para o Eisa renegociar com o BNDES
uma dívida antiga de US$ 30 milhões e conseguir crédito para a construção
das embarcações no valor de US$ 244,4 milhões.
O Estaleiro Promar, associado do grupo norueguês Aker Brattvaag, assinou
recentemente um contrato referente à construção de mais um PSV, encomendada
pelo grupo Norskan Offshore. Os investimentos são da ordem de US$
16 milhões e a obra irá criar cerca de 400 empregos durante a construção,
com previsão de término para julho de 2003.
A parceria entre o grupo Aker e o Promar deve promover o início da
construção de mais quatro embarcações ainda este ano. Isso vai melhorar
e muito a relação de bandeiras no mar nacional que hoje tem menos
de 3% do transportes marítimos feitos com embarcações de bandeira
brasileira.
Seja nos projetos de exploração e produção (plataformas), seja na
área de logística (apoio marítimo e transporte de petróleo e derivados),
a demanda é estimulante. “A retomada de encomendas pela indústria
do Petróleo é o grande motivador para reativação dos estaleiros”,
avalia o diretor Comercial do estaleiro Mauá Jurong, José Roberto
Simas.
O Mauá-Jurong, reativado recentemente, tem o seu foco nos projetos
de produção offshore e no reparo naval. A intenção é reativar a construção
de navios, na medida em que a empresa se consolide também do ponto
de vista gerencial e tecnológico. Simas mostra-se animado com a nova
parceira do Jurong no Estado do Rio de Janeiro com o estaleiro Eisa.
“Acompanhamos com interesse a aproximação do Jurong com o Eisa, pois
isto vai permitir uma grande sinergia com o Mauá-Jurong. Pelo que
sabemos o Eisa continuará com seu foco na construção de navios”, diz
ele lembrando que as duas empresas terão vida independente.
Hoje, o grande projeto em carteira do Mauá Jurong passa pela construção
de 10 módulos para os dois FPSO’s que irão operar no projeto de Barracuda
e Caratinga. O peso varia entre 800 e 1200 ton. por módulo, o que
exige, além de tecnologia adequada, um planejamento detalhado para
que tudo aconteça na seqüência correta. O estaleiro é o responsável
direto pela construção além de gerenciar a execução da totalidade
dos topsides do empreendimento. O número de empregos diretos, hoje
em cerca de 1.000, deverá atingir 1.500 até o meio do ano.
Simas diz que, neste novo momento de retomadas dos estaleiros, é fundamental
que os clientes acreditem na competência e compromisso dos estaleiros.
“Com a continuidade das encomendas podemos aumentar a eficiência.
A participação nacional é função direta da competitividade. Isso é
questão de escala e continuidade de encomendas. Com a continuidade
seremos competitivos em qualquer mercado”, acrescentando que o Mauá
Jurong está pronto e tem capacidade para novos projetos que não podem
tardar muito, sob pena de perda de tudo o que foi conquistado “a duras
penas nesses últimos dois anos”.
Parte da retomada dos estaleiros é devido ao Fundo de Marinha Mercante.
Nos últimos três anos foram contratados US$ 62,5 milhões para cinco
embarcações de apoio. A projeção do fluxo de caixa para o Fundo em
2005 é de R$ 4 bilhões dos quais R$ 973,26 milhões seriam saldo para
novos projetos, R$ 2 bilhões de projetos em prioridade, R$ 929 milhões
de novos pedidos e R$ 178,71 comprometidos com obras contratadas.
O fluxo de arrecadação foi de R$ 550 milhões no ano passado e será,
segundo projeções, de aproximadamente R$ 700 milhões este ano. A previsão
para 2002 é de encerrar o ano com R$ 1 bilhão em arrecadação. Isso
pode representar um forte impulso em financiamento para os estaleiros.
Segundo Celso Luiz de Souza, superintendente do Fronape, existem estaleiros
espalhados pelo mundo que são competitivos e que estabelecem o mercado
internacional para navios e plataforma. “O Brasil já teve uma indústria
muito forte. Hoje está praticamente paralisada, com reacendimento
gradativo. Quando o mercado lá fora cai, o estaleiro aqui para continuar
a vender tem que acompanhar”.
Todo cuidado é pouco
Com tanta movimentação, é possível que haja uma nova derrocada na
indústria naval, como em outros tempos? “Por enquanto não, mas se
não mantivermos a pressão sobre as companhias que estão se instalando
no Estado para realizar exploração de petróleo, para que aumentem
suas aquisições na indústria local, os atuais patamares podem sofrer
alterações”, avalia o governador.
“Eu diria que ainda é um doente que inspira cuidados”, diz Jorge Roberto
Coelho Gonçalves, diretor do Eisa, um dos poucos estaleiros que se
manteve de pé frente à derrocada nos anos 90.
Não é preciso ir muito longe para atestar: a Petrobras, por exemplo,
teve que refazer a concorrência para a conversão da plataforma P-50,
porque achou as primeiras propostas muito altas – até uma proposta
de afretamento foi estudada. As mudança na licitação, por outro lado,
reflete o compromisso com a geração de empregos e a recuperação da
indústria naval. Uma plataforma do porte da P-50, encomenda orçada
em pelo menos US$ 450 milhões, é capaz de garantir a sobrevivência
de um estaleiro, ao longo de dois anos.
Já no lastro do crescimento da frota, a Transpetro adquiriu, recentemente,
dois navios que estão sendo convertidos em aliviadores DP, para garantir
o escoamento da crescente produção da Bacia de Campos. Em todo o mundo
só existem 50 navios deste tipo, controlados por sistema de computadores,
recebendo sinais de satélite e do alvo do qual tem que manter distância,
o que torna a operação mais rápida e segura.
Segundo a Transpetro os DPs tem características especiais que dão
capacidade de posicionamento dinâmico, independente das condições
do vento e do mar. Durante a operação de transferência do óleo dos
FPSOs e navios-cisterna para o navio aliviador atual, este tem que
ser mantido em sua posição com a ajuda de um rebocador. “Os DPs representam
um outro patamar tecnológico no escoamento da Bacia de Campos”, avalia
Paulo Jansen Ferreira, gerente da Getram 5.
Segundo os estudos da Transpetro o escoamento da Bacia de Campos projeta
a necessidade de até 12 unidades deste tipo de navio. A empresa justifica
a opção pela conversão e não pela compra, dizendo que quem tem os
DPs não vende e que uma encomenda em estaleiro exigiria um processo
mais demorado, o que faz considerar como mais ágil a conversão que
está sendo feita em Singapura, no estaleiro Sembawang – o Fels Setal
participou da licitação, mas perdeu.
Segundo Campos, os estaleiros brasileiros foram convidados para acompanhar
a conversão dos DPs, por conta da nova licitação que acontecerá para
a construção de mais quatro aliviadores. A adaptação leva três meses
e a expectativa da Transpetro é que no início de maio o primeiro dos
DPs comece a operar, para que o outro também comprado possa passar
pela conversão. |
|
| Na Edição Impressa |
|
Câmbio e nafta afetam resultados das petroquímicas
ANP é contrária a utilização de GLP
como alternativa energética
Rio: líder no desenvolvimento de gás natural
Petrobras reajusta preços de derivados
Indústria do petróleo vai contratar 15.600
Revista Petro & Química homenageia empresas TOP 2001
2001 foi um ano atípico na valiação do Siresp
Indústria do cloro discute sustentabilidade
E muito mais...
|
|