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Seis anos após dar início às atividades exploratórias no campo de
San Alberto, a Petrobras faz mais que produzir gás natural, refinar
petróleo ou comercializar derivados na Bolívia. Só no ano passado,
os investimentos na área social alcançaram os US$ 1,3 milhões. No
país, a companhia brasileira tem uma presença marcante no apoio à
educação, saúde, cultura e meio ambiente. No departamento de Tarija
– onde estão localizados dois campos concedidos à Petrobras – já foram
construídas oito escolas para a comunidade, e a companhia vem patrocinando
a reforma da única maternidade local e a eletrificação rural.
Com um faturamento que deve atingir US$ 1 bilhão em 2002, a Petrobras
já é a maior empresa do país, respondendo por cerca de 12% do Produto
Interno Bruto da Bolívia – que gira na casa dos US$ 8 bilhões. Nada
mal para quem arcou com todos os investimentos iniciais de um projeto
de risco – nem mesmo geólogos como Carlos Walter Campos, desbravador
da Bacia de Campos, acreditava que pudesse existir gás na cadeia de
montanhas bolivianas. Descobertas as reservas em agosto de 1998, o
projeto atualmente rende à Petrobras um lucro líquido de US$ 17 milhões
– apurado no ano passado, valor que corresponde a US$ 265 bilhões
em impostos gerados pelas atividades da companhia.
Hoje a Petrobras produz pouco mais de 5 milhões de m³ por dia de gás
natural e 4 mil barris de óleo leve no campo de San Alberto, e desenvolve
a produção no campo de San Antonio, ambos localizados no Departamento
de Tarija, divisa da Bolívia com a Argentina. Mesmo tendo que bancar
sozinha os investimentos, a legislação boliviana garantia que metade
da produção, em caso de descoberta, pertenceria à estatal YPFB. Com
as capitalização da YPFB, essa fatia hoje cabe à Andina – uma companhia
50% pertencente à Repsol e 50% de propriedade do povo boliviano. Por
outro lado, em virtude do risco exploratório, a Petrobras repassou
uma participação de 15% à petroleira Total. “Nos dois blocos, as reservas
provadas chegam a 583 bilhões de m³ – um potencial de produção de
50 milhões de m³ diários”, conta o presidente da Petrobras na Bolívia,
Décio Oddone.
Portfólio
A entrada em operação da segunda fase da planta de processamento de
gás em San Alberto irá permitir elevar a capacidade de produção do
campo para 13,2 milhões de m³ diários e 10 mil barris de condensado.
A planta é constituída por dois módulos integrados, com capacidade
de processar 6,6 milhões de m³ diários cada. O gás associado retirado
de cinco poços localizados na região serrana passa por uma unidade
de amina – para a retirada do CO2. Em seguida, passa por uma refrigeração,
a cerca de –18º C, para a separação das correntes mais pesadas – nesta
fase, como a formação de hidrato torna-se um problema para os equipamentos,
o gás precisa passar uma unidade de glicol, para a retirada da água.
Por fim, o gás é estabilizado – aquecido para a retirada das correntes
leves. Um duto se encarrega de transportar a produção diária até o
Yabog – gasoduto que liga a região à estação de compressão de Rio
Grande, ponto inicial do Gasoduto Bolívia-Brasil. O condensado segue
por outro duto até as refinarias de Cochabamba e Santa Cruz e a água
é re-injetada nos poços.
Com a construção de outras duas plantas de igual dimensão no campo
de San Antonio, a partir de janeiro de 2003, a produção chegará a
26 milhões de m³ de gás e 20 mil barris de condensado. O campo tem
uma superfície aproximada de 48 km².
Juntos, os blocos de San Alberto e San Antonio representam as maiores
reservas de gás do país – somados aos campos de Margarita e Itaú,
operados por outras companhias petrolíferas, detém 80% das reservas
bolivianas de gás. Do gás exportado ao Brasil, 24,1% é produzido pela
Petrobras. “San Alberto e San Antonio vão produzir 22 milhões de m³,
dos 30 milhões de m³ diários que irão seguir pelo Gasbol a partir
de 2004”, contabiliza Décio.
A Petrobras também explora, sozinha, o bloco Ingre – localizado na
região serrana de Chuquisaca – onde vem preparando a perfuração do
primeiro poço exploratório. Ainda detém, na mesma região, 20% de participação
no campo Monteagudo, e 50% do bloco Rio Hondo – localizado entre Cochabamba
e La Paz – no qual estão sendo desenvolvidos estudos sísmicos. |
| Construção do Gasyrg: investimento US$ 400
milhões |
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Outro investimento que a Petrobras vem tocando no país, através
da subsidiária Transierra, é a construção de outro duto ligando seus
campos à Rio Grande. As obras do Gasoduto Yacuíba-Rio Grande – Gasyrg
vêm consumindo mais de US$ 400 milhões, e deverão estar prontas no
final deste ano. Com 431 km de extensão, o Gasyrg terá capacidade
de transportar 16 milhões de m³ de gás por dia, produzidos pela Petrobras
nos campos de San Alberto e San Antonio. Os 6 milhões de m³ restantes
continuarão seguindo pelo Yabog até Rio Grande – além de cliente,
a Petrobras tornou-se concorrente da Transredes, operadora do Yabog
e do trecho boliviano do Gasbol.
Em parceria com a argentina Pérez Companc, a Petrobras é dona das
duas únicas refinarias da Bolívia, através da Empresa Boliviana de
Refinación Distribuición – EBR. A aquisição foi feita através de uma
licitação internacional, em dezembro de 1999, onde a Petrobras investiu
US$ 100 milhões. A Refinaria Gualberto Villarroel, localizada em Cochabamba,
tem capacidade para refinar 40 mil barris diários, enquanto a Refinaria
Guillermo Elder Bell, de Santa Cruz de la Sierra, tem capacidade instalada
de 20 mil barris/dia. O mesmo consórcio, através da Empresa Boliviana
de Distribuición – EBD, detém 92 postos de distribuição – o que corresponde
a 22% do mercado.
A Petrobras ainda participa, com 25%, do consórcio formado para a
construção de uma usina termelétrica em Puerto Suárez, na fronteira
com o Brasil. Um investimento de US$ 60 milhões irá resultar numa
usina com potência instalada de 88 MW.
Desde o início das atividades na Bolívia, a Petrobras já investiu
mais de US$ 700 milhões – ou US$ 1.040 milhão junto com seus sócios.
Entre 2002 e 2004, o plano é investir mais US$ 697,5 milhões, entre
a construção do Gasyrg, a planta de processamento de gás em San Antonio,
e atividades de refino e distribuição – só a Petrobras será responsável
por US$ 310 milhões desse valor. “Quando estiverem concluídos os investimentos,
em 2005, o faturamento da Petrobras deverá atingir US$ 1,5 bilhão”,
prevê Décio.
Uma recente pesquisa publicada pelo semanário Santa Cruz Econômico
apontou a Petrobras como a quarta marca mais lembrada – ficando atrás
apenas de Coca-Cola, McDonalds e Burger King. A produção de gás como
fonte de divisas para o país
A entrada da companhia brasileira na Bolívia – um país pobre, de atividade
predominantemente rural – vem fazendo diferença para a economia local.
Somente com a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, houve uma contribuição
de 1,5% ao ano para o PIB boliviano, de 1997 a 1999.
A produção e exportação de gás natural também ganha status como fonte
de divisas, devendo passar de US$ 150 milhões para quase US$ 500 milhões
nos próximos três anos. “A Bolívia viveu, desde a construção do Gasbol,
em 1996, até as descobertas, em 1999, um ciclo de investimentos estrangeiros
de cerca de US$ 500 milhões por ano”, conta o presidente da Petrobras
na Bolívia.
A chegada da Petrobras na Bolívia aconteceu com as obras do Gasbol.
A companhia brasileira firmou um contrato de fornecimento diário de
30 milhões de m³ ao dia de gás natural, que inicialmente seriam complementados
com a produção argentina ou peruana. Somente depois de iniciar as
obras do gasoduto é que foram descobertas reservas de gás nos campos
de San Alberto e San Antonio. “A Bolívia vai cumprir o contrato com
o Brasil exportando gás boliviano”, comemora Décio.
Hoje, passam diariamente pelo gasoduto cerca de 13 milhões de m³.
Em 2004, com o desenvolvimento do mercado brasileiro, o movimento
deverá atingir os 30 milhões de m³ diários.
A maior reserva de gás natural da América do Sul depende também do
Brasil para viabilizar sua produção: sem saída para o mar, a Bolívia
precisa acompanha de perto o movimento do mercado brasileiro. “O mercado
brasileiro está lento”, lamenta o presidente da YPFB, Hugo Román.
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Sem mercado assegurado, o país corre o risco de perder atratividade
de investimentos. Sua localização geográfica também torna-se um empecilho:
o país também negocia com o Chile e o Peru a construção de uma planta
de liquefação de gás na costa do Pacífico, o que permitirá exportar
GNL para a Ásia e EUA.
As reservas bolivianas estão estimadas em 52,4 trilhões de pés cúbicos
– TCF, dos quais 3,5 TCF são para consumo interno e 8 TCF para honrar
o contrato de 20 anos do Gasbol. “Nos próximos dez anos, o gás será
o motor do resto da economia”, diz o ministro boliviano de Comércio
Exterior, Cláudio Mansilla.
Ainda assim, os dois principais candidatos à presidência da Bolívia
– Jaime Paz Zamora, do Movimiento de Izquierda Revolucionário, e Manfred
Reyes Villa, da Nueva Fuerza Republicana – prometem “bolivianizar”
o gás. A proposta de Zamora é modificar o regime fiscal, enquanto
que a NFR pretende fazer o Estado voltar a ter uma participação ativa
na produção de gás, com o relançamento da YPFB.
Os dois candidatos estão servindo-se do assunto para atacar o candidato
do Movimento Nacionalista Revolucionário, Gonzalo Sanchez de Lozada,
responsável pela privatização de grande parte das empresas bolivianas,
incluindo a estatal YPFB.
Cerca de 60% dos bolivianos vivem abaixo da linha da pobreza – esses
dados ajudam a compreender a importância do gás natural para a economia
local. Os impostos, royalties e empregos podem transformar economicamente
as regiões rurais, onde estão as reservas de gás natural.
A pequena cidade de Yacuíba, na divisa com a Argentina, vive agora
dividida entre as atividades agrícolas e a prestação de serviços para
as companhias petrolíferas que atuam na região. Quem trafega pelas
redondezas tem uma leve impressão de estar na região norte-fluminense:
multinacionais que prestam serviço para a atividade petrolífera, como
Baker Hughes e Schlumberger, já instalaram suas bases de apoio, atrás
não só da Petrobras, mas também de TotalFinaElf, BG e Repsol.
A Petrobras vem patrocinando a modernização da única maternidade local,
além de já ter construído oito escolas voltadas para as crianças da
comunidade. Há também investimentos em eletrificação rural. Um bom
indicador da importância da Petrobras em Yacuíba é o ambulatório instalado
na planta de processamento de gás do campo de San Alberto, que serve
mais a população local do que os funcionários da companhia. “Dias
atrás, um garoto que fraturou o braço veio pedir ajuda ao médico do
nosso ambulatório, de quem recebeu os primeiros socorros”, conta Décio.
Detalhe: o hospital mais próximo está localizado a uma hora e meia
do local. |
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NA EDIÇÃO IMPRESSA
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Petro & Química - Edição
237
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