Edição 237 – Maio de 2002 – Revista Petro & Química
Cheia de gás
Seis anos após dar início às atividades exploratórias no campo de San Alberto, a Petrobras faz mais que produzir gás natural, refinar petróleo ou comercializar derivados na Bolívia. Só no ano passado, os investimentos na área social alcançaram os US$ 1,3 milhões. No país, a companhia brasileira tem uma presença marcante no apoio à educação, saúde, cultura e meio ambiente. No departamento de Tarija – onde estão localizados dois campos concedidos à Petrobras – já foram construídas oito escolas para a comunidade, e a companhia vem patrocinando a reforma da única maternidade local e a eletrificação rural.

Com um faturamento que deve atingir US$ 1 bilhão em 2002, a Petrobras já é a maior empresa do país, respondendo por cerca de 12% do Produto Interno Bruto da Bolívia – que gira na casa dos US$ 8 bilhões. Nada mal para quem arcou com todos os investimentos iniciais de um projeto de risco – nem mesmo geólogos como Carlos Walter Campos, desbravador da Bacia de Campos, acreditava que pudesse existir gás na cadeia de montanhas bolivianas. Descobertas as reservas em agosto de 1998, o projeto atualmente rende à Petrobras um lucro líquido de US$ 17 milhões – apurado no ano passado, valor que corresponde a US$ 265 bilhões em impostos gerados pelas atividades da companhia.

Hoje a Petrobras produz pouco mais de 5 milhões de m³ por dia de gás natural e 4 mil barris de óleo leve no campo de San Alberto, e desenvolve a produção no campo de San Antonio, ambos localizados no Departamento de Tarija, divisa da Bolívia com a Argentina. Mesmo tendo que bancar sozinha os investimentos, a legislação boliviana garantia que metade da produção, em caso de descoberta, pertenceria à estatal YPFB. Com as capitalização da YPFB, essa fatia hoje cabe à Andina – uma companhia 50% pertencente à Repsol e 50% de propriedade do povo boliviano. Por outro lado, em virtude do risco exploratório, a Petrobras repassou uma participação de 15% à petroleira Total. “Nos dois blocos, as reservas provadas chegam a 583 bilhões de m³ – um potencial de produção de 50 milhões de m³ diários”, conta o presidente da Petrobras na Bolívia, Décio Oddone.

Portfólio

A entrada em operação da segunda fase da planta de processamento de gás em San Alberto irá permitir elevar a capacidade de produção do campo para 13,2 milhões de m³ diários e 10 mil barris de condensado. A planta é constituída por dois módulos integrados, com capacidade de processar 6,6 milhões de m³ diários cada. O gás associado retirado de cinco poços localizados na região serrana passa por uma unidade de amina – para a retirada do CO2. Em seguida, passa por uma refrigeração, a cerca de –18º C, para a separação das correntes mais pesadas – nesta fase, como a formação de hidrato torna-se um problema para os equipamentos, o gás precisa passar uma unidade de glicol, para a retirada da água.

Por fim, o gás é estabilizado – aquecido para a retirada das correntes leves. Um duto se encarrega de transportar a produção diária até o Yabog – gasoduto que liga a região à estação de compressão de Rio Grande, ponto inicial do Gasoduto Bolívia-Brasil. O condensado segue por outro duto até as refinarias de Cochabamba e Santa Cruz e a água é re-injetada nos poços.

Com a construção de outras duas plantas de igual dimensão no campo de San Antonio, a partir de janeiro de 2003, a produção chegará a 26 milhões de m³ de gás e 20 mil barris de condensado. O campo tem uma superfície aproximada de 48 km².

Juntos, os blocos de San Alberto e San Antonio representam as maiores reservas de gás do país – somados aos campos de Margarita e Itaú, operados por outras companhias petrolíferas, detém 80% das reservas bolivianas de gás. Do gás exportado ao Brasil, 24,1% é produzido pela Petrobras. “San Alberto e San Antonio vão produzir 22 milhões de m³, dos 30 milhões de m³ diários que irão seguir pelo Gasbol a partir de 2004”, contabiliza Décio.

A Petrobras também explora, sozinha, o bloco Ingre – localizado na região serrana de Chuquisaca – onde vem preparando a perfuração do primeiro poço exploratório. Ainda detém, na mesma região, 20% de participação no campo Monteagudo, e 50% do bloco Rio Hondo – localizado entre Cochabamba e La Paz – no qual estão sendo desenvolvidos estudos sísmicos.
Construção do Gasyrg: investimento US$ 400 milhões
Outro investimento que a Petrobras vem tocando no país, através da subsidiária Transierra, é a construção de outro duto ligando seus campos à Rio Grande. As obras do Gasoduto Yacuíba-Rio Grande – Gasyrg vêm consumindo mais de US$ 400 milhões, e deverão estar prontas no final deste ano. Com 431 km de extensão, o Gasyrg terá capacidade de transportar 16 milhões de m³ de gás por dia, produzidos pela Petrobras nos campos de San Alberto e San Antonio. Os 6 milhões de m³ restantes continuarão seguindo pelo Yabog até Rio Grande – além de cliente, a Petrobras tornou-se concorrente da Transredes, operadora do Yabog e do trecho boliviano do Gasbol.

Em parceria com a argentina Pérez Companc, a Petrobras é dona das duas únicas refinarias da Bolívia, através da Empresa Boliviana de Refinación Distribuición – EBR. A aquisição foi feita através de uma licitação internacional, em dezembro de 1999, onde a Petrobras investiu US$ 100 milhões. A Refinaria Gualberto Villarroel, localizada em Cochabamba, tem capacidade para refinar 40 mil barris diários, enquanto a Refinaria Guillermo Elder Bell, de Santa Cruz de la Sierra, tem capacidade instalada de 20 mil barris/dia. O mesmo consórcio, através da Empresa Boliviana de Distribuición – EBD, detém 92 postos de distribuição – o que corresponde a 22% do mercado.

A Petrobras ainda participa, com 25%, do consórcio formado para a construção de uma usina termelétrica em Puerto Suárez, na fronteira com o Brasil. Um investimento de US$ 60 milhões irá resultar numa usina com potência instalada de 88 MW.

Desde o início das atividades na Bolívia, a Petrobras já investiu mais de US$ 700 milhões – ou US$ 1.040 milhão junto com seus sócios. Entre 2002 e 2004, o plano é investir mais US$ 697,5 milhões, entre a construção do Gasyrg, a planta de processamento de gás em San Antonio, e atividades de refino e distribuição – só a Petrobras será responsável por US$ 310 milhões desse valor. “Quando estiverem concluídos os investimentos, em 2005, o faturamento da Petrobras deverá atingir US$ 1,5 bilhão”, prevê Décio.

Uma recente pesquisa publicada pelo semanário Santa Cruz Econômico apontou a Petrobras como a quarta marca mais lembrada – ficando atrás apenas de Coca-Cola, McDonalds e Burger King. A produção de gás como fonte de divisas para o país

A entrada da companhia brasileira na Bolívia – um país pobre, de atividade predominantemente rural – vem fazendo diferença para a economia local. Somente com a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, houve uma contribuição de 1,5% ao ano para o PIB boliviano, de 1997 a 1999.

A produção e exportação de gás natural também ganha status como fonte de divisas, devendo passar de US$ 150 milhões para quase US$ 500 milhões nos próximos três anos. “A Bolívia viveu, desde a construção do Gasbol, em 1996, até as descobertas, em 1999, um ciclo de investimentos estrangeiros de cerca de US$ 500 milhões por ano”, conta o presidente da Petrobras na Bolívia.

A chegada da Petrobras na Bolívia aconteceu com as obras do Gasbol. A companhia brasileira firmou um contrato de fornecimento diário de 30 milhões de m³ ao dia de gás natural, que inicialmente seriam complementados com a produção argentina ou peruana. Somente depois de iniciar as obras do gasoduto é que foram descobertas reservas de gás nos campos de San Alberto e San Antonio. “A Bolívia vai cumprir o contrato com o Brasil exportando gás boliviano”, comemora Décio.

Hoje, passam diariamente pelo gasoduto cerca de 13 milhões de m³. Em 2004, com o desenvolvimento do mercado brasileiro, o movimento deverá atingir os 30 milhões de m³ diários.

A maior reserva de gás natural da América do Sul depende também do Brasil para viabilizar sua produção: sem saída para o mar, a Bolívia precisa acompanha de perto o movimento do mercado brasileiro. “O mercado brasileiro está lento”, lamenta o presidente da YPFB, Hugo Román.
Sem mercado assegurado, o país corre o risco de perder atratividade de investimentos. Sua localização geográfica também torna-se um empecilho: o país também negocia com o Chile e o Peru a construção de uma planta de liquefação de gás na costa do Pacífico, o que permitirá exportar GNL para a Ásia e EUA.

As reservas bolivianas estão estimadas em 52,4 trilhões de pés cúbicos – TCF, dos quais 3,5 TCF são para consumo interno e 8 TCF para honrar o contrato de 20 anos do Gasbol. “Nos próximos dez anos, o gás será o motor do resto da economia”, diz o ministro boliviano de Comércio Exterior, Cláudio Mansilla.

Ainda assim, os dois principais candidatos à presidência da Bolívia – Jaime Paz Zamora, do Movimiento de Izquierda Revolucionário, e Manfred Reyes Villa, da Nueva Fuerza Republicana – prometem “bolivianizar” o gás. A proposta de Zamora é modificar o regime fiscal, enquanto que a NFR pretende fazer o Estado voltar a ter uma participação ativa na produção de gás, com o relançamento da YPFB.

Os dois candidatos estão servindo-se do assunto para atacar o candidato do Movimento Nacionalista Revolucionário, Gonzalo Sanchez de Lozada, responsável pela privatização de grande parte das empresas bolivianas, incluindo a estatal YPFB.

Cerca de 60% dos bolivianos vivem abaixo da linha da pobreza – esses dados ajudam a compreender a importância do gás natural para a economia local. Os impostos, royalties e empregos podem transformar economicamente as regiões rurais, onde estão as reservas de gás natural.

A pequena cidade de Yacuíba, na divisa com a Argentina, vive agora dividida entre as atividades agrícolas e a prestação de serviços para as companhias petrolíferas que atuam na região. Quem trafega pelas redondezas tem uma leve impressão de estar na região norte-fluminense: multinacionais que prestam serviço para a atividade petrolífera, como Baker Hughes e Schlumberger, já instalaram suas bases de apoio, atrás não só da Petrobras, mas também de TotalFinaElf, BG e Repsol.

A Petrobras vem patrocinando a modernização da única maternidade local, além de já ter construído oito escolas voltadas para as crianças da comunidade. Há também investimentos em eletrificação rural. Um bom indicador da importância da Petrobras em Yacuíba é o ambulatório instalado na planta de processamento de gás do campo de San Alberto, que serve mais a população local do que os funcionários da companhia. “Dias atrás, um garoto que fraturou o braço veio pedir ajuda ao médico do nosso ambulatório, de quem recebeu os primeiros socorros”, conta Décio. Detalhe: o hospital mais próximo está localizado a uma hora e meia do local.
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