Edição 240 – Agosto de 2002 – Revista Petro & Química
Sem medo da concorrência
Flávio Bosco
Domínio tecnológico e internacionalização. Essa é a estratégia traçada pela Petrobras em tempos pós-monopólio. Com mais de 90% de seus ativos no Brasil, a companhia está decidida a ampliar sua atuação internacional, não só para diversificação do portfólio, mas também para reduzir custos de captação.

Segundo o presidente da Petrobras, Francisco Gros, a empresa capta dinheiro pela metade do prazo, mas paga duas vezes o custo em relação às suas concorrentes internacionais.

Com uma produção de petróleo que passa de 1,5 milhão de barris por dia, um parque de refino capaz de processar 1,8 milhão de barris por dia, além de ativos em distribuição, transporte, petroquímica e geração de energia, a Petrobras pensa agora em avançar no mercado externo, onde já está presente em oito países.

Pelo plano traçado, os investimentos no exterior, que giraram em US$ 400 milhões no ano passado, deverão chegar a US$ 7,3 bilhões 2005. Três áreas são prioritárias: Costa Oeste da África, Golfo do México e América Latina.

A meta de crescimento no exterior é ambiciosa: produzir 300 mil barris/dia e refinar outros 300 mil barris/dia. O maior exemplo dessa estratégia é a Argentina, onde a companhia recentemente encontrou óleo e adquiriu duas empresas – a Perez Companc e a Santa Fé.

Tecnologia

A busca pelo petróleo leva a Petrobras a submergir cada vez mais fundo, em profundidades que se aproximam dos 3 mil metros. Isto porque 75% do total das reservas brasileiras estão em águas profundas e ultraprofundas. Para se ter uma idéia, do pico 1.567.701 barris produzidos em um único dia do mês de dezembro, 66% foram tirados de reservatórios localizados águas além dos 400 metros de profundidade – dos 34% restantes, metade foram produzidos onshore e o restante em águas rasas.

Dos 56 blocos exploratórios concedidos à companhia, 50 estão localizados em bacias offshore, sendo que mais de 80% em águas profundas ou ultraprofundas. Pela meta estimada no planejamento da Petrobras, em 2005 serão produzidos 1,9 milhão de barris diários, dos quais 75% provenientes dessas bacias. Desenvolver tecnologia para produzir petróleo em águas profundas e ultraprofundas – onde as condições de pressão e temperatura não são ideais às bombas e linhas de escoamento – tem sido, então, uma questão de sobrevivência no acirrado mundo do petróleo.

Por isso que o Centro de Pesquisas da Petrobras – Cenpes está mobilizado, em cinco anos, R$ 130 milhões para o Programa de Capacitação Tecnológica para Exploração em Águas Ultraprofundas – Procap-3000.

As inovações atingidas pelo Cenpes já renderam à companhia dois Distinguished Achievement Award, concedido pela Offshore Conference Technology. (Flávio Bosco)
A vez da Indústria
As indústrias fornecedoras de equipamentos e serviços para o setor de petróleo e gás já se estruturam para competir pelos US$ 40 bilhões que serão investidos no país, nos próximos cinco anos. A cidades da região Norte Fluminense, ponto de apoio às operações na Bacia de Campos, vêem proliferar em seu território o número de empresas prestadoras de serviço.

Isso sem contar que, com esforço, as indústrias poderão concorrer pelos mercados da África e América Latina, com investimentos estimados superiores a US$ 400 milhões nos próximos dez anos. “Vender para outros países é até mais fácil, devido a incentivos, isenções e custo de financiamento. Mas as empresas precisam ter foco: até agora, as exportações que ocorreram foram apenas spots. Ainda não existe uma filosofia voltada para exportações”, afirma Alberto Machado.

Mas ainda existem gargalos a serem ultrapassados. O mais conhecido é a tributação: só o resíduo tributário pode onerar em até 7% um equipamento. “Suficiente para ganhar ou perder algo”, conta o vice-presidente do Grupo Setal, Augusto Mendonça.

O Repetro – regime fiscal criado em 1999 para garantir isenção de ICMS para equipamentos utilizados na indústria de petróleo – ainda não está operacionalizado, fazendo com que algumas encomendas que pudessem ser fabricadas por empresas brasileiras, sejam direcionadas ao exterior. “Somos piores devido ao sistema tributário que nos castiga”, avalia Armando Guedes Coelho, vice-presidente da Firjan.

Um bom exemplo é a indústria naval, que atravessou a década de 90 quase naufragada e, a reboque do setor de petróleo, começa a ser reativada. Para garantir que as encomendas fossem executadas no Brasil, os Governos Federal e do Estado do Rio de Janeiro baixaram medidas de estímulo, como a regulamentação do Fundo de Marinha Mercante e a isenção de ICMS.

O diretor geral da ANP propõe mudanças na legislação tributária na indústria do petróleo, para pôr as empresas nacionais em condições de competir com as estrangeiras no setor de equipamentos e serviços. “O protecionismo não é bom, mas somos vítimas do protecionismo alheio. Defendo que a sociedade utilize a ANP como um foro, para lutar pela criação de condições de igualdade de oportunidades para a empresa nacional”.

A questão tecnológica também é um assunto a ser tratado pela indústria. O país ocupa a modesta 43ª posição no ranking da inovação tecnológica, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. Para se ter uma idéia clara do que isso representa, no ano passado foram gastos US$ 3,5 bilhões com o pagamento de royalties a empresas estrangeiras.

No ano passado, o país exportou US$ 3,5 bilhões em equipamentos. 85% desse valor poderia ser suprido por equipamentos fabricados no Brasil. “Somente determinados itens não são produzidos no país por falta de escala”, explica o superintendente da Onip.

Segundo Alberto Machado, é preciso haver uma sinalização da demanda futura, para que as empresas adequem seus parques. “No passado, a Petrobras demandou árvores de natal para produção offshore, e hoje várias empresas instaladas no Brasil produzem esse equipamento”.

Conciliar a demanda das petroleiras com a capacidade das fornecedoras tem sido a tônica da Onip. Para isso tem organizado missões empresariais para expor a capacitação da indústria nacional. Outra ação adotada é a articulação com as companhias, para direcionar as encomendas aos fornecedores locais.

“Quando uma empresa estrangeira conhece o que o país tem a oferecer, ela muda seu comportamento. A encomenda pelas amarras para os navios do projeto Barracuda - Caratinga, que serão produzidas no país, são exemplos de compras que foram redirecionadas após diálogos entre a indústria e a companhia operadora”, finaliza Machado. (FB)
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