MATÉRIA DE CAPA – Edição 251 - agosto de 2003
Atuação Responsável passa por revisão 
por Flávio Bosco
Dez anos após implantar o Responsible Care no país, indústrias discutem novos rumos para o Programa. Entre as novidades, uma maior integração com outros sistemas de gestão.
Flávio Bosco
Após a consolidação do Atuação Responsável, a Abiquim prepara uma revisão do programa. Os princípios diretivos e a estrutura dos códigos será atualizada para atender aos novos desafios que a indústria enfrenta, passados dez anos da criação do programa no país.

O assunto já vem sendo maturado há dois anos – desde a realização do 5º Congresso de Atuação Responsável, em 2001, quando os estudos preliminares sobre os novos rumos que o programa deveria tomar foram iniciados. “As empresas já sinalizavam com a integração dos sistemas de gestão, e apontavam também interesse em participar do Prêmio Nacional da Qualidade. Acompanhando a evolução do programa, percebemos que muitas empresas associadas já haviam implantado todas as práticas e questionavam o que poderia ser feito para que o Atuação Responsável aumentasse seu valor como instrumento para a gestão de seus negócios. E com isso, sinalizavam que o Atuação Responsável precisava de uma revisão que o aperfeiçoasse e permitisse a ele fornecer elementos para que a indústria química continue melhorando continuamente o seu desempenho, o que é fundamental”, explica Marcelo Kós, gerente técnico da Abiquim.

As modificações no Atuação Responsável devem novamente propiciar novos patamares para essa iniciativa voluntária da indústria química, pois, decorridos 11 anos de seu lançamento pela Abiquim, a legislação brasileira e os acordos internacionais já transformaram em obrigatório grande parte daquilo que anteriormente era voluntário. Além disso, em nível internacional o Programa vem passando por uma revisão, coordenada pelo Conselho Internacional das Associações da Indústria Química - ICCA. “Todos esses questionamentos nos levaram, nesses dois anos, a refletir o que seriam os pontos importantes”.

A revisão proposta pelos diretores, técnicos e líderes empresariais envolvidos no programa pretende modificar o arranjo dos códigos e o foco do programa – que dará mais ênfase à gestão dos produtos. “Direcionar a atenção da indústria cada vez mais para os produtos que fabrica é uma estratégia para o presente e para o futuro, pois são eles que estão no dia a dia da sociedade. Os cuidados com as unidades industriais são fundamentais e não serão nunca reduzidos, pois bons produtos provêm de boas fábricas”, explica Marcelo Kós.

Por meio de suas comissões, a Abiquim trabalha para definir, em cada área, quais são os novos parâmetros de excelência para a indústria química – os atuais códigos, criados em 1992, contém práticas que eram consideradas excelência em gestão à época. Acrescentou-se ao debate a extensão das dimensões cobertas pelo Atuação Responsável, hoje limitadas à saúde, segurança e meio ambiente, para incluir outras, como Qualidade, Responsabilidade Social e “Proteção Corporativa” (que passou a constar da pauta após os atentados de 11 de setembro 2001). “Isso tudo vai levar a novas práticas e indicadores”, comenta o gerente.
Novo foco

Com a atual estrutura, há uma “perda de carga”: como trabalhar, de forma integrada, o Atuação Responsável com sistemas de gestão que existem no mercado, em especial os ISO 14000 e 9000? A relação entre o programa e as normas ISO 14000, aliás, sempre foi um questionamento comum feito por empresas associadas e não associadas à Abiquim.

Em resposta a essas questões, a proposta é ajustar o VerificAR – a sistemática de verificação externa criada pela entidade no ano passado. “A Abiquim pretende fazer com que todas as auditorias possam ficar cobertas pela mesma ferramenta, incluindo aí outras dimensões – Segurança, Qualidade e Responsabilidade Social – dentro de uma abordagem coerente para permitir às empresas fazer uma só auditoria e eventualmente, caso desejem, obter as certificações correspondentes.”

Só que, com tantos assuntos, havia a dúvida se, aumentando em abrangência, o Atuação Responsável não perderia seu foco, a melhoria do desempenho em saúde, segurança e meio ambiente. A solução encontrada permite conciliar a maior abrangência e o foco principal. A Abiquim está trabalhando com o conceito de prioridades divididas em 3 níveis: o que é compromisso obrigatório para todas as empresas associadas atualmente - Saúde, Meio Ambiente, Segurança do Trabalho continuará a sê-lo, com a adição do tema de Proteção Patrimonial, devido à sua relevância atual.

Num segundo nível de prioridade estarão temas onde existem práticas e tecnologias que são de domínio das empresas, mas com os quais a obrigatoriedade não for julgada possível ou desejada nesse momento. Um exemplo pode ser a área da Qualidade, que envolve questões importantes no nível de cada empresa, mas que, no contexto da indústria como um todo, não exige o mesmo nível de atendimento, quando comparado à saúde, segurança e meio ambiente. Por fim, no 3º nível, estarão temas também muito importantes, mas que ainda não possuem um grau de maturidade suficiente para configurarem obrigações, e devem ser mais bem conhecidos pelas empresas. Nesses casos o Atuação Responsável será uma grande referência para as empresas, permitindo a troca de experiências entre elas. Talvez estejam incluídos nesse terceiro nível temas ligados ao contexto social.

“Com esse modelo, conseguimos deixar mais claro que não estamos querendo tornar o Atuação Responsável mais complexo. Pelo contrário, o programa está sendo simplificado, permitindo às empresas vislumbrarem quais são os desafios, através da ferramenta Atuação Responsável”, explica Marcelo Kós.

Novas práticas

Pelas contas da Abiquim, esse processo de revisão do Atuação Responsável deve se estender por mais um ano – o modelo final deverá estar sendo apresentado no 8º Congresso, em 2004, quando também deverá ser definido o cronograma de transição das versões do programa.

Enquanto isso, novas práticas já vem sendo discutidas dentro do conceito. A revisão deverá trazer um número menor do que as 116 práticas hoje existentes, pois o modelo em estudo prevê que passe a existir um único conjunto de práticas gerenciais do Atuação Responsável, que cubra todas as dimensões previstas nos 3 níveis de prioridade. Os atuais Códigos serão incorporados e deverão ser criados novos guias para explicar como as práticas podem ser implementadas nas empresas.

Os novos guias projetados deverão ser em número de 6, divididos de acordo com os principais processos encontrados nas empresas químicas: cadeia de suprimentos, produção, transporte e distribuição, comercialização de produtos, diálogo com as partes interessadas e P&D, sendo esses dois últimos considerados processos de suporte.

“Aproveitamos o conceito adotado no Canadá, onde a distribuição das práticas é feita por processo, ao invés de por tema, como ocorre no modelo americano, que adotamos atualmente. A diferença em relação ao modelo canadense está ligada ao fato de que teremos um único conjunto de práticas, cujos detalhes de aplicação serão descritos em cada guia, de acordo com a interpretação que melhor se encaixe naquela etapa do processo”.

A maneira como essas praticas estão sendo distribuídas procurará facilitar o entendimento das relações entre o que o Atuação Responsável demanda e os requisitos das normas ISO 14001 e 9001/2000, OHSAS 18001, entre outras. Isso está sendo feito para evitar duplicações de esforços para montagens de sistemas de gestão integrados e , por meio do uso do VerificAR, tornar mais fáceis os processos de certificação de normas por parte das empresas associadas e assim solucionar a questão das inúmeras auditorias que são realizadas na empresa. “Vamos procurar fazer com que o VerificAR seja o instrumento de auditoria da indústria química. Da mesma maneira que a associação da indústria química americana - ACC está fazendo com a criação da RC 14001 – uma auditoria integrada do Responsible Care e ISO 14001 – podemos fazer com que a auditoria do VerificAR atenda às questões referentes às normas ISO 14001 e demais normas. Pode parecer ambicioso mas é perfeitamente possível”.

Pela proposta, as empresas certificadoras, que atualmente já estão qualificadas para aplicar o VerificAR, fariam uma única auditoria na empresa, incluindo os critérios relativos às normas ISO 14001, OHSAS 18001, ISO 9001/2000 e aqueles específicos do Atuação Responsável. “Mesmo que o processo demore uma semana dentro da empresa, é melhor do que ficar com uma auditoria durante alguns dias, e na semana seguinte receber outra. No final das contas, hoje cada empresa perde um mês fazendo diversas auditorias. Com essa proposta de fazer tudo dentro do VerificAR, as associadas ganharão tempo e reduzirão seus custos”, avalia Marcelo Kós.

Para permitir que o VerificAR seja um apoio para as empresas que pretendem concorrer ao PNQ, a sistemática da Abiquim conterá elementos comuns à avaliação feita pela Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade, como por exemplo, a ferramenta do relatório da gestão. O maior trabalho será corresponder todos os critérios (PNQ, ISO 9001, ISO 14001, OHSAS, SA 8000, e os códigos do Atuação Responsável), e escrever práticas que atendam a todos os diferentes requisitos. “Estamos montando uma primeira proposta, que será levada à discussão, porque além de atender às normas, as empresas estão usando uma série de outras coisas, como o Balanced ScoreCard e o Six Sigma”.

Mudança do Responsible Care

Não é só no Brasil que o Atuação Responsável está mudando: o Canadá e os EUA, primeiros países a implantarem o Responsible Care, também revisam ou já revisaram seus programas e na Europa, o assunto predomina também no seminário que o Conselho da Indústria Química Européia – CEFIC, organiza em outubro na Turquia.

No Canadá, as mudanças foram relativamente pequenas, pois as empresas consideraram que os Códigos estavam satisfatórios, porém desenvolveram uma nova ética, que substituiu os Princípios Diretivos originais, desenvolvidos em 1985. A nova ética menciona o compromisso da indústria química canadense com a sustentabilidade econômica, social e ambiental das empresas e de sua cadeia de valor. Por sua vez, a associação americana da indústria química – ACC, criou o conceito de Sistema de Gestão do Responsible Care e desenvolve as ferramentas de verificação RC 14001 e do próprio sistema de Responsible Care.

No âmbito do ICCA também está havendo um processo de discussão e revisão, com o intuito de harmonizar a abordagem dos programas nacionais de Responsible Care, procurando identificar oportunidades para melhorias da condução desses programas, uma vez que, em âmbito mundial, existem abordagens e ritmos de adoção por vezes destoantes.

A exemplo do que já existe no Canadá e nos Estados Unidos, a ABIQUIM está implantando até outubro o seu Conselho Consultivo Nacional, formado por líderes e formadores de opinião no Brasil, que será ouvido sobre todos os aspectos da revisão do Atuação Responsável, de modo a tornar o resultado final o mais próximo possível daquilo que a sociedade brasileira considera ser uma indústria química “responsável”.

Congresso

A realização do 7º Congresso de Atuação Responsável – nos dias 29, 30 de setembro e 1º de outubro, em São Paulo – é parte fundamental do processo de revisão do programa. Com o tema “RevisAR para MelhorAR”, o evento discutirá os detalhes da revisão e permitirá intensa troca de experiências. O programa do evento não é de interesse exclusivo dos profissionais da indústria – professores universitários e pesquisadores serão convidados a participar do congresso como um todo e mais especificamente, de um “workshop” destinado a discutir o papel das universidades e centros de pesquisa nos temas tratados nos 3 dias. “Será discutido como a experiência das universidades e centros de pesquisa poderão contribuir com a indústria e como a indústria pode trabalhar com eles em questões ligadas, principalmente, à formação de pessoas, P&D e aspectos de saúde, segurança e meio ambiente nas instalações de ensino e pesquisa”.

Também serão apresentados os dados do Relatório de Atuação Responsável de 2003, mostrando a evolução dos indicadores informados pelas empresas até 2002. (vide Box). A taxa de freqüência de acidentes, por exemplo, vem apresentando constante decréscimo desde a publicação do Guia de Saúde e Segurança, em 1994, tendo registrado uma queda de 35% entre 1999 e 2002.

Também melhoraram o volume de efluentes lançados (queda de 48%) e geração de resíduos (-37%) desde 1999 até o ano passado. “Os números indicam que a indústria está melhorando muito o seu desempenho e só podemos atribuir isso ao fato de que a gestão está sendo bem feita, comprovando que o Atuação Responsável está realmente sendo útil”, comemora o gerente.

Para os indicadores que não apresentaram evolução – como o número de mortes, que ainda não foi zerado – a entidade discute seriamente formas para erradicar o problema, visto que considera o assunto prioritário.

Ed. 251 - agosto de 2003
Assine já!
NA EDIÇÃO IMPRESSA
Petro&Química - Edição 251
Rohm and Hass comemora 50 anos de Brasil

Novas tecnologias dominam a Vrasitec 2003

Abimaq defende carga tributária menor

Akzo Nobel valida o VerificAR

Indicadores comprovam desempenho da Braskem

Co-processamento: uma solução da Petrobras para reciclagem de pneus

Oxiteno contra as não-conformidades

Distribuidoras expandem malhas de gasodutos

Petrobras divulga resultados do primeiro semestre

E muito mais...

Todos os direitos reservados a Valete Editora Técnica Comercial Ltda. Tel.: (11) 6292-1838