Após a consolidação do Atuação
Responsável, a Abiquim prepara uma revisão do programa.
Os princípios diretivos e a estrutura dos códigos será
atualizada para atender aos novos desafios que a indústria
enfrenta, passados dez anos da criação do programa no
país.
O assunto já vem sendo maturado há dois anos
desde a realização do 5º Congresso de Atuação
Responsável, em 2001, quando os estudos preliminares sobre
os novos rumos que o programa deveria tomar foram iniciados. As
empresas já sinalizavam com a integração dos
sistemas de gestão, e apontavam também interesse em
participar do Prêmio Nacional da Qualidade. Acompanhando a evolução
do programa, percebemos que muitas empresas associadas já haviam
implantado todas as práticas e questionavam o que poderia ser
feito para que o Atuação Responsável aumentasse
seu valor como instrumento para a gestão de seus negócios.
E com isso, sinalizavam que o Atuação Responsável
precisava de uma revisão que o aperfeiçoasse e permitisse
a ele fornecer elementos para que a indústria química
continue melhorando continuamente o seu desempenho, o que é
fundamental, explica Marcelo Kós, gerente técnico
da Abiquim.
As modificações no Atuação Responsável
devem novamente propiciar novos patamares para essa iniciativa voluntária
da indústria química, pois, decorridos 11 anos de seu
lançamento pela Abiquim, a legislação brasileira
e os acordos internacionais já transformaram em obrigatório
grande parte daquilo que anteriormente era voluntário. Além
disso, em nível internacional o Programa vem passando por uma
revisão, coordenada pelo Conselho Internacional das Associações
da Indústria Química - ICCA. Todos esses questionamentos
nos levaram, nesses dois anos, a refletir o que seriam os pontos importantes.
A revisão proposta pelos diretores, técnicos e líderes
empresariais envolvidos no programa pretende modificar o arranjo dos
códigos e o foco do programa que dará mais ênfase
à gestão dos produtos. Direcionar a atenção
da indústria cada vez mais para os produtos que fabrica é
uma estratégia para o presente e para o futuro, pois são
eles que estão no dia a dia da sociedade. Os cuidados com as
unidades industriais são fundamentais e não serão
nunca reduzidos, pois bons produtos provêm de boas fábricas,
explica Marcelo Kós.
Por meio de suas comissões, a Abiquim trabalha para definir,
em cada área, quais são os novos parâmetros de
excelência para a indústria química os
atuais códigos, criados em 1992, contém práticas
que eram consideradas excelência em gestão à época.
Acrescentou-se ao debate a extensão das dimensões cobertas
pelo Atuação Responsável, hoje limitadas à
saúde, segurança e meio ambiente, para incluir outras,
como Qualidade, Responsabilidade Social e Proteção
Corporativa (que passou a constar da pauta após os atentados
de 11 de setembro 2001). Isso tudo vai levar a novas práticas
e indicadores, comenta o gerente.
Novo foco
Com a atual estrutura, há uma perda de carga: como
trabalhar, de forma integrada, o Atuação Responsável
com sistemas de gestão que existem no mercado, em especial
os ISO 14000 e 9000? A relação entre o programa e as
normas ISO 14000, aliás, sempre foi um questionamento comum
feito por empresas associadas e não associadas à Abiquim.
Em resposta a essas questões, a proposta é ajustar o
VerificAR a sistemática de verificação
externa criada pela entidade no ano passado. A Abiquim pretende
fazer com que todas as auditorias possam ficar cobertas pela mesma
ferramenta, incluindo aí outras dimensões Segurança,
Qualidade e Responsabilidade Social dentro de uma abordagem
coerente para permitir às empresas fazer uma só auditoria
e eventualmente, caso desejem, obter as certificações
correspondentes.
Só que, com tantos assuntos, havia a dúvida se, aumentando
em abrangência, o Atuação Responsável não
perderia seu foco, a melhoria do desempenho em saúde, segurança
e meio ambiente. A solução encontrada permite conciliar
a maior abrangência e o foco principal. A Abiquim está
trabalhando com o conceito de prioridades divididas em 3 níveis:
o que é compromisso obrigatório para todas as empresas
associadas atualmente - Saúde, Meio Ambiente, Segurança
do Trabalho continuará a sê-lo, com a adição
do tema de Proteção Patrimonial, devido à sua
relevância atual.
Num segundo nível de prioridade estarão temas onde existem
práticas e tecnologias que são de domínio das
empresas, mas com os quais a obrigatoriedade não for julgada
possível ou desejada nesse momento. Um exemplo pode ser a área
da Qualidade, que envolve questões importantes no nível
de cada empresa, mas que, no contexto da indústria como um
todo, não exige o mesmo nível de atendimento, quando
comparado à saúde, segurança e meio ambiente.
Por fim, no 3º nível, estarão temas também
muito importantes, mas que ainda não possuem um grau de maturidade
suficiente para configurarem obrigações, e devem ser
mais bem conhecidos pelas empresas. Nesses casos o Atuação
Responsável será uma grande referência para as
empresas, permitindo a troca de experiências entre elas. Talvez
estejam incluídos nesse terceiro nível temas ligados
ao contexto social.
Com esse modelo, conseguimos deixar mais claro que não
estamos querendo tornar o Atuação Responsável
mais complexo. Pelo contrário, o programa está sendo
simplificado, permitindo às empresas vislumbrarem quais são
os desafios, através da ferramenta Atuação Responsável,
explica Marcelo Kós.
Novas práticas
Pelas contas da Abiquim, esse processo de revisão do Atuação
Responsável deve se estender por mais um ano o modelo
final deverá estar sendo apresentado no 8º Congresso,
em 2004, quando também deverá ser definido o cronograma
de transição das versões do programa.
Enquanto isso, novas práticas já vem sendo discutidas
dentro do conceito. A revisão deverá trazer um número
menor do que as 116 práticas hoje existentes, pois o modelo
em estudo prevê que passe a existir um único conjunto
de práticas gerenciais do Atuação Responsável,
que cubra todas as dimensões previstas nos 3 níveis
de prioridade. Os atuais Códigos serão incorporados
e deverão ser criados novos guias para explicar como as práticas
podem ser implementadas nas empresas.
Os novos guias projetados deverão ser em número de 6,
divididos de acordo com os principais processos encontrados nas empresas
químicas: cadeia de suprimentos, produção, transporte
e distribuição, comercialização de produtos,
diálogo com as partes interessadas e P&D, sendo esses dois
últimos considerados processos de suporte.
Aproveitamos o conceito adotado no Canadá, onde a distribuição
das práticas é feita por processo, ao invés de
por tema, como ocorre no modelo americano, que adotamos atualmente.
A diferença em relação ao modelo canadense está
ligada ao fato de que teremos um único conjunto de práticas,
cujos detalhes de aplicação serão descritos em
cada guia, de acordo com a interpretação que melhor
se encaixe naquela etapa do processo.
A maneira como essas praticas estão sendo distribuídas
procurará facilitar o entendimento das relações
entre o que o Atuação Responsável demanda e os
requisitos das normas ISO 14001 e 9001/2000, OHSAS 18001, entre outras.
Isso está sendo feito para evitar duplicações
de esforços para montagens de sistemas de gestão integrados
e , por meio do uso do VerificAR, tornar mais fáceis os processos
de certificação de normas por parte das empresas associadas
e assim solucionar a questão das inúmeras auditorias
que são realizadas na empresa. Vamos procurar fazer com
que o VerificAR seja o instrumento de auditoria da indústria
química. Da mesma maneira que a associação da
indústria química americana - ACC está fazendo
com a criação da RC 14001 uma auditoria integrada
do Responsible Care e ISO 14001 podemos fazer com que a auditoria
do VerificAR atenda às questões referentes às
normas ISO 14001 e demais normas. Pode parecer ambicioso mas é
perfeitamente possível.
Pela proposta, as empresas certificadoras, que atualmente já
estão qualificadas para aplicar o VerificAR, fariam uma única
auditoria na empresa, incluindo os critérios relativos às
normas ISO 14001, OHSAS 18001, ISO 9001/2000 e aqueles específicos
do Atuação Responsável. Mesmo que o processo
demore uma semana dentro da empresa, é melhor do que ficar
com uma auditoria durante alguns dias, e na semana seguinte receber
outra. No final das contas, hoje cada empresa perde um mês fazendo
diversas auditorias. Com essa proposta de fazer tudo dentro do VerificAR,
as associadas ganharão tempo e reduzirão seus custos,
avalia Marcelo Kós.
Para permitir que o VerificAR seja um apoio para as empresas que pretendem
concorrer ao PNQ, a sistemática da Abiquim conterá elementos
comuns à avaliação feita pela Fundação
para o Prêmio Nacional da Qualidade, como por exemplo, a ferramenta
do relatório da gestão. O maior trabalho será
corresponder todos os critérios (PNQ, ISO 9001, ISO 14001,
OHSAS, SA 8000, e os códigos do Atuação Responsável),
e escrever práticas que atendam a todos os diferentes requisitos.
Estamos montando uma primeira proposta, que será levada
à discussão, porque além de atender às
normas, as empresas estão usando uma série de outras
coisas, como o Balanced ScoreCard e o Six Sigma.
Mudança do Responsible Care
Não é só no Brasil que o Atuação
Responsável está mudando: o Canadá e os EUA,
primeiros países a implantarem o Responsible Care, também
revisam ou já revisaram seus programas e na Europa, o assunto
predomina também no seminário que o Conselho da Indústria
Química Européia CEFIC, organiza em outubro
na Turquia.
No Canadá, as mudanças foram relativamente pequenas,
pois as empresas consideraram que os Códigos estavam satisfatórios,
porém desenvolveram uma nova ética, que substituiu
os Princípios Diretivos originais, desenvolvidos em 1985.
A nova ética menciona o compromisso da indústria química
canadense com a sustentabilidade econômica, social e ambiental
das empresas e de sua cadeia de valor. Por sua vez, a associação
americana da indústria química ACC, criou o
conceito de Sistema de Gestão do Responsible Care e desenvolve
as ferramentas de verificação RC 14001 e do próprio
sistema de Responsible Care.
No âmbito do ICCA também está havendo um processo
de discussão e revisão, com o intuito de harmonizar
a abordagem dos programas nacionais de Responsible Care, procurando
identificar oportunidades para melhorias da condução
desses programas, uma vez que, em âmbito mundial, existem
abordagens e ritmos de adoção por vezes destoantes.
A exemplo do que já existe no Canadá e nos Estados
Unidos, a ABIQUIM está implantando até outubro o seu
Conselho Consultivo Nacional, formado por líderes e formadores
de opinião no Brasil, que será ouvido sobre todos
os aspectos da revisão do Atuação Responsável,
de modo a tornar o resultado final o mais próximo possível
daquilo que a sociedade brasileira considera ser uma indústria
química responsável.
Congresso
A realização do 7º Congresso de Atuação
Responsável nos dias 29, 30 de setembro e 1º
de outubro, em São Paulo é parte fundamental
do processo de revisão do programa. Com o tema RevisAR
para MelhorAR, o evento discutirá os detalhes da revisão
e permitirá intensa troca de experiências. O programa
do evento não é de interesse exclusivo dos profissionais
da indústria professores universitários e pesquisadores
serão convidados a participar do congresso como um todo e
mais especificamente, de um workshop destinado a discutir
o papel das universidades e centros de pesquisa nos temas tratados
nos 3 dias. Será discutido como a experiência
das universidades e centros de pesquisa poderão contribuir
com a indústria e como a indústria pode trabalhar
com eles em questões ligadas, principalmente, à formação
de pessoas, P&D e aspectos de saúde, segurança
e meio ambiente nas instalações de ensino e pesquisa.
Também serão apresentados os dados do Relatório
de Atuação Responsável de 2003, mostrando a
evolução dos indicadores informados pelas empresas
até 2002. (vide Box). A taxa de freqüência de
acidentes, por exemplo, vem apresentando constante decréscimo
desde a publicação do Guia de Saúde e Segurança,
em 1994, tendo registrado uma queda de 35% entre 1999 e 2002.
Também melhoraram o volume de efluentes lançados (queda
de 48%) e geração de resíduos (-37%) desde
1999 até o ano passado. Os números indicam que
a indústria está melhorando muito o seu desempenho
e só podemos atribuir isso ao fato de que a gestão
está sendo bem feita, comprovando que o Atuação
Responsável está realmente sendo útil,
comemora o gerente.
Para os indicadores que não apresentaram evolução
como o número de mortes, que ainda não foi
zerado a entidade discute seriamente formas para erradicar
o problema, visto que considera o assunto prioritário.
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