MATÉRIA DE CAPA 2 – Edição 253 - Outubro de 2003
A mola propulsora da engenharia nacional 
por Flávio Bosco
Plano de investimentos da Petrobras impulsiona capacitação das empresas de engenharia industrial

Os vários agentes ligados ao setor de engenharia industrial vêm realizando um estudo conjunto, no âmbito do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural – Prominp para traçar um diagnóstico do setor no país e ver quais são os gargalos que podem atrapalhar as empresas nacionais em atender as demandas das petroleiras.

Além do Governo Federal, o Prominp conta com diversas entidades representantes da indústria petroleira e dos fornecedores de bens e serviços, como a Onip, a Abemi e a Abdib – todas mobilizadas para garantir abocanhar uma fatia dos investimentos de US$ 40 milhões previstos – só a parte da Petrobras deverá ser de US$ 34,5 bilhões até 2007.

“A identificação dos gargalos é fundamental. E o Prominp está nesse momento: identificando as necessidades, até para clarear quais as ações que as empresas devem tomar para fazer frente a essas demandas”, comenta o diretor superintendente da Ultratec, Ricardo Pessoa.

Por um lado a demanda será colocada pelas petroleiras – e desdobrada em recursos críticos. Na outra ponta, as empresas fornecedoras apresentam a capacidade. “A fotografia real do setor ainda não existe. Após essa fase de diagnóstico, teremos claro qual é o cenário”, completa Pedro Barusco, gerente executivo da Área de Engenharia da Petrobras.

No passado, a participação da Petrobras foi fundamental para a consolidação do setor no país – o apoio da companhia, traduzido em encomendas, permitiu a consolidação de grandes empresas, tecnologicamente capacitadas não só para atender a demanda do setor de petróleo, mas também em outros segmentos industriais. A partir da década de 1980, um ciclo de baixa em toda os setores da indústria reduziu o efetivo e comprometeu a capacitação tecnológica das empresas nacionais.

“As empresas de engenharia são capazes, mas o mercado esteve restrito. Agora está acontecendo o contrário, gerado pelo anúncio de investimentos da Petrobras”, avalia Barusco.

Gargalos

Não precisa ir muito longe para perceber alguns dos entraves enfrentados pelas empresas que trabalham com engenharia industrial no Brasil. A primeira limitação não é exclusiva ao setor, mas atinge todos os fornecedores de equipamentos e serviços: a questão tributária.

“Existem impostos demais. Em um projeto de US$ 1 bilhão, US$ 250 milhões são impostos. Isso é um tiro no pé”, observa Marcelo Correa, vice-presidente da Abemi.

Com a redução das atividades, grande parte das empresas teve dificuldade para acompanhar a ponta da tecnologia – e hoje nem todas possuem as caras estações 3D para produzir uma maquete eletrônica. “Se uma empresa investe em uma estação 3D, e não houver demanda, o investimento fica ocioso”, lembra Gabriel Abouchar, presidente da Setal Construções.

O mesmo problema acontece com a mão-de-obra disponível. “Houve, num determinado momento, a descapacitação das empresas em função da falta de demanda. Então, muito engenheiro projetista foi fazer outra coisa”, comenta Sérgio Boccaletti, engenheiro da GDK.

A solução não é tão problemática: basta criar cursos de qualificação – desde que não se perca o timming. “Passamos a década de 1990 regredindo em termos de investimentos. Com isso, criou-se um hiato. Agora as medidas têm que ser tomadas com rapidez”, completa Ricardo Pessoa.

Setor estratégico para a indústria nacional

Uma atenção especial também precisará ser dada à engenharia de detalhamento – porque é nessa fase que entram os fornecedores de equipamentos. “Quando o projeto é detalhado por uma empresa de fora, os fornecedores já estão dirigidos”, comenta Raul Sansom, membro do Conselho da Onip.

O próprio timming dos projetos também será importante. Porque, se todo o plano de investimento for disparado ao mesmo tempo, as empresas locais não darão conta. “A Petrobras nunca investiu US$ 7 bilhões por ano em toda sua história”, conta Abouchar, lembrando que, projetos que foram anunciados há cinco anos até hoje não se realizaram.

Por outro lado, a garantia da demanda será crucial para a retomada do setor aos tempos áureos – e até mesmo capacitar as empresas para, findado o ciclo de investimentos no Brasil, poderem concorrer internacionalmente.

Ed. 253 - outubro de 2003
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