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MATÉRIA DE CAPA Edição
254 - Novembro de 2003
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Qual o ensaio adequado?
por Flávio Bosco |
| Por se realizarem em menores prazos ou oferecerem
informações adicionais, petroquímicas optam por
ensaios não-destrutivos não convencionais e pagam
mais caro por isso.
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Se formos comparar os ensaios não-destrutivos convencionais
e os não convencionais, quais trariam os melhores resultados?
E os menores custos? Sem dúvida, os ensaios convencionais ainda
custam menos e, para muitas empresas, ainda trazem os melhores
resultados.
Os ensaios não convencionais sempre são mais caros,
porém se fazem necessários pela necessidade de outra
informação adicional, ou para redução
de prazos de inspeção, avalia o engenheiro Carlos
Waldemar Wilke Diehl, da área de Engenharia de Manutenção
e Avaliação da Copesul.
Mesmo tendo aplicado uma série de ensaios não convencionais,
os ensaios convencionais são amplamente utilizados na Copesul.
O ensaio por líquidos penetrantes é o mais utilizado
a Refinaria de Paulínia no dia-a-dia. Já nas paradas
de manutenção, o ensaio de partículas magnéticas
é o mais utilizado. A técnica de ultra-som é
muito utilizada para medição de espessura de equipamentos
e tubulações, sendo que o ultra-som convencional é
pouco utilizado, mas seu uso tem crescido, principalmente como substituto
eventual de radiografias de controle de qualidade de soldas, em face
da dificuldade de execução de ensaios radiográficos
devido a quesitos de segurança, explica o engenheiro
Ismar Simões dos Santos, da Área de Manutenção
Industrial da Refinaria de Paulínia Replan.
A técnica de radiografia convencional, por exemplo, permite
análise de defeitos internos em soldas ou avaliação
de espessura em tubulações e equipamentos, com uso de
fonte de Raio-X ou Raio-Gama e um filme. É muito utilizado
pelas unidades industriais como controle de qualidade de soldagem.
Mas é dentro da filosofia de aplicar planos de inspeção
diferenciados para cada equipamento que a Replan também emprega
ensaios não convencionais. O Internal Rotatory Inspection System
IRIS, a mais nova das técnicas não convencionais,
tem sido utilizado em tubos de trocadores de calor e caldeiras, com
resultados satisfatórios. Esse tipo de ensaio depende fundamentalmente
da limpeza da superfície a ser inspecionada uma vez
que óxidos e carepas interferem com os resultados, sendo este
um de seus limitantes.
O ensaio IRIS foi introduzido na Petrobras há pouco mais de
dez anos. É empregada a técnica convencional de pulso-eco
por imersão, para medição de espessura, com utilização
de recursos eletrônicos para apresentação dos
resultados das medições.
Um transdutor é conectado ao dispositivo centralizador colocado
dentro do tubo a ser testado. Os pulsos ultra-sônicos são
emitidos pelo transdutor na direção do eixo do tubo,
e refletidos por um espelho a 45º , de forma a ser direcionados
radialmente à parede do tubo. As reflexões das paredes
interna e externa do tubo seguem o mesmo caminho de retorno para o
transdutor o intervalo de tempo entre o primeiro eco (parede
interna) e o segundo eco (parede externa) dá a medida da espessura
da parede do tubo, evidenciando-se a espessura mínima e os
defeitos encontrados interna ou externamente.
Uma restrição ao ensaio IRIS é a não detecção
de trincas além disso pode não detectar defeitos
com diâmetro menor ou igual a 1,5 mm. A aplicação
do ensaio é limitada para tubos com diâmetro entre 9
e 100 mm.
O ensaio de Eddy Currents que consiste na introdução
de uma corrente elétrica no material a inspecionar e observação
da interação ocorrida tem sido utilizada em tubos
de trocadores de calor. Mas esta técnica só apresenta
resultados satisfatórios em materiais não magnéticos,
como latão e inox austenítico, não sendo indicada
para materiais ferromagnéticos, ressalta o engenheiro
da Replan.
Já a técnica de réplicas metalográficas
que permite avaliar a microestrutura de materiais metálicos,
detecção de trincas e áreas de tensões
e deformações é utilizada pelos engenheiros
da Replan para avaliação metalúgica de materiais
e equipamentos principalmente na avaliação de
integridade de equipamentos e recebimento de materiais austeníticos
forjados (risco de sensitização). Houve redução
na utilização de réplicas após a aquisição
de microscópio de campo, pois nesse caso a réplica é
utilizada apenas como registro, sendo o laudo feito com o microscópio,
explica Ismar.
Na refinaria, a termografia industrial é empregada em larga
escala para inspeção de serpentina de fornos de aquecimento
e craqueamento térmico, sendo também utilizada na avaliação
de revestimentos isolantes e refratários internos de dutos
gases quentes e chaminés.
A técnica de termografia consiste da visualização
da imagem térmica total do equipamento, fornecendo os gradientes
de temperatura que o equipamento está sujeito permitindo
verificar aquecimentos/esfriamentos localizados ou perda de isolamento
térmico em equipamentos, tubulações ou componentes
elétricos.
Ultimamente estamos utilizando a radiografia digital na inspeção
de tubulação de pequenos diâmetros, menor que
2", com excelentes resultados e alta produtividade de imagens,
na detecção de corrosão interna e até
erros de montagem quanto a utilização de espessuras
de tubos diferentes da especificada em projeto, comenta o engenheiro
da Replan.
Essa técnica de radiografia digital é um ensaio relativamente
novo, ainda não normalizado. Consiste da utilização
de uma fonte radiotiva comum ou raio-X com baixa potência. Após
exposição e sensibilização, a imagem é
digitalizada, obtendo-se grande produtividade de imagens, aliado ao
pequeno isolamento de área necessário para a execução
do ensaio. A imagem digitalizada pode ser trabalhada para obter-se
dimensões e espessuras remanescentes. Tem larga aplicação
de identificação de corrosão sob isolamento.
A técnica de Emissão Acústica tem sido utilizada
pela Manutenção Industrial da Refinaria de Paulínia
para a inspeção de fundos de tanques de armazenamento
e em reatores que operam a pressões elevadas. Nestes
últimos, está técnica nos ajuda a priorizar áreas
de inspeção com técnicas convencionais quando
da liberação total do equipamento para inspeção,
conta Ismar.
Além dessas técnicas não convencionais - utilizadas
pela Copesul com excelentes resultados, conforme a aplicabilidade
de cada um a central de matérias-primas do pólo
petroquímico de Triunfo já empregou os ensaios de Corrente
de Foucault, Alternate Current Field Measurement - ACFM, Teletest
e Analisador de ligas portátil.
Preparo
Parte do sucesso de qualquer ensaio não-destrutivo, no entanto,
está ligada diretamente ao preparo do equipamento. O procedimento
de liberação de equipamentos mais utilizado ainda é
a drenagem, purga com vapor dagua, lavagem com água e
aeração. Mas para equipamentos mais críticos,
a técnica mais moderna é a limpeza química. A
limpeza química, além de efetiva na maioria dos casos,
é uma tecnologia limpa, não agride o meio ambiente e
não prejudica a saúde das pessoas, comenta o engenheiro
Diehl, da Copesul.
Também a Replan vem empregando a lavagem química para
a limpeza e liberação de equipamentos mais críticos.
A lavagem química comparada ao procedimento atual apresenta
as vantagem da rapidez da liberação, geração
de menos efluentes e menor agressão ao meio ambiente com melhor
qualidade da limpeza, propiciando melhores condições
internas nos equipamentos para a execução de atividades
humanas, conta Ismar.
A grande desvantagem da lavagem química ainda é o seu
alto custo um serviço executado por poucas empresas
especializadas.
A manutenção inteligente
de instrumentos
O desenvolvimento dos chamados instrumentos inteligentes vem permitindo
o auto-monitoramento da performance do instrumento, e a substituição
da manutenção preventiva por diagnosticos preditivos.
A cada ano os fornecedores de instrumentação
desenvolvem equipamentos para diagnóstico não intrusivo
em instrumentos. Isto permite a avaliação on-line
e reduz custos e riscos de operação temporária
sem o instrumento para manutenção preventiva. A tendência
é a substituição da manutenção
preventiva de instrumentos por manutenção por diagnose
em operação, observa Diehl.
Na Replan, que possui cerca de 4600 instrumentos do tipo transmissores
para vazão, pressão, nível, temperatura
e outras variáveis de processo 85% são transmissores
inteligentes com comunicação digital no protocolo
Hart, permitindo intervenções remotas para calibração
e diagnósticos. Temos cerca de 1300 válvulas
de controle, dessas cerca de 300 válvulas têm posicionador
inteligente, com comunicação Hart que nos permite
diagnósticos preditivos da condição de operação
dessas válvulas, levantamento das curvas iniciais de movimentação
(assinatura da válvula), comparação entre a
condição de nova e a condição
atual de operação, deteção de vazamento
de ar de comando e outras funções, conta o engenheiro
Ismar.
Em uma unidade de destilação da Replan foram instalados
61 transmissores de temperatura com capacidade para 8 entradas cada
e utilizando a tecnologia Fieldbus Foundation para comunicação
digital entre o instrumento e o sistema de controle (SDCD), eliminando
os sinais de 4~20 mA e eliminando 23 multicabos que existiam para
a interligação desses sinais. Esses transmissores
possuem auto-diagnóstico de falha de sensores e de sua própria
eletrônica. Temos instalados 20 atuadores modelo Valvguard
para válvulas tipo XV (válvulas de bloqueio). Esses
atuadores permitem testes periódicos nesse tipo de válvula
utilizando a técnica de movimentação
parcial (partial stroke test) das válvulas
para detetar possíveis emperramentos e mau-funcionamento
da eletrônica e sistema pneumático. A Replan
é a primeira refinaria da Petrobras a utilizar esse tipo
de instrumento.
Para gestão dos ativos de instrumentação, a
refinaria utiliza o programa AMS (da Emerson Process Management),
integrado à instrumentação inteligente, registrando
todos os alarmes de manutenção preditiva e todas as
intervenções e modificações nos instrumentos.
Para equipamentos estáticos (torres, vasos, permutadores,
tanques e tubulações), os engenheiros da Replan realizam
inspeção interna e externa de acordo com o histórico
e atendendo os prazos máximos da NR-13. Fazemos medição
de espessura a quente nas tubulações e equipamentos
e termografia para fazer as recomendações prévias
antes da parada dos equipamentos, ressalta o engenheiro da
refinaria.
Para os equipamentos dinâmicos (bombas, turbinas, compressores),
quase toda a manutenção é preditiva
por acompanhamento de vibração, temperaturas e análise
dos óleos de lubrificação. Os equipamentos
elétricos recebem manutenção preditiva (termografia)
e manutenção preventiva, e a instrumentação
recebe manutenção preventiva para instrumentos críticos.
Todos os equipamenentos da Replan têm um plano de manutenção.
E estas manutenções são monitoradas através
de programas informatizados. Hoje cada especialidade tem o seu próprio
programa para monitoração e controle da manutenção.
A partir de julho de 2004 serão gerenciados por um único
sistema, o SAP/R3, finaliza Ismar.
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| A inspeção baseada no risco
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Foi para tentar organizar os planos de inspeção
segundo uma lógica baseada no conceito de risco de cada equipamento
que o American Petroleum Institute publicou no ano 2000 o RBI-BRD
API 581 uma metodologia para a realização do
planejamento de inspeção com base nos conceitos da Risk
Based Inspection RBI, emitida após sete anos de trabalhos
do Committee of Refinery Equipment da entidade.
Até então, não havia uma maneira sistemática
para fazer os planos de inspeção. O RBI procurou mudar
isso, explica o gerente da DNV, Luiz Fernando Oliveira.
A partir dessa metodologia, os planos de inspeção passaram
a ser realizados com base na criticalidade de cada equipamento
otimizando a distribuição dos recursos. Isso significa
não só uma maior atenção aos equipamentos
mais críticos, como também a redução no
número de inspeções desnecessárias. O
RBI ordena os equipamentos pelo nível de risco. E a partir
dessa ordenação, a empresa vai alocar recursos adequados
de acordo com o risco que cada equipamento representa, comenta
Luiz Fernando.
Se você não tiver critério nenhum, pode
estar analisando um vaso de pressão contendo água com
os mesmos critérios que analisa um vaso que contenha um produto
tóxico. A inspeção baseada em risco visa otimizar
esses recursos, completa o gerente de Risco e Confiabilidade
da ABS Consulting, Ricardo Bichmacher.
Obviamente para chegar aqui, será preciso avaliar qual é
o risco de cada equipamento estático e então
hierarquizar os equipamentos segundo a criticalidade de cada um. Quem
considera todos os equipamentos num nível de alto risco, não
considera nada alto risco. Porque não pode dar um tratamento
privilegiado para nada quando considera tudo importante. Esse é
o conceito que o RBI vem trazer: separar, de maneira técnica,
o que é importante ou urgente, explica o diretor-adjunto
da área de Química e Petroquímica do Bureau Veritas,
Eduardo Prestes.
E o embasamento técnico para a hierarquização
dos equipamentos estáticos mais críticos é a
Inspeção Baseada em Risco. Essa metodologia foi
desenvolvida para a industria de refino de petróleo e petroquímica,
para otimizar a sua inspeção, concentrando nos equipamentos
de maior criticalidade, de modo a aumentar a sua confiabilidade e
a disponibilidade da planta, completa Prestes.
Por falar em disponibilidade, essa vem sendo uma das palavras-chaves
para a indústria petroquímica. Imagine o que significa
uma parada não programada em uma empresa que trabalha com uma
margem de contribuição líquida de 4% nada
muito distante dos resultados apresentados pelas petroquímicas
até o ano passado. 15 dias de planta parada seria suficiente
para zerar o lucro operacional de um ano inteiro.
Isso sem considerar outros impactos ambientais e a segurança
dos funcionários.
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| Exemplo de um plano de inspeção
dos equipamentos de uma unidade...
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Como implementar um RBI?
O primeiro passo pra implantar uma Inspeção Baseada
em Risco é identificar os modos de falha e de corrosão
a que a planta está sujeita em função
do que ali é produzido e das matérias-primas utilizadas.
A partir desses dados, são identificados os equipamentos e
tubulações que estão submetidos a esses modos
de falhas e corrosão nessa fase, já aparece uma
priorização básica dos equipamentos.
Os dados de projeto, do processo e histórico de inspeções
são inseridos em uma matriz de criticalidade, que irá
classificar o risco de cada equipamento ou tubulação.
O próximo passo é a mitigação dos
riscos desses equipamentos, pela otimização da estratégia
de inspeção. Com o uso do software posso variar qualitativamente
e quantitativamente o programa de inspeção para cada
equipamento, comenta Eduardo Prestes.
O diretor do Bureau Veritas cita como exemplo o caso da planta de
eteno da Dow na França, comparando o plano de inspeção
existente com o plano de inspeção baseada em risco:
pelo padrão da empresa, 92% das 1958 tubulações
eram consideradas no nível mais alto de risco. Após
a aplicação do RBI, 197 tubulações foram
classificadas como alto risco.
Esta relação de 9/1 evidencia uma diferença
nos custos e nos esforços de inspeção dispendidos
nos dois casos. A empresa estava aplicando a 92% das tubulações
um esforço desnecessário de inspeção e
manutenção. E possivelmente quando não fazia
a descriminação daqueles 10%, estava aumentando o risco
da unidade.
Um levantamento realizado na Inglaterra mostra que 50% das perdas
têm como causa falha mecânica o que está
diretamente associado a inspeção e manutenção.
Desse universo, pelo menos um terço ocorre nos sistemas de
tubulação outros 15% das falhas ocorrem nos tanques
e 10% nos reatores. No Brasil, o risco percebido
está ligado a reatores. E qual a importância que se dá
à área de tancagem? E, sem dúvida nenhuma, a
área de pipeline é a mais importante, pontua Eduardo
Prestes.
Ao lado da RBI, encontra-se a Manutenção Centrada em
Confiabilidade MCC que é aplicada em planejamento
de manutenção para os equipamentos rotativos. O
objetivo é o mesmo: determinar quais os equipamentos mais importantes
não só do risco para pessoas, mas também
para danos ambientais e econômicos e determinar, para
cada equipamento, o plano de manutenção preventiva,
explica Luiz Fernando. (Flávio Bosco)
|
| ... e o planejamento otimizado segundo os
critérios do RBI
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Edição Impressa 254
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|
NA EDIÇÃO IMPRESSA
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