INFORME ESPECIAL – Edição 254 - Novembro de 2003
Petroquímica terá que se preparar para Alca 
Cerimônia de abertura da 23ª Reunião da Apla

A indústria petroquímica brasileira – e também a latino-americana – terá que se consolidar competitivamente para não perder mercado com a implementação da Alca. Esse foi o foco da 23ª Reunião Anual da Associação Petroquímica e Química Latino-Americana – Apla, que reuniu 523 executivos no Rio de Janeiro.

“As discussões sobre a Alca ainda estão sendo tratadas num nível mais político. O que estamos fazendo é, em paralelo, discutir quais os cuidados que devemos ter para que a produção petroquímica brasileira seja competitiva o suficiente para concorrer com o produtos importados”, conta Roberto Garcia, presidente da 23ª Reunião da Apla.

A preocupação é não deixar acontecer com a indústria petroquímica brasileira o que aconteceu com o México, que, por não ter feito a lição de casa, viu o déficit do setor químico aumentar sensivelmente. O ex-presidente da Associação Nacional da Indústria Química do México, Arturo García, mostrou que, após o Acordo de Livre Comércio da América do Norte – Nafta, o déficit cresceu de US$ 1,905 bilhão em 1994 para US$ 4,721 bilhões no ano passado.

Plenária “Alca – oportunidade ou ameaça para a indústria petroquímica latino-americana”

“Não foi o Acordo de Livre Comércio que nos levou a essa situação. O que causou essa situação foi não ter feito, internamente, as mudanças institucionais”, ressalta Arturo Garcia.

Apesar de benéfico para o México, após a criação do Nafta, o aumento das exportações mexicanas do setor petroquímico não foi tão significativo: de US$ 1,256 bilhão em 1994 para US$ 1,738 bilhão em 2002. Já as importações saltaram de US$ 3,161 bilhões para US$ 6,459 bilhões no mesmo período.

“O acordo de livre comércio foi bom para o México, porque alavancou a economia e as exportações. Mas foi prejudicial ao setor petroquímico porque houve uma reversão dos processos. Temos que ter esse cuidado”, alerta Roberto Garcia.

Competitividade

A indústria petroquímica brasileira, a maior da América Latina, deverá faturar mais de US$ 40 bilhões este ano. Ganha de longe da segunda maior, a mexicana – que no ano passado faturou cerca de US$ 13 bilhões – mas ocupa a 11ª posição no ranking internacional, e está muito distante da indústria petroquímica norte-americana, que fatura mais de US$ 450 bilhões.

Mas esse não é o único ponto. Enquanto a indústria petroquímica americana foi criada visando o mercado externo, a petroquímica brasileira sempre esteve voltada ao abastecimento interno – e que não suportava uma planta de escala mundial. Isso sem contar no acesso e nos custos de financiamentos. “Temos que procurar uma base competitiva da produção. Não dá para imaginar no Brasil custos superiores aos praticados no Texas, por exemplo”, comenta Roberto Garcia.

Segundo o presidente do Grupo Unipar, a atual estrutura do negócio petroquímico – fragmentada em primeira e segunda geração é uma das causas que pesam contra a competitividade dos produtos brasileiros.

Riscos e oportunidades

Para o embaixador Marco Azambuja, a Alca representa, ao mesmo tempo, a promessa da dimensão e acesso aos mercados norte-americano e canadense, e o risco de competir com “um cachorro muito grande”. “Os riscos são proporcionais às oportunidades”, comentou o embaixador, durante a seção plenária “Alca – oportunidade ou ameaça para a indústria petroquímica latino-americana”.

“Os acordos comerciais representam ganhos e perdas que se equilibram. O que o Brasil procura é acesso aos mercados, sobretudo ao mercado agrícola. Tem uma contraparte, porque os EUA querem mais acesso a serviços e compras governamentais. Portanto é uma conta de chegar – e creio que o Brasil deve negociar isso com firmeza”, avalia o embaixador.

Plenária “A economia latino-americana e interações mútuas”

A vantagem para a Argentina seria que todos os capítulos do tratado entrassem simultaneamente – evitando restrições principalmente ao mercado agrícola. “À Argentina daria crescimento ao comercio à medida que esse comercio se abrir simultaneamente e instantaneamente. Qualquer outra hipótese começa a ser discutível”, avalia o economista argentino Alejandro Mayoral.

O economista pontua ainda a diferença tarifária entre o Mercosul e os EUA. Enquanto os produtos entram no Mercosul com uma tarifa média de 12% a 13%, nos EUA as tarifas giram entre 3% e 4%. Nesse caso, a redução tarifária não seria compensadora para a Argentina. “O mercado que a Argentina tem a ganhar com os EUA não é equivalente ao que pode perder no Brasil”.

Para Gilberto Dupas, a Alca é mais arriscada para o Brasil do que para outros países. “Para os pequenos paises, pequenos acordos de cota de açúcar e banana re-equilibrariam suas balanças comerciais sem nenhum impacto no mercado americano. Não é o caso do Brasil, que é um grande produtor de laranja, siderurgia, aviões e café”, apontou o economista, durante a plenária “A economia latino-americana e interações mútuas, perspectivas e influência no desenvolvimento da região”.

O economista mexicano Guilermo Güemez Garcia ressaltou que a aproximação dos EUA foi benéfica para o México. “O problema não foi o Nafta. O problema foi que seguimos fazendo as coisas da mesma forma, enquanto o mundo inteiro mudou”.

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