MATÉRIA DE CAPA – Edição 255 - Dezembro de 2003
Petroquímica aposta no crescimento do consumo 

As indústrias petroquímicas apostam no crescimento do consumo – a reboque do crescimento da economia – como recuperação da rentabilidade perdida nos últimos anos. Para o próximo ano, a expectativa é de que o setor cresça entre 6% e 7%, caso se confirme o crescimento do PIB entre 3% e 3,5%.

Os últimos indicadores do setor evidenciam o cenário de recuperação: números preliminares da Abiquim apontam que a indústria química nacional fechará o ano com um faturamento líquido de US$ 42,2 bilhões – valor 15,3% maior do que o apresentado no ano passado, de US$ 36,6 bilhões, apesar de ficar abaixo do faturamento de US$ 46,2 bilhões obtido em 1998.

Mais da metade desse número vem do segmento de produtos químicos de uso industrial, que deverá fechar o ano com um faturamento de US$ 22,5 bilhões – 20,3% maior do que o apresentado em 2002. “O crescimento das exportações influenciou nesse resultado”, ressalta o vice-presidente do Conselho Diretor da Abiquim, José de Freitas Mascarenhas.

Em 2003, o setor voltou suas atenções para as vendas externas, como alternativa para a retração do mercado interno e valendo-se dos efeitos do câmbio sobre a competitividade dos produtos nacionais. O aumento das exportações contribuiu para uma ligeira retração no déficit do setor químico: esse ano, o setor exportou US$ 4,8 milhões e importou US$ 10,6 milhões, totalizando um déficit de US$ 5,8 bilhões – em 2002, o déficit foi de US$ 6,3 bilhões. A maior parte desse déficit ficou por conta dos produtos farmacêuticos e defensivos agrícolas.

Dados do Siresp apontam que as exportações de resinas termoplásticas cresceram 93,2% no terceiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. A produção de resinas termoplásticas em 2003 será superior a 4,1 milhões de toneladas – um crescimento de 5% em relação a 2002. No entanto, as vendas ao mercado interno deverão declinar 4,5% no ano, informou o presidente da entidade, José Ricardo Roriz Coelho.

A retomada da atividade econômica nos últimos meses do ano, no entanto, é um indicador do reaquecimento do mercado interno. “A reação foi motivada pela recuperação da massa salarial e do emprego”, pontua José Ricardo.

“O ano termina com boas perspectivas. Os transformadores estão investindo em novas máquinas, o que indica crescimento do mercado”, afirma Cleantho de Paiva, diretor da Braskem.

Mas não é só isso: a petroquímica mundial se prepara para entrar num ciclo de alta, que deverá ter seu pico entre 2005 e 2007. “Com a recuperação da economia, o setor petroquímico deverá registrar os melhores resultados dos últimos 25 anos”, avalia o vice-presidente da consultoria Nexant, Robert Bauman.

Já em 2004, a rentabilidade deverá ser impulsionada pelo aumento das cotações das commodities, em função do reaquecimento da economia mundial. Pela previsão do consultor, em 2005 os preços das resinas podem chegar ao pico de US$ 1.200 / tonelada, média atingida no último pico – de 1994/1995. E a taxa de ocupação das plantas ficará em torno dos 90%.

A petroquímica mundial viveu um período de vacas magras nos últimos anos devido principalmente à recessão da economia americana e aos problemas com os preços da matéria-prima. No Brasil, por quatro anos seguidos a economia não cresceu o suficiente para aumentar significativamente o consumo per capita.

Outro problema enfrentado pelas petroquímicas nacionais foi o endividamento – que prejudicou os investimentos em aumento da capacidade. A Braskem, por exemplo, se prepara para investir no período 2005-2010. “Num primeiro momento buscamos a consolidação do setor. Num segundo momento, o foco será a exportação”, disse o presidente da empresa, José Carlos Grubisich.

Na opinião de Bauman, o Brasil está bem posicionado: o país tem unidades industriais de escala mundial, altamente competitivos. E o baixo consumo per capita (22,5 kg por pessoa) registrado no país dá margem para crescimentos. “Se o PIB cresce a 3%, o crescimento potencial é de 9% a 10% no setor petroquímico. Portanto essa combinação deve garantir que há uma demanda muito grande para produtos petroquímicos no Brasil”.

Por outro lado, é pouco provável uma queda nos custos da matéria-prima. Os preços da tonelada da nafta, que custam dez vezes o preço do barril de petróleo, podem não cair a US$ 230 – como aposta o Siresp. Em 2003, a média de preços da tonelada da nafta foi de US$ 284 – com picos de US$ 300 no final do ano e durante a Guerra do Iraque.

Já o câmbio pode jogar contra quando o assunto é preço da nafta, mas pode contribuir para a competitividade das resinas no mercado internacional.

Desafios

O futuro da indústria química brasileira foi debatido durante o 8º Encontro Anual da Indústria Química. Os 400 executivos participantes analisaram o desempenho da indústria química em 2003 e as expectativas para 2004 – abordando desde a questão das matérias-primas até os desafios trazidos pela Alca.

“Uma questão que é pouco discutida diz respeito a disponibilidade da nafta. Existem previsões de que, por volta de 2010, vai haver falta de nafta ou de uma matéria-prima equivalente. E que para isso necessitaria de investimentos em refino – esses investimentos não podem esperar até 2009”, disse a presidente da Booz Allen Hamilton, Letícia Costa.

Além do problema de disponibilidade, existe a questão de precificação – mais exatamente a fórmula pela qual a Petrobras estabelece preços. “A indústria não quer subsídio, quer uma precificação como é feita internacionalmente. Mas a Petrobras tem como prática usar o preço internacional lended, independente se o insumo é importado ou de produção doméstica, o que traz desvantagens para o Brasil, porque quem está na Europa não paga esse lended”, avalia Letícia.
Uma terceira questão, na opinião da executiva, é a volatilidade – esse ano menos percebida, devido a estabilidade da moeda. “Mas se formos lembrar o que aconteceu com o dólar no ano passado, era difícil saber qual o preço que iríamos pagar pela nafta do mês seguinte”.

Para José de Freitas Mascarenhas, o governo deve ser o fator de equilíbrio nessa questão. “O governo tem que olhar o que serve mais ao país – continuar com esse grau de antagonismo, ou procurar com que os atores que estão nesse processo se unam em um propósito único, que é aumentar o desempenho da indústria dentro do país e seu esforço exportador”.

A Reforma Tributária – e sua influência sobre a competitividade do setor químico – também teve espaço nas discussões. Na opinião do presidente do Conselho Diretor da Abiquim, Carlos Mariani, o grande gargalo é encontrar o ponto de equilíbrio entre a posição defendida pelo empresariado e a posição defendida pelos governos. “Todos os impostos e contribuições sobre bens e serviços, somados, são da ordem de 34% a 36%. Se um dia tivermos um IVA, o imposto teria esse valor, para manter o atual nível de arrecadação”.

Para a presidente da Booz Allen, além das discussões a respeito da federalização do ICMS e da desoneração dos impostos em cascata, existem dois outros pontos que são fundamentais para que essa Reforma de fato, tenha impactos econômicos: a questão da necessidade de arrecadação e a informalidade da economia. “Por mais que se mexa na estrutura tributária, se a necessidade total da arrecadação permanece o que é hoje, de forma diferente será cobrado o mesmo de imposto que está sendo cobrando”.

Segundo Letícia, a carga tributária do Brasil não está muito fora de padrões internacionais. “O problema é que o grau de informalidade da economia é muito elevado. Significa que a carga tributária daqueles que pagam começa a ser desproporcional”.

Outro painel realizado durante o 8º Encontro Anual discutiu os desafios da indústria química. Segundo o coordenador da Comissão Executiva do Programa Atuação Responsável, Antonio Rollo, um dos desafios da indústria química mundial para os próximos anos será fabricar seus produtos sem causar impactos à saúde humana e ao meio ambiente. “Com base nesses desafios, a Abiquim está revisando o seu programa de Atuação Responsável. O foco vai continuar sendo Saúde, Meio Ambiente e Segurança, mas não vamos esquecer de agregar outros conceitos de Responsabilidade Social, de Qualidade, e de Defesa Corporativa. E vamos introduzir novos indicadores de performance para monitorar a melhoria continua da indústria química brasileira”.

E a Alca, mais do que uma ameaça, pode significar novas oportunidades para a indústria química brasileira. “A Alca pode prejudicar muito a indústria química brasileira porque sempre se olha a Alca apenas como uma negociação entre Brasil e EUA. Mas alguns dos países das Américas são muito importantes para o Brasil, em termos de exportações. Portanto não representam ameaça, e sim oportunidades, porque vamos ter condições de exportar em melhores condições”, disse o vice-presidente executivo da Abiquim, Guilherme Duque Estrada.

Segundo Guilherme, os EUA representam uma ameaça porque possuem tarifas de importação mais baixas do que as praticadas no Brasil. “Se reduzirmos as tarifas aqui, vamos ficar mais vulneráveis”.
Mas o executivo aponta oportunidades – até mesmo nos EUA, que são grandes importadores de produtos químicos. Em 2002, o país apresentou um déficit de US$ 5 bilhões na balança de produtos químicos, importando US$ 86 bilhões. Dessa demanda, o Brasil atende apenas 0,17%.

“Mais de 50% vem da União Européia. Mas sobram as importações do Canadá, México (que fazem parte do Nafta), e cerca de 30% de outras partes do mundo. 30% de US$ 86 bilhões é uma soma apreciável, da ordem de US$ 25 bilhões. Não é possível que não haja um espaço para produtos químicos brasileiros nesse mercado tão grande”.

Outro enfoque seria, na opinião de Guilherme, negociar sobre as cadeias – e não sobre os produtos. “Pode ser que não haja espaço para exportarmos o produto químico, mas pode ser que haja espaço para exportar o produto transformado acabado – quem sabe o plástico do Export Plastic. Até o automóvel, quando é exportado, está carregando produto químico”.

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