MATÉRIA DE CAPA – Edição 256 - Janeiro de 2004
A "prova dos nove" do segmento de válvulas 
Levantamento realizado pela Petrobras aponta capacidades e deficiências dos fáabricantes nacionais de válvulas, e indica pontos a serem aprimorados.

OPrograma de Garantia da Qualidade de Materiais e Serviços Associados, realizado pela Petrobras, tornou-se o mais completo mapeamento do setor de válvulas industriais realizado no país, sob a ótica de um usuário. Iniciado há pouco mais de um ano, o Programa vem avaliando as indústrias fabricantes dos materiais mais críticos aos processos da companhia – no qual fazem parte os fabricantes de válvulas industriais.

Os 23 maiores fabricantes de válvulas industriais do país foram avaliados em seis quesitos: sistema de gestão da qualidade, tecnologia de processo fabril, tecnologia de projeto, insumos, capacitação fabril e logística.

“A avaliação foi feita com base em requisitos de produtos e processos específicos da Petrobras”, ressalta o coordenador do Programa de Garantia da Qualidade de Materiais e Serviços Associados, Fabiano Gonçalves Martins.

Consolidada a fotografia do setor, a Petrobras enviou, para cada fabricante, uma lista de necessidades de melhoria – que os fornecedores devem se adequar para elevarem o seu patamar de qualidade, e conseqüentemente sua Classificação Técnica permitindo também, comparar sua posição individual em relação à média do seu mercado.

A partir desse levantamento, a Petrobras vem recebendo das empresas planos de ações corretivas, que serão acompanhados pelo Programa. “Na primeira fase, durante o ano de 2003, foi realizado o mapeamento do mercado nacional. A partir daí o Programa se desenvolve, em conjunto entre os fabricantes e a Petrobras, para aproximar o patamar de qualidade dos fabricantes nacionais aos benchmark internacionais", conta o coordenador.

Em paralelo, a Petrobras fará, este ano, a qualificação dos fabricantes estrangeiros – que atendam os tipos específicos de válvulas ainda não fabricadas pelo mercado nacional.

Gargalos

A Petrobras não divulga a nota média dada às empresas. Mas o Programa confirma a capacidade dos fabricantes nacionais, “tanto que a Petrobras continua considerando o mercado interno como seu parceiro nos investimentos em andamento”, pontua Fabiano.

Mesmo assim, alguns gargalos ainda precisam ser melhor equalizados para elevar a competitividade das válvulas nacionais. Dois deles são estruturais – e perpassam os muros das fábricas de válvulas: a confiabilidade das matérias-primas e a qualificação do pessoal.

“No primeiro caso, o problema passa pela correta especificação e adequado recebimento dos insumos, principalmente os fundidos”, comenta Fabiano.

Há casos mais críticos em que, de cada três corpos recebidos, dois não passam em um ensaio não-destrutivo. Essa fragilidade das fundições vem sendo contornada com a montagem de laboratórios para inspeção dos materiais recebidos – algumas fabricantes vêm instalando ou adquirindo suas próprias fundições, integrando toda a produção ou montando laboratórios para melhor inspeção dos insumos recebidos.

Uma das vantagens apontadas por quem já integrou a fundição com a usinagem é o ganho em escala, a confiabilidade das matérias-primas e a redução do tempo de construção de uma válvula.

“Caso não tivesse fundição própria, para fabricar uma válvula a Nadvic teria um prazo mínimo de trinta dias para o recebimento dos fundidos. Com a fundição própria esse prazo não ultrapassará cinco dias”, relata Eduardo Rosa, gerente comercial da Nadvic, fabricante que está montando sua unidade industrial em Simões Filho / BA.

Um recurso, para quem não possui a própria fundição, é manter um estoque de peças, além de uma estrutura de inspeção – para manter os prazos de entrega e a qualidade do produto final.

“Para resolver essa questão, ou a empresa melhora o recebimento dos materiais fundidos ou avalia a utilização dos materiais forjados, que dão maior confiabilidade”, sugere o gerente da Petrobras.

O outro gargalo diz respeito à necessidade de pessoal certificado: após uma década de estagnação no mercado, as empresas não conseguem encontrar, por exemplo, inspetores de soldagem ou de ensaios não-destrutivos que atendam à sua demanda. “Nos dois casos, as ações corretivas extrapolam as atribuições desse mercado”, avalia Fabiano.

Mas há um ponto, que não diz respeito a deficiências do processo fabril, mas que precisa ser resolvido pelos próprios fabricantes: a cessão de tecnologia para alguns tipos específicos de válvulas que não são produzidos no país.

Fabiano cita como exemplo as válvulas para aplicação nos processos de gás natural – equipamentos mais críticos para segurança operacional, principalmente por exigir vedações especiais.

Outro desafio tecnológico é a validação dos projetos – desde a engenharia até os testes de protótipos, passando pela análise estrutural e de folgas e tolerâncias através de software específico.

O presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais da Abimaq, Walter Luiz Lapietra, lembra que os fabricantes nacionais já foram bem sucedidos quando defrontados com outros desafios tecnológicos, como as válvulas anti-cavitação e materiais para vedação de válvulas que operam com álcool combustível. “O álcool ataca a borracha de vedação, então tivemos que desenvolver tecnologia”.

Lapietra também cita como desafio as válvulas offshore – que serão instaladas em lâminas d’água de até três mil metros. “O material que a válvula será construída não é o maior problema, porque as pressões interna e externa, de certa forma, acabam se compensando. Mas a operação tem que ser de alta confiabilidade, porque a válvula não pode falhar”.

Demanda e oferta

A demanda por equipamentos e serviços para o setor de petróleo e gás e a capacidade de oferta da indústria nacional deverão estar mapeada até abril. Nesta primeira fase do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural – Prominp, serão detalhadas demandas por máquinas e equipamentos no setor e a capacitação da indústria nacional para atender aos pedidos.

O Programa – gerenciado pelo Ministério de Minas e Energia, em participação com a Petrobras, BNDES, IBP e entidades do setor – não se resumirá apenas a determinar o gap entre a demanda e a oferta: com uma fotografia mais clara da situação, a proposta é promover uma série de ações para que a indústria possa, competitivamente e
de forma sustentável, se capacitar para atender a demanda.

Levando em conta só os projetos já anunciados pela Petrobras, a demanda deverá girar em torno de 200 mil válvulas até 2007. “Os dados ainda estão sendo consolidados no Prominp. Mas já dá para falar que as fabricantes de válvulas terão uma demanda extremamente interessante”, comenta o gerente da Petrobras.

Para não perder a oportunidade, várias fabricantes já estão investindo em aumento da capacidade e atualização tecnológica. “A industria está fazendo um grande esforço para responder a esse aumento da demanda, investindo em novas máquinas e aumento da área das unidades industriais”, conta o presidente da Câmara Setorial.

Hoje o setor de petróleo já responde por 60% da demanda dos fabricantes – principalmente de quem produz válvulas esfera, gaveta, globo e retenção, e, numa escala menor, as válvulas borboleta e macho.

Falar em estatísticas entre os fabricantes, no entanto, ainda é um tabu. Por questões de confidencialidade, as empresas relutam em divulgar capacidade instalada e faturamento. Mas Lapietra garante que a ocupação média da capacidade instalada passa dos 70%. “A maioria das empresas está trabalhando com um turno só, com 70% a 80% da capacidade. Mas podemos aumentar a capacidade instalada tendo um crescimento sustentável, com ações e uma visão clara do Governo em relação à política industrial”.

O presidente da Câmara Setorial explica que, para aumentar a capacidade, as fábricas podem comprar novos equipamentos ou até criar novos turnos de trabalho. “Poucas empresas têm trabalho em dois turnos. Acredito que a indústria poderia dobrar a capacidade de produção em curto espaço de tempo”.

Balança comercial

Os dados da Secex, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, apontam que, no ano passado, os fabricantes de válvulas exportaram US$ 155,3 milhões – um crescimento de 42% em relação às exportações registradas em 2002 e quase três vezes o valor exportado em 2001.

É bem verdade que, grande parte desse valor está relacionado a vendas das multinacionais para matrizes no exterior – não significando exatamente ganho de mercado internacional. “Existem muitas exportações spot, ou de empresas que têm alguma ligação com as multinacionais”, pontua o presidente da Câmara Setorial.

De qualquer forma, esse é o quarto melhor resultado registrado no ranking das indústrias de máquinas e equipamentos. O destaque ficou por conta das válvulas gaveta, que responderam por US$ 36,4 milhões dessas exportações.

Em contrapartida, foram importados US$ 278,9 milhões – resultado 3% maior do que os US$ 270,7 milhões importados em 2002. Mais de 40% desse valor se refere a válvulas especiais e peças.

Isso comprova a necessidade de uma reestruturação entre as empresas do setor – que passa por revisão de custos produtivos e aumento da escala. Segundo o estudo “Análise das Perspectivas e Recomendação de Políticas aos Segmentos Industriais Abimaq à Luz da Alca”, encomendado pela Abimaq, o segmento de válvulas industriais está entre o grupo de setores que necessitará se estruturar para encarar a Alca como uma oportunidade – e não como uma ameaça.

O estudo mostra que o setor de válvulas industriais possui níveis de produtividade, lucratividade e participação de mercado muito inferiores aos apresentados pelos fabricantes americanos – o que significa que a concorrência externa pressionará para baixo os preços praticados internamente.

Os custos de produção não são inflados apenas pelos preços do aço – que só no ano passado aumentou 58%, segundo a Abimaq. Aqui também pesa aquele velho problema da carga tributária. “A estrutura tributária prejudica a produção”, comenta o presidente da Ascoval, José Carlos Marcato.

O custo do financiamento também é apontado por Lapietra como impeditivo para os investimentos em modernização e ampliação das fábricas. “Temos os juros mais caros do mundo, que refletem quando você vai pensar num investimento”.

Isso sem falar na escala de produção. Ao contrário de outras indústrias fabricantes de válvulas, que se especializam em um ou dois tipos de produto, as fabricantes nacionais diversificaram a linha para vários produtos. “Aqui no Brasil a especialização não repete até por vícios do próprio comprador, que incentivou as fabricantes a diversificarem suas linhas, tanto em tipos quanto em tamanhos”, conta o presidente da Câmara Setorial.

São justamente esses dois pontos que jogam contra a competitividade das válvulas nacionais quando o assunto é vendas no mercado internacional – estimado em US$ 40 bilhões anuais.

“Com esses custos, não há espaço para as válvulas produzidas no Brasil no mercado internacional. Primeiro porque as fábricas italianas, por exemplo, já possuem uma grande escala produtiva, e já têm uma cultura de exportação, enquanto a nossa cultura foi voltada para substituir as importações. E o custo financeiro que temos em um mês, é o que eles têm em um ano”, finaliza Lapietra.

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