|
OPrograma de Garantia da Qualidade de Materiais e Serviços
Associados, realizado pela Petrobras, tornou-se o mais completo
mapeamento do setor de válvulas industriais realizado no
país, sob a ótica de um usuário. Iniciado há
pouco mais de um ano, o Programa vem avaliando as indústrias
fabricantes dos materiais mais críticos aos processos da
companhia no qual fazem parte os fabricantes de válvulas
industriais.
Os 23 maiores fabricantes de válvulas industriais do país
foram avaliados em seis quesitos: sistema de gestão da qualidade,
tecnologia de processo fabril, tecnologia de projeto, insumos, capacitação
fabril e logística.
A avaliação foi feita com base em requisitos
de produtos e processos específicos da Petrobras, ressalta
o coordenador do Programa de Garantia da Qualidade de Materiais
e Serviços Associados, Fabiano Gonçalves Martins.
Consolidada a fotografia do setor, a Petrobras enviou, para cada
fabricante, uma lista de necessidades de melhoria que os
fornecedores devem se adequar para elevarem o seu patamar de qualidade,
e conseqüentemente sua Classificação Técnica
permitindo também, comparar sua posição individual
em relação à média do seu mercado.
A partir desse levantamento, a Petrobras vem recebendo das empresas
planos de ações corretivas, que serão acompanhados
pelo Programa. Na primeira fase, durante o ano de 2003, foi
realizado o mapeamento do mercado nacional. A partir daí
o Programa se desenvolve, em conjunto entre os fabricantes e a Petrobras,
para aproximar o patamar de qualidade dos fabricantes nacionais
aos benchmark internacionais", conta o coordenador.
Em paralelo, a Petrobras fará, este ano, a qualificação
dos fabricantes estrangeiros que atendam os tipos específicos
de válvulas ainda não fabricadas pelo mercado nacional.
Gargalos
A Petrobras não divulga a nota média dada às
empresas. Mas o Programa confirma a capacidade dos fabricantes nacionais,
tanto que a Petrobras continua considerando o mercado interno
como seu parceiro nos investimentos em andamento, pontua Fabiano.
Mesmo assim, alguns gargalos ainda precisam ser melhor equalizados
para elevar a competitividade das válvulas nacionais. Dois
deles são estruturais e perpassam os muros das fábricas
de válvulas: a confiabilidade das matérias-primas
e a qualificação do pessoal.
No primeiro caso, o problema passa pela correta especificação
e adequado recebimento dos insumos, principalmente os fundidos,
comenta Fabiano.
Há casos mais críticos em que, de cada três
corpos recebidos, dois não passam em um ensaio não-destrutivo.
Essa fragilidade das fundições vem sendo contornada
com a montagem de laboratórios para inspeção
dos materiais recebidos algumas fabricantes vêm instalando
ou adquirindo suas próprias fundições, integrando
toda a produção ou montando laboratórios para
melhor inspeção dos insumos recebidos.
Uma das vantagens apontadas por quem já integrou a fundição
com a usinagem é o ganho em escala, a confiabilidade das
matérias-primas e a redução do tempo de construção
de uma válvula.
Caso não tivesse fundição própria,
para fabricar uma válvula a Nadvic teria um prazo mínimo
de trinta dias para o recebimento dos fundidos. Com a fundição
própria esse prazo não ultrapassará cinco dias,
relata Eduardo Rosa, gerente comercial da Nadvic, fabricante que
está montando sua unidade industrial em Simões Filho
/ BA.
Um recurso, para quem não possui a própria fundição,
é manter um estoque de peças, além de uma estrutura
de inspeção para manter os prazos de entrega
e a qualidade do produto final.
Para resolver essa questão, ou a empresa melhora o
recebimento dos materiais fundidos ou avalia a utilização
dos materiais forjados, que dão maior confiabilidade,
sugere o gerente da Petrobras.
O outro gargalo diz respeito à necessidade de pessoal certificado:
após uma década de estagnação no mercado,
as empresas não conseguem encontrar, por exemplo, inspetores
de soldagem ou de ensaios não-destrutivos que atendam à
sua demanda. Nos dois casos, as ações corretivas
extrapolam as atribuições desse mercado, avalia
Fabiano.
Mas há um ponto, que não diz respeito a deficiências
do processo fabril, mas que precisa ser resolvido pelos próprios
fabricantes: a cessão de tecnologia para alguns tipos específicos
de válvulas que não são produzidos no país.
Fabiano cita como exemplo as válvulas para aplicação
nos processos de gás natural equipamentos mais críticos
para segurança operacional, principalmente por exigir vedações
especiais.
Outro desafio tecnológico é a validação
dos projetos desde a engenharia até os testes de protótipos,
passando pela análise estrutural e de folgas e tolerâncias
através de software específico.
O presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais
da Abimaq, Walter Luiz Lapietra, lembra que os fabricantes nacionais
já foram bem sucedidos quando defrontados com outros desafios
tecnológicos, como as válvulas anti-cavitação
e materiais para vedação de válvulas que operam
com álcool combustível. O álcool ataca
a borracha de vedação, então tivemos que desenvolver
tecnologia.
Lapietra também cita como desafio as válvulas offshore
que serão instaladas em lâminas dágua
de até três mil metros. O material que a válvula
será construída não é o maior problema,
porque as pressões interna e externa, de certa forma, acabam
se compensando. Mas a operação tem que ser de alta
confiabilidade, porque a válvula não pode falhar.
Demanda e oferta
A demanda por equipamentos e serviços para o setor de petróleo
e gás e a capacidade de oferta da indústria nacional
deverão estar mapeada até abril. Nesta primeira fase
do Programa de Mobilização da Indústria Nacional
de Petróleo e Gás Natural Prominp, serão
detalhadas demandas por máquinas e equipamentos no setor
e a capacitação da indústria nacional para
atender aos pedidos.
O Programa gerenciado pelo Ministério de Minas e Energia,
em participação com a Petrobras, BNDES, IBP e entidades
do setor não se resumirá apenas a determinar
o gap entre a demanda e a oferta: com uma fotografia mais clara
da situação, a proposta é promover uma série
de ações para que a indústria possa, competitivamente
e
de forma sustentável, se capacitar para atender a demanda.
Levando em conta só os projetos já anunciados pela
Petrobras, a demanda deverá girar em torno de 200 mil válvulas
até 2007. Os dados ainda estão sendo consolidados
no Prominp. Mas já dá para falar que as fabricantes
de válvulas terão uma demanda extremamente interessante,
comenta o gerente da Petrobras.
Para não perder a oportunidade, várias fabricantes
já estão investindo em aumento da capacidade e atualização
tecnológica. A industria está fazendo um grande
esforço para responder a esse aumento da demanda, investindo
em novas máquinas e aumento da área das unidades industriais,
conta o presidente da Câmara Setorial.
Hoje o setor de petróleo já responde por 60% da demanda
dos fabricantes principalmente de quem produz válvulas
esfera, gaveta, globo e retenção, e, numa escala menor,
as válvulas borboleta e macho.
Falar em estatísticas entre os fabricantes, no entanto, ainda
é um tabu. Por questões de confidencialidade, as empresas
relutam em divulgar capacidade instalada e faturamento. Mas Lapietra
garante que a ocupação média da capacidade
instalada passa dos 70%. A maioria das empresas está
trabalhando com um turno só, com 70% a 80% da capacidade.
Mas podemos aumentar a capacidade instalada tendo um crescimento
sustentável, com ações e uma visão clara
do Governo em relação à política industrial.
O presidente da Câmara Setorial explica que, para aumentar
a capacidade, as fábricas podem comprar novos equipamentos
ou até criar novos turnos de trabalho. Poucas empresas
têm trabalho em dois turnos. Acredito que a indústria
poderia dobrar a capacidade de produção em curto espaço
de tempo.
Balança comercial
Os dados da Secex, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio, apontam que, no ano passado, os fabricantes de
válvulas exportaram US$ 155,3 milhões um crescimento
de 42% em relação às exportações
registradas em 2002 e quase três vezes o valor exportado em
2001.
É bem verdade que, grande parte desse valor está relacionado
a vendas das multinacionais para matrizes no exterior não
significando exatamente ganho de mercado internacional. Existem
muitas exportações spot, ou de empresas que têm
alguma ligação com as multinacionais, pontua
o presidente da Câmara Setorial.
De qualquer forma, esse é o quarto melhor resultado registrado
no ranking das indústrias de máquinas e equipamentos.
O destaque ficou por conta das válvulas gaveta, que responderam
por US$ 36,4 milhões dessas exportações.
Em contrapartida, foram importados US$ 278,9 milhões
resultado 3% maior do que os US$ 270,7 milhões importados
em 2002. Mais de 40% desse valor se refere a válvulas especiais
e peças.
Isso comprova a necessidade de uma reestruturação
entre as empresas do setor que passa por revisão de
custos produtivos e aumento da escala. Segundo o estudo Análise
das Perspectivas e Recomendação de Políticas
aos Segmentos Industriais Abimaq à Luz da Alca, encomendado
pela Abimaq, o segmento de válvulas industriais está
entre o grupo de setores que necessitará se estruturar para
encarar a Alca como uma oportunidade e não como uma
ameaça.
O estudo mostra que o setor de válvulas industriais possui
níveis de produtividade, lucratividade e participação
de mercado muito inferiores aos apresentados pelos fabricantes americanos
o que significa que a concorrência externa pressionará
para baixo os preços praticados internamente.
Os custos de produção não são inflados
apenas pelos preços do aço que só no
ano passado aumentou 58%, segundo a Abimaq. Aqui também pesa
aquele velho problema da carga tributária. A estrutura
tributária prejudica a produção, comenta
o presidente da Ascoval, José Carlos Marcato.
O custo do financiamento também é apontado por Lapietra
como impeditivo para os investimentos em modernização
e ampliação das fábricas. Temos os juros
mais caros do mundo, que refletem quando você vai pensar num
investimento.
Isso sem falar na escala de produção. Ao contrário
de outras indústrias fabricantes de válvulas, que
se especializam em um ou dois tipos de produto, as fabricantes nacionais
diversificaram a linha para vários produtos. Aqui no
Brasil a especialização não repete até
por vícios do próprio comprador, que incentivou as
fabricantes a diversificarem suas linhas, tanto em tipos quanto
em tamanhos, conta o presidente da Câmara Setorial.
São justamente esses dois pontos que jogam contra a competitividade
das válvulas nacionais quando o assunto é vendas no
mercado internacional estimado em US$ 40 bilhões anuais.
Com esses custos, não há espaço para
as válvulas produzidas no Brasil no mercado internacional.
Primeiro porque as fábricas italianas, por exemplo, já
possuem uma grande escala produtiva, e já têm uma cultura
de exportação, enquanto a nossa cultura foi voltada
para substituir as importações. E o custo financeiro
que temos em um mês, é o que eles têm em um ano,
finaliza Lapietra.
|