ESPECIAL BAHIA – Edição 257 - Fevereiro de 2004
Um grande mercado para o gás natural 

ABahiagás vive uma situação, digamos, inusitada – pelo menos quando comparada às distribuidoras de gás da região Sudeste: não consegue atender a uma demanda reprimida de 1 milhão de m³ diários, por falta de produto.

Hoje a empresa distribui cerca de 4 milhões de m³ por dia, de um total de 6,4 milhões de m³ consumidos pelo Estado – os 2 milhões de m³ restantes são consumidos pela própria Petrobras na fábrica de fertilizantes e na produção de petróleo.

Só que os campos baianos não produzem mais que 5,3 milhões de m³ por dia – e o Estado precisa recorrer ao vizinho Sergipe, que complementa a oferta com mais 1,1 milhão de m³. O presidente da Bahiagás, Petronio Vieira lembra que essa limitação não se restringe apenas ao Estado da Bahia, mas a toda região Nordeste – que consome toda a produção de 10,5 milhões de m³ diários.

Petronio explica que o mercado baiano é forte demandador de gás natural devido a seu histórico – que remonta a década de 1960, quando foram inaugurados a Usiba e a Fafen. “O mercado tem uma cultura voltada para o uso do gás natural”.

Pelas contas do executivo, a Bahiagás teria capacidade para distribuir 7,5 milhões de m³. “Distribuindo 4 milhões de m³ / dia, ainda resta uma demanda não atendida de 1 milhão de m³. Existem caldeiras já convertidas para gás natural que estão utilizando óleo combustível por falta do produto”

Não há espaço sequer para disponibilizar gás para as três termelétricas construídas do Estado – haja visto os problemas enfrentados no final do ano passado, quando o gás que era utilizado pela Petrobras foi redirecionado às termelétricas, como complemento à geração de eletricidade na região Nordeste, atingida pela diminuição dos níveis dos reservatórios.

“A região Nordeste importa hoje 30% da energia elétrica. Mais de 20% dessa necessidade está sendo suprida por linhas de transmissão, ou seja, estamos sendo abastecidos por sobras de outros sistemas. Se esse outro sistema consumir toda a energia, ou tiver uma crise, a situação fica complicada”.

Petronio alerta ainda que, qualquer expansão na geração de energia elétrica na região Nordeste deverá ser feita tendo como base a termeletricidade. Isso porque a região não possui mais reservas hidráulicas a serem incorporadas. “Se tivesse alguma reserva, traria um custo ecológico grande, porque as boas barragens já foram feitas”.

Aumento da oferta

A distribuidora aguarda a entrada em produção dos campos descobertos em Camamu e a conexão da malha Nordeste com o Sudeste para aumentar o número de clientes e o volume vendido. “Aqui no Nordeste a infra-estrutura de gasodutos é antiga, não permitindo transportar grandes quantidades”.

O Projeto Malhas resolverá parte do problema, já que o gasoduto que liga a Bahia a Sergipe terá para 26 polegadas – o atual gasoduto, de 18 polegadas, não permite transportar uma quantidade maior do que os 1,1 milhão de m³ diários.

Numa etapa mais à frente, a ligação das malha Nordeste com a malha Sudeste irá permitir importar gás produzido em bacias localizadas em outras regiões. “O Gasene significa cortar o Estado, ainda que pela costa. Vamos ter um citygate no Sul do Estado, que pode atender a industria de papel e celulose, e ainda puxar ramais para Jequié e Vitória da Conquista. Construir gasodutos para essas regiões a partir do Recôncavo não seria economicamente viável”.

Internamente, a distribuidora está finalizando obras de infra-estrutura para levar o gás ao interior do Estado – caso do gasoduto ligando Candeias a Feira de Santana – com 75 km para atender ao Centro Industrial da região, em fase de conclusão.

Na capital, a Bahiagás finaliza a expansão de mais 26 km, para ampliar o fornecimento aos segmentos veicular, residencial e comercial. O consumo de hospitais e shopping centers servirão de âncoras para a entrada do gás nos segmentos comercial e residencial.

No total, o investimento médio previsto pela Bahiagás até 2006, é de R$ 80 milhões por ano.


Um pólo com vocação para o crescimento

Ainstalação de um pólo petroquímico na Bahia significou a “Revolução Industrial” em uma economia até então fortemente marcada pela produção agrícola. Passados pouco mais de 25 anos, a relação dessa indústria com o PIB baiano mostra que, não fosse o pólo petroquímico, a economia do Estado teria outro desenho. “O setor petroquímico é o setor industrial mais importante para a Bahia. Representa cerca de 52% de toda a produção industrial do Estado e é responsável pela geração de 25 mil empregos diretos”, conta o secretário de Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, Otto Alencar.
Nesse período, o pólo aprendeu a crescer – verbo que pratica mesmo nos dias atuais. E cresce em todos os sentidos: aumenta a produção, exporta, atrai empresas de outros segmentos e até mesmo empresas que consomem produtos ali originados.

Um desses exemplos é o Poloplast – programa de atração de produtores de plástico. “O Estado luta para completar toda a cadeia produtiva, atraindo indústrias que possam utilizar essas matérias-primas produzidas no pólo, agregar valor, e conseqüentemente oferecer mais oportunidades de emprego e renda para o Estado”, conta o secretário.

O programa conta atualmente com 52 empresas – a maioria ainda está em fase de instalação, mas algumas já foram inauguradas, como a fabricante de eletrodomésticos Britânia e a produtora de embalagens Tecnoval. “Estamos trabalhando também para atrair a Ledervin, uma indústria de produção de poliéster, já que temos a Braskem, que produz o para-xileno, matéria-prima para o poliéster”, adianta Otto Alencar.

“Contando com incentivos fiscais do Governo baiano através do programa Bahiaplast e o apoio da Politeno, as empresas paulistas que atuam no setor de transformação de plástico estão abrindo filiais no pólo de Camaçari, buscando reduzir seus custos com matéria-prima e atender novos mercados nas regiões Norte e Nordeste do país”, explica o superintendente da Politeno, Jaime Sartori.

Para se ter uma idéia, em 2002 as vendas de resinas termoplásticas da Politeno para as empresas instaladas na Bahia representaram 12,4% do total comercializado. Até 2004, a quantidade de resinas transformadas na Bahia será duplicada com a entrada em operação das empresas TRM, Prismapack e Rotocaixa.

As próprias empresas petroquímicas estudam ampliar a capacidade de produção de resinas. A Politeno tem um projeto de desgargalamento da planta – que irá ampliar a produção dos atuais 360 mil toneladas para 400 mil toneladas anuais. A definição do projeto, no entanto, depende da garantia de suprimento adicional de eteno pela Braskem.

Já a Braskem estuda a ampliação nas fábricas de PVC e de polietilenos – no ano passado, um desgargalamento na planta de eteno permitiu ampliar para 1.280 mil toneladas anuais a capacidade de produção.

A capacidade de produção de químicos e petroquímicos das empresas instaladas no pólo chega a 8 milhões de toneladas / ano – o maior da América Latina, com um faturamento anual em torno dos R$ 5 bilhões. “No Valor de Transformação Industrial da Bahia, o setor de refino representa 29% e o segmento químico e petroquímico representa 24%”, conta o presidente da Federação das Industrias da Bahia, Jorge Lins Freire, lembrando que o Estado possui a segunda maior refinaria do país, a Rlam, com capacidade de processar 306 mil barris por dia.

Otto Alencar lembra que 35% da pauta de exportação do Estado da Bahia vem do segmento químico e petroquímico. “O setor representa 15% de todo o PIB estadual”.

Mas o pólo também experimenta a diversificação das atividades. Das 60 empresas ali instaladas, 28 pertencem a outros segmentos industriais – exemplo da Ford, Caraíba Metais, Ambev e Bahia Pulp.

Responsabilidade sócio ambiental

A dimensão da indústria petroquímica na Bahia acaba transparecendo mais quando se fala nos projetos sócio-ambientais desenvolvidos por empresas como o apoio que a Petrobras dá ao Projeto Tamar.

No projeto de responsabilidade social da Politeno, por exemplo, constam ações que vão desde o Programa de Fomento e Formação da Cultura Ambiental até o apoio ao projeto Creche Esperança I, ambos em Camaçari. “Para a Politeno, a trajetória ‘em busca da excelência’, envolvendo um conjunto de práticas gerenciais que lhe renderam o reconhecimento como ‘empresa de classe mundial’, com a conquista do PNQ 2002, passa necessariamente pela consolidação do conceito de cidadania empresarial”, conta Sartori.

Na área cultural, a Braskem mantém o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – que tem como objetivo o incentivo à cultura através do patrocínio a produção artística, audiovisual e literária.

Quando o assunto se relaciona ao meio ambiente, entra em cena a Cetrel – empresa de proteção ambiental criada em 1978 para tratar os efluentes líquidos das industrias instaladas no pólo. “É uma empresa de referência internacional com relação a questão do tratamento dos resíduos”, comenta o secretário estadual de Meio Ambiente, Jorge Khoury.

O secretário explica que a implantação das empresas petroquímicas acelerou o processo de controle ambiental no Estado. “Fez com que, desde o nascedouro do pólo, as questões ambientais fossem observadas”.

As melhores práticas somadas ao bom desempenho ambiental do pólo petroquímico de Camaçari conferiram renome internacional à Cetrel, levando muitas empresas a quererem conhecer seus sistemas de proteção ambiental e seus laboratórios. Resultado: hoje, a Cetrel possui clientes em todas as regiões do país. “A Cetrel vem crescendo cerca de 40% ao ano, nos últimos dois anos e conta, hoje, com R$ 45 milhões de serviços em carteira, de clientes como Ford, CST, Petrobras, Embraer, All Logística, CVRD, entre outras”, comenta o superintendente da Cetrel, Carlos Eugênio Furtado Bezerra de Meneses.

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