MATÉRIA DE CAPA – Edição 258 - Março de 2004
Potencial brasileiro 

OBrasil vive uma situação inusitada: o desenvolvimento do mercado de sísmica onshore parece “travado”.

Motivos não faltam para o mercado não se desenvolver: o apetite das grandes companhias está, naturalmente, voltado para as bacias offshore. “No momento não há praticamente demanda de sísmica terrestre no Brasil. A maioria das grandes companhias preferem blocos marítimos, em águas profundas e, se possível, nas bacias de Campos, Santos e Espírito Santo. Existe uma demanda muito restrita da Petrobras, que tem uma equipe sísmica própria, e das companhias médias e pequenas, algumas nacionais, que possuem blocos nas bacias terrestres costeiras. Com isto criou-se um círculo vicioso: as companhias não se interessam pelas grandes bacias terrestres brasileiras porque não as consideram prioritárias e porque não têm dados sísmicos e ninguém quer se arriscar a investir em novos dados sísmicos”, avalia o consultor Giuseppe Bacoccoli.

Enquanto isso, os pequenos operadores estão se “virando” – a Grant trouxe um instrumento ao Brasil para fazer levantamentos em águas rasas para a Petrobras e existem pequenas empresas com instrumentos usados, como a SDR. Além disso, devido aos altos custos dos levantamentos, as concessionárias de blocos terrestres por vezes optam por perfurar direto.

“As pequenas operadoras utilizam os dados públicos, reprocessados ou não, para avaliarem os prospectos e tomarem a decisão de perfurar os poços”, conta o geólogo Sérgio Possato.

“Se existisse um mercado, as multinacionais trariam equipamentos e equipes do exterior onde estes recursos são abundantes, baratos e também inativos por outras razões. No Brasil já tivemos várias empresas nacionais de levantamentos sísmicos. Seria de interesse estratégico voltar a contar com elas, além de gerar muitos empregos em áreas carentes”, completa Bacoccoli.

Para o consultor, avaliar o potencial petrolífero destas bacias é “um problema brasileiro de estado". No momento, menos de 3% da área das bacias sedimentares brasileiras está sendo explorado e, boa parte destas áreas está em terra.

A ANP, por exemplo, lançou o Plano Decenal de Estudo e Serviços de Geologia e Geofísica, a ser realizado entre 2002 e 2011. Trata-se de uma iniciativa abrangente para levantamento de dados sobre as bacias brasileiras, especialmente nas áreas consideradas de nova fronteira, com o objetivo de conhecer melhor o seu potencial. Com raríssimas exceções, como as bacias do Solimões, Paraná e o Recôncavo Baiano, as bacias terrestres brasileiras são praticamente desconhecidas – cerca de 15% dos 4,8 milhões de m² são cobertos por sísmica.

Na década de 1980, a Petrobras chegou a operar 14 equipes – próprias ou contratadas. Atualmente mantém apenas uma equipe própria.

E em meio a esse cenário, começam a despontar algumas iniciativas nacionais, fruto de um trabalho de fomento encabeçado pela Onip, para a criação de empresas capazes de assumir parte das atividades atuais ou já programadas para o setor de prospecção e exploração de petróleo e gás natural no Brasil – caso da SGB e da SDR.

A primeira é uma sociedade formada pela brasileira Ultratec, a venezuelana Suelopetrol e um grupo de consultores ligados ao setor. Já a SDR possui experiência na prestação de serviços de logística para a equipe de sísmica da Petrobras.

O problema vai se amenizando à medida que avança a cadeia de exploração: para o processamento de dados, já existem algumas empresas, e algumas universidades foram equipadas para processar dados geofísicos. Já quando o assunto é perfuração, o país dispõe de empresas com know how.

A Flamoil, sediada em Natal / RN, se especializou em processar os registros das bacias terrestres do Nordeste – entre seus clientes estão empresas como Marítima, Partex, Potióleo e Aurizonia. No final do ano passado, triplicou a capacidade de processamento de seu Centro de Processamento de Dados com a implantação de uma arquitetura de cluster de alta capacidade de processamento paralelo – o que aumenta em até 10 vezes a velocidade de processamento de dados sísmicos 3D.

No centro do Rio de Janeiro, a Gaia instalou uma das poucas salas de visualização 3D existentes no país. Cerca de dezesseis profissionais trabalham no Centro de Processamento de Dados, que tem capacidade para processar 1.000 km2 de sísmica 3D por mês.

A Gaia ainda oferece serviços geocientíficos nas áreas de AVO, Inversão Sísmica, Caracterização de Reservatório, Análise de Refração Rasa e Monitoração de Sísmica no Tempo. Presente também no mercado de armazenagem e gerenciamento de amostras geológicas, a Gaia, associada a Reslab Solintec, administra o acervo de testemunhos de sondagem e outras amostras de subsolo, para empresas operadoras no país.

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