MATÉRIA DE CAPA II – Edição 264 - Setembro de 2004
Por uma nova modalidade de contratação
Plano de investimentos das petroleiras impulsiona capacitação das empresas de engenharia – que propõem nova modalidade para contratação de serviços

Que tal começarmos a discutir uma nova mentalidade de relacionamento entre clientes e prestadoras de serviços de engenharia – algo como os contratos de aliança, em que contratante e contratado juntam suas competências em torno de um projeto?

O regime de acordo de alianças – que já é utilizado com sucesso em alguns projetos no Mar do Norte e no Golfo do México – agora começa a ganhar a simpatia das empresas de engenharia nacional.
“A aliança pressupõe credibilidade entre as partes”, explica o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial – Abemi, Ricardo Pessoa.

A modalidade se caracteriza pela execução do projeto EPC por uma equipe integrada do projeto – acompanhada pelo cliente e pelo prestador de serviços, nos seus preços, custos, métodos etc.

Aos poucos a idéia ganha simpatia entre prestadores de serviço e os clientes. A Petrobras, por exemplo, montou um grupo de trabalho do qual participa a Abemi, para discutir as melhores práticas de contratação. A idéia é implantar no Brasil uma célula do Constrution Industry Institute – CII – organismo internacional onde prestadores de serviços, clientes e financiadores discutem as maneiras de se obter redução de custos e mitigação de riscos.

“Temos que seguir o que determina o procedimento legal – o decreto 2745 – e dentro dele temos que aperfeiçoar sempre. Cláusulas contratuais que eram usadas há seis anos, talvez hoje não sejam adequadas, e temos que melhorar. Isso é uma evolução constante”, comenta o gerente executivo da Área de Engenharia da Petrobras, Pedro Barusco.

Até a década de 1980, a contratação dos serviços e suprimentos era separada e feitas pelas próprias contratantes. Com o advento da modalidade de contratação por preço global – o Lump Sum Turn Key – a responsabilidade sobre o projeto passou quase que toda para os prestadores de serviços.

A questão, na visão dos prestadores de serviços, é essa transferência de responsabilidade, já – pela modalidade de Acordos de Alianças, o projeto EPC fica sob a responsabilidade de uma equipe composta por profissionais do contratante e do contratado. “Ninguém vai falar em ganha-ganha, mas não podemos estar praticando o perde-perde que está acontecendo hoje em muitos projetos”, avalia Ricardo Pessoa.

Os frutos do Prominp

Modelos de contratação à parte, as empresas de engenharia nacional começam a ver novos tempos de bonança. A exemplo da industria naval, as empresas de engenharia retomam a movimentação das carteiras a reboque dos investimentos da industria do petróleo.

O setor, que na década áurea de 1970 cresceu com as grandes obras no país, viu seu faturamento cair a menos da metade nos últimos anos – marcado pelo fechamento de várias empresas e a fusão de muitas que sobraram.

Agora a história é outra: com uma recheada carteira de pedidos – e o apoio governamental através do Prominp – a engenharia nacional dá uma resposta rápida para retomar a rota de crescimento.

“Através do instrumento de planejamento do Prominp, estamos conseguindo ver as necessidades com antecedência, e tomar as ações necessárias para conseguir fazer as obras”, explica Barusco.

Entre essas necessidades, o principal gargalo apontado pelos clientes ainda é a mão-de-obra. Sem pedidos em carteira, a mão de obra e o know how acumulado nos tempos áureos acabaram tomando outros rumos – agora o desafio é a formação de novos profissionais em número suficiente para atender a demanda.

“Hoje é difícil encontrar um bom engenheiro químico atualizado em processos”, exemplifica o chefe do Núcleo de Engenharia e Implantação da PQU, Wagner Ferreira de Almeida.

É justamente aqui que entra o Prominp: com a carteira de investimentos projetada, as empresas do setor conseguem avaliar a demanda profissional e então articular a criação de cursos para formar novos profissionais.

A Petrobras, por exemplo, criou um Centro de Excelência em Projetos 3D para capacitar profissionais de engenharia. “Primeiro fizemos o Centro de Projetos 3D, e depois o Centro de Automação. Estamos atacando primeiro as áreas mais críticas”, conta Pedro Barusco.

“O Prominp não é só um planejamento, mas uma ação – e isso é importante”, avalia o presidente da Abemi.

As próprias prestadoras de serviços fazem sua parte – com destaque a formação de consórcios, onde competências de duas ou três empresas são agrupadas para desenvolvimento de um projeto.

É claro que ainda há um grande caminho a percorrer para que a engenharia nacional atinja o grau de excelência – haja visto as questões tributárias e tecnológicas a serem resolvidas. Mas no ritmo que a diligência anda, não demorará muito para que o setor ganhe o mundo.

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