É hora de rever a responsabilidade
Empresas de engenharia sugerem contratação em regime de alianças, em que a responsabilidade sobre o projeto fica a cargo de uma equipe composta por profissionais do cliente e do prestador de serviços
As empresas brasileiras que atuam no segmento de engenharia querem inovar tecnologicamente, investir na compra de equipamentos modernos e qualificar sua mão-de-obra. Mas antes terá que resolver alguns gargalos – entre eles os limites de responsabilidade e as turbulências na economia.

“O nosso negócio é a prestação de serviços de engenharia e construção. Uma vez que não estivermos mais preocupados com juros e carga tributária alta, vamos ter condições de melhorar a qualidade da mão de obra, inovar tecnologicamente, e investir em equipamentos mais modernos”, comenta o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial – Abemi, Ricardo Pessoa.

Uma das questões diz respeito à mitigação dos riscos através de um melhor conhecimento do escopo. Isso porque, em alguns casos, o contratante acaba interferindo durante a execução da obra – o que pode modifica completamente o preço firmado na origem da contratação.

E o pior, é quando essa interferência passa a ser algo mais subjetivo – e o prestador de serviços não consegue mensurar com clareza o quanto é onerado. “Se a empresa contratada não conhecer detalhadamente o escopo do empreendimento, não pode quantificar esse valor num preço lump sun turn key. Depois, se o cliente quer fazer alguma modificação, muda completamente o ambiente da formação de preços planejado na origem”.

A importância dos contratistas – principalmente as empresas que prestam serviço em regime EPC – vem crescendo significativamente nos últimos anos. Empresas que há duas décadas eram contratadas para prestar um serviço unidisciplinar, hoje assumem toda a gestão de uma obra – o que inclui toda a cadeia de valor do empreendimento, desde o detalhamento do projeto até a pré-operação.

“A administração de interface e a gestão do empreendimento custa caro. Antes isso não era mensurado porque os clientes finais nunca somavam isso”, avalia o presidente da Abemi.

O que acontece, na opinião de Ricardo Pessoa, é que o preço final não contempla esse risco que os construtores. “A cada dia, o mercado se torna mais competitivo, e os preços não acompanham, em seu real valor, essa tomada de risco”.

Qual a solução?

A tendência é partir para um novo regime de relacionamento entre clientes e prestadoras de serviços de engenharia, onde haja um compartilhamento entre cliente e construtor no acompanhamento da obra.

O regime de acordo de alianças – que já foi utilizado com sucesso em alguns projetos no Mar do Norte e no Golfo do México – se caracteriza pela execução do projeto EPC por uma equipe integrada do projeto – composta por profissionais do cliente e do prestador de serviços.

Essas adequações contratuais vêm sendo propostas pela Abemi às grandes contratantes – a entidade já conduz grupos de trabalho com a Petrobras e com a Companhia Vale do Rio Doce, para negociar questões como limites de responsabilidade, escopo e fluxo de caixa neutro.

Um primeiro grupo de trabalho formado com a Petrobras, tem como foco adequações contratuais. “Já tivemos mais de 40 reuniões e grandes conquistas. É um fórum de debates sobre como melhorar, entre outras questões, clareza de escopo, fluxo de caixa neutro”.

Outro grupo busca adequar os contratos para manutenção firmados com a companhia – para avanços tecnológicos em paradas de manutenção.

“E estamos iniciando um grupo de trabalho com a CVRD, sobre as melhores práticas de contratação. A companhia já sabe que vai precisar ter uma relação confortável com o mercado prestador de serviços, para que realize seus empreendimentos de melhor maneira possível, e sem inchar sua estrutura de fiscalização”, conta Ricardo Pessoa.

São gargalos nem sempre específicos das empresas de engenharia, mas que precisam ser equacionados para que os executivos e técnicos ligados à atividade possam voltar seus esforços para inovação tecnológica e know how de execução.
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