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| Edição 277 Outubro de 2005 |
| Dois projetos para uma única lei |
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| Passo importante para a expansão do mercado de
gás natural, propostas ainda dividem opinião de agentes. E a promulgação
de uma Lei do Gás pode demorar mais do que o previsto. |
O Ministério de Minas e Energia pretende enviar ao Congresso, até
novembro, a proposta do Governo para uma Lei do Gás – a exemplo do
que fez com o setor elétrico. Só que desta vez, a proposta vai encontrar
um outro projeto em tramitação: o PL 226, do senador Rodolpho Tourinho
(PFL-BA).
“A mecânica de tramitação no Congresso não foi discutida. Mais importante
é que saia uma boa lei”, argumenta o ministro Silas Rondeau.
Por boa lei, o ministro define como aquela que atenda melhor às partes
– a intenção é criar uma lei que contemple as necessidades de todos
agentes do setor. “Encontrar esse ponto de equilíbrio é que está sendo
o nosso grande desafio no momento”.
Segundo Silas Rondeau, as diretrizes de ambas as propostas são parecidas
– e até tocam em pontos parelhos sobre a concessão para a construção
de gasodutos e sobre a criação de um órgão destinado a supervisionar
a movimentação do gás natural. “Não há conflito entre a minuta do
Ministério e o texto do senador Tourinho. Ao contrário, ambas as propostas
se complementam”.
Enquanto o projeto do senador segue para a Comissão de Assuntos Econômicos
– e depois para a Comissão de Infra-Estrutura – a proposta do Ministério
seria encaminhada para a Câmara dos Deputados – o que pode levar à
tramitação paralela dos dois projetos.
A existência de propostas concorrentes na Câmara e no Senado, no entanto,
poderá atrasar a regulamentação do setor – principalmente com as atenções
do Congresso voltadas às eleições do próximo ano. O ministro garante
que a Lei do Gás seja promulgada ainda neste Governo. “Com certeza
sai”.
As propostas, no entanto, ainda se restringem à questão do transporte
e comercialização do gás – restam ainda abranger a visão do consumidor
final, como a qualidade de instalações e equipamentos, segurança de
suprimento, acesso a linhas de crédito e até mesmo contextualizar
o marco regulatório com as discussões internacionais.
“Como falar de uma Lei Nacional de Gás, sem sequer fazer uma menção
às discussões internacionais. O Brasil não está participando ativamente
dos debates de um arcabouço regulatório para gasodutos na América
Latina. A nossa Lei só deveria ser aprovada depois que soubéssemos
quais são os nossos compromissos internacionais, pois assim as duas
coisas podem ser convergentes e não conflituosas”, argumenta o professor
Edmilson dos Santos, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.
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| Mercado secundário divide agentes |
Um estudo feito pelos pesquisadores Paulo de Britto e Carlos Senna
Figueiredo, sob encomenda da Confederação Nacional da Indústria, sugere
uma legislação à parte para o setor de gás natural. O estudo “A Situação
da Geração Termelétrica no Brasil” aponta a rigidez das regras dos
contratos de fornecimento, o alto custo do gás e a incompatibilidade
entre a regulamentação do setor elétrico e a do gás natural como fatores
limitantes à ampliação do parque gerador.
Os agentes concordam quanto à necessidade de um sistema regulatório
específico para o gás natural – hoje regulado pela Lei do Petróleo.
“A elaboração de um marco regulatório no setor de gás natural é fundamental
para o desenvolvimento das condições necessárias para a realização
de investimentos em toda a cadeia”, explica o presidente do IBP, João
Carlos de Luca.
Mas só uma lei pode não ser suficiente para atrair investimentos.
“A maioria dos gasodutos previstos para o Brasil não são viáveis não
por falta de uma lei, mas porque não há mercados. Não havendo quem
assine os contratos de ship-or-pay fica difícil imaginar investimentos
em gasodutos”, exemplifica o professor Edmilson dos Santos.
Suficiente ou não, os agentes reconhecem a iniciativa como um passo
importante para o desenvolvimento do setor, mas nem todos concordam
quanto à forma. E, antes de colocar a proposta ao Congresso, o Ministério
vem consultando todos os agentes da cadeia.
A maior polêmica diz respeito à proposta da criação de um mercado
secundário, que visa a criação de um canal para comercialização do
gás não utilizado pelas termelétricas – que só operam quando as hidrelétricas
não conseguem suprir toda a demanda por energia elétrica. Essa sobra
seria vendida em um mercado secundário a um preço mais baixo.
João Carlos de Luca ressalta que a criação de um mercado secundário
regulado é um dos pontos sensíveis da Lei do Gás. “Na magnitude que
está sendo pensado, esse mercado pode ‘roubar’ espaço do mercado primário,
dificultando a elaboração de contratos firmes. E se não tivermos contratos
firmes para o produtor que tem um campo a ser desenvolver, seguramente
esse campo não vai ser desenvolvido, e não vamos poder disponibilizar
mais gás para o país”.
Além disso, há a preocupação de que a proposta mexa com a autonomia
que os Estados têm sobre a distribuição do combustível.
Posição contrária tem a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores
Industriais de Energia – Abrace, que defende o mercado secundário
regulado. “Defendemos que o gás interruptível seja colocado à disposição
da indústria, a um custo mais barato como contrapartida, assim como
acontece com todo produto que não tem garantia de entrega. Isso não
gera um problema para as indústrias que comprarem gás firme”, explica
o coordenador de Gás Natural da entidade, Luiz Pedro Biazoto.
A forma como será dada a permissão para a construção de gasodutos
também é um ponto polêmico – não há consenso nem entre os próprios
agentes. O Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás defende um regime
misto – que permita também a construção de dutos por meio de autorização,
considerada a forma mais ágil quando o projeto for de interesse específico
de um produtor.
Em outras situações, a expansão e construção de novos gasodutos se
daria sob o regime de concessão – através de leilões públicos semelhantes
ao modelo adotado para as linhas de transmissão de energia.
A proposta do Ministério prevê também a criação de um novo órgão,
destinado à otimização do uso de gasodutos – que na proposta do Senador
Tourinho vem sendo denominado de Operador do Sistema Nacional de Transporte
de Gás Natural.
O representante da Abrace defende a criação da figura do usuário livre
– algo semelhante ao que acontece no setor elétrico: grandes consumidores
poderiam trocar de fornecedor, utilizando o sistema de distribuição
da concessionária. “Isso ainda não está bem organizado em nenhuma
das duas propostas”.
Na esteira, poderá ser criada também a figura do auto produtor de
gás – que poderia acessar um gasoduto de terceiros para movimentar
seu energético. |
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