Edição 279 – Dezembro de 2005
Roda presa
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Conjunção de altas nos preços internacionais de petróleo, valorização cambial e baixo crescimento da economia trava performance da indústria.
2005 vai ficar marcado como um ano de estagnação para a indústria – ocasionado pelo casamento entre a alta nos preços internacionais do petróleo, a valorização cambial e o baixo crescimento da economia.

“Não tivemos um ano brilhante”, lamenta o coordenador da Comissão de Economia da Abiquim, José Mascarenhas.

A indústria química encerra o ano registrando uma queda de 2,7% no faturamento em reais – apesar do crescimento de 15,8% no faturamento em dólares – na comparação com 2004, fruto da valorização cambial no ano. “O câmbio, na situação que está hoje, é um peso para a indústria”, completa o vice-presidente do Conselho Diretor da Abiquim, Pedro Wongtschowski. Os dois executivos avaliaram o desempenho da economia durante o 10º Encontro Anual da Indústria Química.

O comportamento da economia ficou bem abaixo das expectativas dos executivos. As previsões feitas há um ano apontavam crescimento da economia acima dos 3,4%. Mas no acumulado dos nove primeiros meses de 2005, a alta é de 2,6%. A maior reversão ocorreu no terceiro trimestre, com uma retração de 1,2%, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Diante da retração, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, ligado ao Ministério do Planejamento, já revê sua projeção de crescimento da economia de 3,5% para 2,3%.

“O resultado de 2005 tem aspectos positivos: a inflação foi domada, e temos uma melhora significativa no setor externo. Mas isso teve um custo enorme: a economia desacelerou e o investimento não decolou”, avalia o economista José Roberto Mendonça de Barros, durante o Encontro.

Os investimentos voltaram a cair no segundo semestre, principalmente pelo recuo nos setores de máquinas e equipamentos e construção civil. O próprio IBGE destaca o aumento dos juros como um dos principais entraves à expansão dos investimentos – além da base alta de comparação, já que o terceiro trimestre de 2004 apresentou expansão de 19,3% em relação a igual período de 2003.

Menor taxa de investimentos equivale a uma menor capacidade de expansão no futuro. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – Abimaq, Newton de Mello, disse que a queda de 1,2% do PIB no terceiro trimestre de 2005 não foi uma surpresa para o setor de bens de capital mecânicos. “A Abimaq vem alertando que o consumo de máquinas está caindo, demonstrando redução dos investimentos, embora as estatísticas demorem a acusar”.

Na avaliação do empresário, a redução do PIB é reflexo de uma política econômica equivocada, “baseada em taxas de juros elevadas, supervalorização do real, perseguição implacável do superávit primário, sem a necessária liberação de verbas do orçamento para que o País funcione, e voracidade tributária”.

A política de juros altos também foi apontada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, como vilã da retração do PIB. “O aperto da política monetária foi demasiado”.

Para Monteiro Neto, o desempenho da economia no quarto trimestre do ano não compensará o efeito da queda acentuada registrada no terceiro trimestre. “Isso significa que o Brasil terá mais um ano de baixo crescimento”.

O economista Mendonça de Barros avalia que a falta de investimentos teve como principal causa – além do peso da carga tributaria e das questões regulatórias – a conjunção entre as altas taxas de juros e a volatilidade cambial. “Essa indeterminação em relação a taxa cambial torna a decisão de investir muito difícil. E combinada essa situação com uma taxa de juros muito alta, vemos mais fácil desengargalar uma linha de produção do que fazer uma nova fábrica voltada para exportação”.

“A indústria química depende do crescimento da renda para ver crescer sua demanda e investir. As empresas estão preparadas. Mas é preciso que, de fato, haja uma modificação da estratégia do governo para que esse panorama melhore”, ressalta José Mascarenhas.

Perspectivas

A pior perspectiva para a economia em 2006 é a manutenção do atual cenário – embora a aposta (quase unânime) é de melhora nos indicadores. A previsão é de que a pressão dos preços administrados caia dos 8% para 4%, ajudando ao país atingir a meta de inflação de 4,5%.

Com a inflação sob controle, está pavimentado o caminho para a esperada queda da taxa básica de juros. E uma tendência de recuo de uma taxa média de 19,15% em 2005 para 18% em 2006 seria um estímulo ao investimento.

“A inflação vai pressionar menos do que pressionou esse ano. E estamos em uma situação propícia para uma queda na taxa de juros, o que ajuda o consumo e investimento”, analisa o presidente do Siresp, José Ricardo Roriz Coelho.

O dólar, que acumulou uma perda de 12,4% no ano passado, pelo menos não estará sujeito à volatilidade. Com superávit da balança comercial em torno de US$ 36 bilhões – contra US$ 43,5 bilhões em 2005 – as necessidades previstas de divisas estão cobertas com folga, o que aponta para uma situação tranqüila no câmbio e na perspectiva da inflação, avalia Mendonça de Barros. “Não dá para esperar uma grande desvalorização do real”.

Na análise do economista, há espaço para a redução da taxa de juros e crescimento do PIB entre 3% e 4%. “É uma taxa melhor quando olhamos para trás, mas é modesta quando olhamos para os lados: nossos ‘companheiros de viagem’ estão crescendo a 5%, 6% ou 7%. Esse é o melhor momento da economia mundial nos últimos 30 ou 40 anos, e estamos com a ‘roda presa’ numa taxa de juros extremamente elevada”.

Uma coisa é certa: 2006 não será um ano eleitoral igual a 2002. Em primeiro lugar, diferente de 2002 – quando a plataforma do Governo Lula ainda era uma incógnita – hoje o mercado já se sente mais seguro quanto ao futuro Governo. “Precisaria aparecer um populista para os mercados se assustarem”, lembra Mendonça de Barros

E o petróleo?

Como se comportarão os preços do petróleo em 2006? Poucos analistas se arriscariam a fazer uma previsão mais profunda após dois anos de alta volatilidade.

Mas todos concordam: os preços do barril atingiram a um novo patamar.

2004 fechou com preços do petróleo no mercado internacional passando da casa dos US$ 42 – bem acima da banda proposta pela Opep, de US$ 22 a US$ 28.

Uma série de fatores levou à rápida elevação dos preços do petróleo em 2005 para uma faixa de preços entre US$ 50 e US$ 60.

Àqueles fatores observados no ano passado – crescimento da demanda, desvalorização do dólar em relação a outras moedas, e um pouco de especulação financeira – somam-se, em 2006, os furacões que paralisaram a indústria, o inverno rigoroso no hemisfério norte que levou a um aumento no consumo, fatores geopolíticos em diferentes regiões do mundo levando temor à capacidade de atendimento à demanda, ameaças de ataques terroristas a instalações, greves, e os baixos níveis de reservas estratégicas de países-chave.

“Alguns destes condicionantes (fatores políticos, ameaças terroristas, greves, fenômemos climáticos, etc) começam a perder força neste final de 2005, mas não há garantias de que não se façam presentes, novamente, em 2006. Outros, mais estruturais, como a demanda crescente e o gargalo do refino, permanecerão pressionando os preços por alguns anos ainda”, observa o professor Roberto Schaeffer, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.

A previsão é de que, com capacidade recuperada dos furacões, e com alguns projetos entrando em operação – inclusive no Brasil – ampliando em mais de 1,8 milhão de barris diários a produção de petróleo.

Do lado da demanda, a Agência Internacional de Energia prevê para 2006 um consumo 85,2 milhões de barris diários.

A Opep, que fornece 40% da oferta mundial de petróleo, continuará a produzir em torno de 30 mbd, segundo a AIE. “Um cenário bastante provável de preços para o petróleo em 2006 é o de se continuar na faixa US$ 50 – US$ 60 – não abaixo disto e nem acima disto. O mercado aparentemente já assimilou este novo patamar e já sabe trabalhar com ele”, avalia o professor Roberto Schaeffer, ressaltando que esse patamar ajuda a pressionar para baixo a demanda, e estimula novos investimentos em refino, no aumento das reservas mundiais, capitaliza a indústria de petróleo, e acelera a transição para fontes alternativas de energia.

Brasil caminha em direção à auto-suficiência

Logo no início de 2006 o Brasil ostentará a condição de auto-suficiência na produção de petróleo graças ao aumento da produção de petróleo com a entrada em operação das palataformas P-50 (no campo de Albacora Leste) e P-34 (no campo de Jubarte, os dois na Bacia de Campos), o que elevará a produção a 1,9 bilhão de barris diários.

Outros dois projetos – a plataforma SSP-300 (no campo de Piranema, em Sergipe), e a fase 1 do campo de Golfinho (na Bacia do Espírito Santo) devem entrar em operação até o final do ano.

E deverá se manter nessa condição de auto-suficiência por um longo período. Até 2010, a produção interna crescerá numa média de 6,2% ao ano – atingindo 2,3 milhão de barris diários naquele ano, enquanto a demanda estará em torno dos 1,9 bilhão de barris dia.

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, avalia que a situação da economia brasileira ficará mais independente das flutuações do mercado internacional.

Dados preliminares apontam que a demanda interna por derivados cresceu, em média, 2% ao ano em 2005 – motivados pelo baixo crescimento do PIB e o fraco desempenho da safra agrícola na região Sul do País.
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