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Edição 284 2006
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| O gás é deles |
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| Evo Morales nacionaliza instalações de petróleo
e gás na Bolívia. Gesto pode representar perda de participação
no mercado brasileiro |
O dia primeiro de maio passa a ter mais um significado para o povo
boliviano: o governo decretou a nacionalização das instalações
de exploração de gás e petróleo até
então controladas por empresas estrangeiras. Evo Morales está
convencido de que os recursos da venda do gás trarão
independência econômica para o país e nisso
conta com o apoio maciço da população.
Mas o gesto pode representar insegurança para novos investidores
e perda de fatias importantes de seu principal mercado já
que o Brasil poderá buscar gás em outros lugares, até
por um preço mais caro, porém, negociado num quadro
de maior entendimento político.
A medida do Governo Evo Morales, na avaliação do especialista
em política latino-americana da PUC-Campinas, Antonio Barbosa,
está dentro da soberania do país. Mas expropriações
podem resultar em boicote internacional. Essa medida era um
compromisso de campanha de Morales. As estatizações
podem gerar mais recursos, porém podem afugentar investimentos
necessários ao desenvolvimento.
Barbosa lembra ainda que, desde 1981, um governo de esquerda não
assume o poder na Bolívia. E que a política estatizante
é a característica principal dessa linha de governo.
Na recente nacionalização, forças militares ocuparam
53 instalações de exploração de gás
e petróleo. Faixas com inscrições Nacionalizado
Propriedade dos Bolivianos foram afixadas nas plantas
de gás. Acabou o saque das empresas estrangeiras,
discursou Evo Morales, ressaltando que está fazendo o que propôs.
Não somos um governo de promessas.
Estará certo Evo Morales?
Evo Morales foi eleito após a queda de dois presidentes
por causa do descontentamento popular com a gestão das riquezas
minerais do país com o propósito de nacionalizar
as reservas de gás.
O Decreto Supremo 28.701, assinado por Evo Morales em 1º de maio,
justifica que as atividades de exploração de hidrocarbonetos
está sendo feita com contratos que não cumpriam as exigências
constitucionais e violam expressamente a constituição,
ao entregar a propriedade dessas riquezas a estrangeiros. Os
contratos denominados de Risco Compartilhado não estão
referendados pelo Congresso Nacional, portanto são inconstitucionais,
disse à Revista Petro & Química o ministro de Hidrocarburos
da Bolívia, Andrés Soliz Rada.
O modelo neoliberal não satisfez as expectativas da população
boliviana e acabou impulsionando a volta do discurso nacionalista,
fundamentado no populismo na América Latina . As propostas
que venceram o neoliberalismo estão recuperando soluções
que já foram utilizadas na América Latina nas décadas
de 1960 e 1970, como a estatização. Até mesmo
a aceitação à presença da Petrobras nunca
foi uma unanimidade entre os bolivianos.
O ato populista representa, porém, uma quebra de contrato internacional
e que deve afugentar novos investimentos. Os bolivianos têm
os recursos, mas não possuem tecnologia e mercado consumidor
para explorar o gás. Isso o Brasil e a Petrobras têm
de sobra. Parece não ter sido uma boa jogada com o apoio
maciço da população. O Brasil, que previa aumentar
o consumo do gás boliviano, já começou a buscar
gás em outros lugares.
A nacionalização foi uma idéia política
defendida durante a candidatura de Evo Morales e apoiada pela maioria
do povo boliviano. Porém a implementação foi
radical, unilateral e afetou a relação de confiança
depositada na Bolívia, avalia o professor Edmar Almeida,
especialista do Grupo de Energia do Instituto de Economia da UFRJ. |
| Morales discursa em uma das plantas de gás
da Petrobras: acatamos e cumprimos o que pede o povo
boliviano |
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O Decreto Supremo estabelece que o Estado boliviano passa a controlar
todo o processo produtivo do petróleo e do gás. A estatal
Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos YPFB, assume
a parte majoritária (50% mais 1) das ações de
todas as filiais de companhias petrolíferas estrangeiras que
atuam no país.
Com isso, a YPFB se torna responsável por todas as fases dos
negócios do setor - da exploração ao transporte,
passando pela fixação dos preços ao mercado externo.
As empresas multinacionais ficarão como operadores e receberão
da YPFB uma remuneração de 18%. O Estado boliviano se
apropriará, a título de imposto sobre produção,
de 32% das receitas, além de 18% de royalties. Outros 32% serão
entregues à YPFB. O Estado se reserva, porém, o direito
de ampliar a parte das companhias operadoras para até 50%,
como forma de incentivar as empresas estrangeiras a manterem seus
investimentos no setor. O governo deu às multinacionais 180
dias para renegociarem seus contratos, sob o novo decreto. Após
este prazo, as companhias que não chegarem a um acordo com
a YPFB serão convidadas a se retirar do país.
Esta é a terceira vez que a Bolívia estatiza seus recursos
fósseis e minerais. Nas duas anteriores, em 1937 e 1969, a
intervenção não ajudou o país a amenizar
a miséria de seu povo e, por isso, acabou sendo revertida.
Insegurança institucional?
Para o Governo Brasileiro, a medida está dentro da soberania
nacional. Mas a Petrobras quer defender seus interesses e do
mercado consumidor de gás no Brasil. Consideramos que
eles tinham direito de definir a nacionalização das
reservas. Mas, as leis bolivianas dão margens para interpretações
deste Decreto que, a nosso ver, permite defesa dos interesses da Petrobras
dentro da Bolívia, disse o presidente da Petrobras, José
Sergio Gabrielli, citando o artigo 22 da Constituição
boliviana que diz ser possível a nacionalização
das ações de refinarias estrangeiras, porém com
indenização prévia e justa. Isso significa
que é possível que haja condição de negociação
no âmbito da legislação autônoma e soberana
do governo boliviano, acrescenta.
De fato o decreto afetou a relação de integração
energética entre o Brasil e a Bolívia. Um dos primeiros
efeitos é a suspensão de nova contratação
de gás junto à Bolívia. Para produzir mais
gás na Bolívia, é preciso investir. Mas com 18%
de retorno não se viabilizam novos investimentos, explica
o presidente da Petrobras.
A TBG sugeriu à ANP a interrupção do concurso
aberto para a expansão do Gasbol a intenção
é aguardar o resultado das negociações entre
Brasil e Bolívia sobre o fornecimento de gás natural
para decidir sobre a retomada do concurso. Entre as candidatas à
ampliação, Petrobras, Total e Repsol pediram o cancelamento
da concorrência. Mas BG e PanAmerican preferem que o concurso
seja adiado por 180 dias.
As vinte companhias estrangeiras atingidas pelo decreto investiram,
ao todo, US$ 3,5 bilhões na Bolívia. O prejuízo
maior é da Petrobras que aplicou US$ 1 bilhão na extração
e refino e outros US$ 2 bilhões na construção
do gasoduto.
O ministro Soliz Rada disse que várias companhias que já
operam no país demonstraram interesse em continuar operando
na Bolívia. Outras empresas mostraram interesse em ingressar
nas atividades de exploração e outras atividades da
cadeia petrolífera, afirma o ministro, sem citar nomes
por um princípio de reserva de informação
e confidencialidade.
Na avaliação do professor Edmar Almeida, essa onda estatizante
no continente não irá afetar os futuros investimentos
na América do Sul, especialmente no Brasil. Entendo que
os investidores estrangeiros sabem distinguir o posicionamento, os
compromissos e as medidas tomadas por cada país. No Brasil,
não existe propósitos de expropriação,
nacionalização, por isso, eu acredito que o nosso país
continuará recebendo investimentos de empresas de fora.
Três dias após a nacionalização na Bolívia,
os presidentes Lula, Evo Morales, Néstor Kirchner (Argentina),
e Hugo Chávez (Venezuela) reuniram-se em Puerto Iguazú,
na Argentina, para mostrar que as relações diplomáticas
entre os países não foram abaladas por conta da crise
gerada pela nacionalização do gás boliviano.
Todos afirmaram que respeitam a decisão soberana da Bolívia
e que não haverá interrupção no fornecimento
de gás.
Para o professor da UFRJ, a crise com a Bolívia gerou uma desconfiança
no setor e algumas questões têm que ser esclarecidas
para o mercado de gás continuar crescendo. O cenário
é de incógnitas, agora os consumidores vão querer
saber ainda mais, de onde virá o gás, qual será
a política de preço, se o abastecimento estará
garantido e da possível dependência de mercados de risco,
afirma. |
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