Edição 285 • 2006

Ser responsável
CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA AMPLIADA
Resultados para as empresas envolvidas com a
responsabilidade social são positivos.
A proximidade de estratégias empresariais com projetos que gerem transformação social está ganhando valor no mercado financeiro. Regulações, comprometimento aos princípios da ONU e políticas governamentais permeiam as ações de empresas que passam a perceber, na ponta do lápis, estímulo e o retorno que terão ao investirem em gestões alinhadas aos indicadores voltados à responsabilidade social – como os ISE Bovespa, Dow Jones Sustainability World Index, FTS4 Good.

“A empresa ganha em competitividade à medida que foca no ambiente social e no mercado. Para isso, precisa incorporar relações de cooperação beneficiando a todos os seus stakeholders, que devem agir de forma recíproca e sustentável”, diz o diretor executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi.

Durante a Conferência Internacional do Instituto Ethos, Itacarambi apresentou cálculos que mostram que aproximadamente 10% – algo em torno de US$ 2,3 trilhões – do total dos ativos administrados no mercado norte-americano – está de alguma maneira ligado às ações de responsabilidade social. A mesma tendência desse negócio já ocorre no Brasil, onde fundos de investimentos responsáveis experimentaram, nos últimos seis meses, crescimento maior se comparado às carteiras de outras empresas de capital aberto.

Assim como há o atendimento aos requisitos para se compor uma carteira dentro dos indicadores, também ocorre engajamento na busca dos Objetivos do Milênio lançados pela ONU, que torna relevante o foco em atitudes sócioambientais. Em paralelo, o que se vê também no contexto nacional é o movimento rumo à sustentabilidade ambiental e parcerias mundiais firmadas para o desenvolvimento de um sistema comercial e financeiro aberto.

O envolvimento das empresas motivadas por estas ações é gradativo. Pelos dados do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase, em 2001, cerca de um pouco mais de uma dezena de empresas publicavam seus balanços e, atualmente, esse número já ultrapassa as 500 companhias. E os investimentos em projetos sociais ganharam proporção, já representando 6%, em média, do resultado operacional da empresa.

Mas para o presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, Oded Grajew, ainda vale a advertência sobre o modelo econômico que dificulta a adesão de empresas voltarem-se ao terceiro setor. “O plano ideal só poderá ser atingido por meio de parcerias – entre as companhias, com a sociedade civil e em torno de políticas públicas voltadas para a solidariedade.”

O retorno da responsabilidade social

A preocupação das empresas em garantir os ganhos com a imagem positiva explica, por exemplo a criação do Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISE, numa iniciativa liderada pela Bolsa de Valores de São Paulo. Nele estão 28 empresas de capital aberto que interam 34 ações. O índice será revisado anualmente e ponderado pelo free-float das empresas que o compõem. Para fazer parte do índice a companhia deve seguir o conceito internacional do Triple Botton Line que avalia, de forma integrada, dimensões econômico-financeiras, sociais e ambientais das empresas. A ele foram adicionados critérios e indicadores de governança corporativa, a exemplo do índice da Bolsa de Johannesburg, e de natureza do produto.

“A procura pela nova carteira do ISE é considerável”, confirma o supervisor de Assistência ao Mercado da Bovespa, Rogério Marques, provando a tendência pela procura em investimentos do tipo. Por estar pouco tempo no mercado, não há bases comparativas consistentes segundo o especialista. A expectativa de fato, no longo prazo, é que o ISE vai se diferenciar. Quando é feita a apuração sobre o desempenho do Índice de Governança Corporativa Diferenciada – IGC, desde 2001 os resultados são superiores em relação aos índice Ibovespa – algo que o ISE deverá proporcionar. “As empresas valorizam mais rápido e quando caem, elas caem mais lentamente e se recupera antes das outras”, observa o Supervisor.

O Dow Jones Sustainability Index demonstra alguns fatos: a partir de uma base 100, a performance do DSJI World já em 1993 foi bastante superior (237,9%) ao indicador MSCI World (129,5%). A elevação de investimentos em fundos de investimentos responsáveis é vista nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Europa e mesmo nos mercados emergentes, o que já representa a soma de US$ 500 bilhões em investimentos, segundo informes fornecidos durante a Conferência Internacional do Instituto Ethos 2006. “Se fizermos um comparativo entre o indicador americano Ethical e a evolução no Brasil dos indicadores correlatos verificaremos que o primeiro, no período de cinco anos, evolui 147% versus 106% do convencional, enquanto aqui no País, o IGC chegou a 143,7% versus 127,7% do IBovespa, em 2005”, registra o consultor da Quality Consultoria, Oceano Zacharias.

Para o diretor de Renda Variável do Bradesco Asset Management, Herculano Aníbal Alves, o mercado de fundos de investimento é promissor – mas faz suas ressalvas quanto a alta concentração dos indicadores em bancos, cerca de 60%.

O diretor de Relações com Investidores da Braskem, José Marcos Treiger, vê de fato ser uma tendência mundial a valorização por práticas que dêem ao acionista resultados e confiabilidade no negócio.

Específico para petróleo e gás

Para posicionar um modelo específico de responsabilidade social para o setor de petróleo e gás, está a disposição o IBP/Ethos, lançado recentemente como uma alternativa complementar aos índices genéricos do Instituto Ethos. Segundo o Coordenador de Responsabilidade Social do IBP, Carlos Victal, só participa dele a empresa que estiver já inserida nos indicadores genéricos.

“A adesão ainda é pequena, pois esse é um processo que implica a conscientização, comprometimento da alta administração e mudança de valores dentro de uma empresa”, conta Victal. O fato da Petrobras já ter incluído em seu balanço social de 2005 os indicadores setoriais de Petróleo e Gás significa um incentivo à adoção desta ferramenta pelas demais empresas do setor, segundo o coordenador. Cada empresa recebe as informações em sigilo contidas em um relatório emitido pela apuração do órgão que faz o ranqueamento, no caso o Instituto Ethos.

Ele comenta que o prazo para preenchimento dos indicadores está aberto e deverá se estender até 30 de outubro deste ano. Uma nova fase será aberta em novembro com previsão de fechamento para abril de 2007. “A concorrência das empresas, desta forma saudável, aumentará. E deverão ser mais freqüentes as correntes iniciativas pela divulgação de balanços sociais, o lançamento da ISO 26000 de responsabilidade social, o desenvolvimento do mercado de certificados de carbono da BM&F, o crescimento da importância dos prêmios e selos de responsabilidade corporativa, a expansão desse novo mercado da Bovespa e o lançamento de serviços de pesquisa socioambiental”, sintetiza o executivo de marketing da Suzano Petroquímica, Roberto Ribeiro. Para ele, a necessidade de uma lei de responsabilidade social pode surgir à medida que o mercado e a sociedade e Governo estiverem maduros para tanto. E que as ISOs, NBRs e arrecadação de impostos que geram cumprem e oferecem boa parte dos benefícios que estão ao alcance das corporações.
Assine já!

Na Edição impressa
Indústria encontra dificuldades em contratar mão-de-obra qualificada
Petrobras investirá 87 bilhões em cinco anos
Presidente Lula dá início a construção de gasodutos
ANP comemora resultado de segunda "Rodadinha"
 

Todos os direitos reservados a Valete Editora Técnica Comercial Ltda. Tel.: (11) 6292-1838