Edição 285 • 2006

Refinaria do Futuro
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Viabilizar a diversificação de matérias-primas, o processamento de produtos com alta qualidade e a redução no impacto ambiental.O que norteia desenvolvimentos tecnológicos no refino?
Na lista de patentes solicitadas ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual está uma tecnologia para produção de um novo tipo de óleo diesel a partir de uma mistura de óleo vegetal com óleo mineral no processo de refino. Esse H-Bio, que a Petrobras pretende colocar em escala industrial ainda este ano, dá indícios do que poderá ser uma refinaria de petróleo daqui a algumas décadas: um complexo que irá processar diversas matérias-primas e gerar combustíveis de alta qualidade – e até energia elétrica – sem poluir o meio-ambiente.

Transformar uma série de matérias-primas em combustíveis já não é segredo para os pesquisadores. O desafio, no entanto, é viabilizar economicamente essas operações – e como as tecnologias de gaseificação de biomassa e resíduos ainda são muito caras, a opção continua sendo o processamento convencional de petróleo para obter energia.

O gerente geral da Área de Pesquisa e Desenvolvimento de Abastecimento do Centro de Pesquisas da Petrobras, Alípio Ferreira, explica que o conceito de “refinaria do futuro” diz respeito a um complexo que processa vários tipos de matérias-primas, com a menor geração possível de efluentes e resíduos, para produzir combustíveis ultra-limpos. “E todo tipo de resíduo, se não servir para produção de combustíveis, se transforma em energia elétrica”.
O Cenpes já trabalha numa linha de pesquisa de gaseificação de resíduos de petróleo voltada para a produção de gás de síntese. Isso porque o resíduo de vácuo apresenta um baixo percentual de aproveitamento. “O resíduo atmosférico gera, na torre de destilação à vácuo, um gasóleo – que é processado na unidade de craqueamento catalítico e gera gasolina. Já o resíduo de vácuo tem um uso extremamente limitado”.

Esse é apenas um dos projetos da carteira do Programa de Tecnologias Estratégicas do Refino – Proter, criado com o objetivo de desenvolver novas tecnologias para otimização do parque existente, mediante o aumento da conversão de frações residuais e maximização do volume de combustíveis de alto valor agregado. “A Petrobras tem uma série de projetos de tecnologias específicas que contribuam para o refino de petróleos pesados e ácidos, e para a produção de combustíveis de alta qualidade e de baixo impacto ambiental”, comenta o coordenador do Proter, Francesco Palombo.
Os investimentos em projetos de pesquisa vão desde as rotas não-convencionais para reaproveitamento de frações residuais até o biorrefino. “Quando se projeta uma unidade de refino, a expectativa é que ela vá operar por 20, 30 ou 40 anos. Por isso precisa ter uma tecnologia que vá atender a esse posicionamento no futuro”, explica Alípio Ferreira.

Em escala industrial

Uma das inovações apresentadas pelo Proter será implantada na Refinaria do Nordeste: uma unidade de coqueamento para processar o resíduo atmosférico. “A Refinaria do Nordeste é uma nova opção para alguns mercados que precisam mais de diesel – e o Brasil tem essa particularidade.”, explica o gerente da Área de Hidrotratamento e Produtos Especiais, Fernando Santiago.

Tradicionalmente o resíduo atmosférico segue para a torre de destilação a vácuo – de onde é tirado o gasóleo que alimenta uma unidade de FCC ou de coque para produzir gasolina e diesel. Pelo coqueamento retardado, não há produção de gasolina – em compensação, a produção de diesel aumenta 18% em relação ao esquema anterior, chegando a 63% de todo o petróleo produzido. “Se não vai produzir gasolina, a refinaria não precisa de FCC nem de torre de destilação à vácuo. O coqueamento retardado é alimentado pelo resíduo atmosférico”, explica Alípio Ferreira.

O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro irá estrear em escala industrial outra tecnologia desenvolvida no Cenpes: o FCC Petroquímico, uma revolução do FCC convencional – no qual o perfil de produção pode ser ajustado pela modificação da estrutura do sistema de reação e de regeneração do catalisador. As principais modificações de ordem operacional são o uso e temperaturas mais altas no reator e maior circulação do catalisador, o que configura uma severidade mais elevada, levando ao craqueamento das frações mais pesadas e à maximização do rendimento de olefinas leves. Além disso, o emprego de aditivos à base de zeolitas ZSM-5 contribui para a maior produção de olefinas leves.

Com isso, é possível aumentar em quatro vezes a quantidade de propeno e em até dez vezes a quantidade de eteno.

O desenvolvimento tecnológico feito no Cenpes conseguiu resultados únicos para o processamento dos petróleos nacionais do que outras tecnologias comercialmente disponíveis não atendem. “Houve uma avaliação de tecnologias, e o FCC Petroquímico foi selecionado por atender a produção de matérias-primas petroquímicas (eteno, propeno e aromáticos) e uma nafta altamente aromática”, comenta Oscar Chamberlain.

“Ter implantado e manter em operação unidades de FCC em dez refinarias, e ter aperfeiçoado o processo de FCC para cargas pesadas, deu à Petrobras uma capacitação que permitiu fazer modificações no processo, para que o FCC fosse usado para fazer petroquímicos”, completa Alípio.

O Complexo Petroquímico também terá uma unidade de hidroconversão – o gasóleo que iria para a unidade de FCC pode seguir para a HCC para gerar um diesel de alta qualidade. “O processo de hidroconversão junta o hidrotratamento e o coqueamento retardado. Pega o resíduo atmosférico e faz uma conversão com hidrogênio para produzir um diesel com teor de enxofre zero. Ao mesmo tempo em que converte o residuo, produz um combustível de altíssima qualidade”, conta Fernando Santiago.

Uma unidade dessa será implantada na Reduc, para produção de lubrificantes – será a primeira unidade dessa implantada no país. Mas a Petrobras quer desenvolver tecnologia de HCC para resíduos – para isso mantém parceria com uma empresa japonesa. “HCC de gasóleos já existem em larga escala. O HCC de resíduo é restrito – existem algumas plantas no mundo, mas em número reduzido”.

Outras tecnologias de processamento podem ganhar espaço dentro da refinaria. É o caso, por exemplo, da tecnologia de plasma – bastante utilizada para tratar resíduos orgânicos – ou o biorrefino – que refina o petróleo usando bactérias. “Você pode pensar em diversas maneiras de processar o petróleo de uma forma diferente do que se faz hoje – muito mais eficiente do ponto de vista energético”, avalia Francesco Palombo.

Qualidade

A refinaria que se preze não pode deixar de ter uma unidade de hidrotratamento para reduzir o teor de enxofre, compostos nitrogenados e outros contaminantes presentes nos combustíveis – de forma a reduzir o impacto ambiental da queima desses combustíveis dentro do motor.

Para fazer isso, só há uma rota: hidrogenação. “Você gasta um caminhão de dinheiro para melhorar a qualidade do produto. Mas se não tiver isso, não vende o produto”, explica o gerente da Área de Hidrotratamento e Produtos Especiais.

Enquanto o futuro não chega, cada unidade de processamento deve apresentar cada vez menores taxas de emissões de SOx, NOx, e CO2. “Nessa transformação, estamos estudando linhas de processamento nas quais procuramos reduzir as emissões para o meio ambiente. Uma das linhas de trabalho seria utilizar e reciclar esse CO2 – onde poderíamos converter mais cargas pesadas e capturar parte do CO2 para aplicação auxiliar na produção de petróleo através da recuperação avançada”, comenta o gerente de Tecnologia de Craqueamento Catalítico do Cenpes, Oscar Chamberlain.

O reciclo de CO2 na unidade de craqueamento catalítico, por exemplo, facilita a redução da formação de NOx e SOx.

No futuro, uma refinaria irá gaseificar vários tipos de matérias-primas (orgânicas, como cascas de banana ou de coco, e biomassa, ou até lixo). Aplicando calor, será possível transformar essas substâncias em um gás de síntese (monóxido de carbono e água), dando origem a combustíveis e outros produtos como a alcoolquímica.

Você lembra daquele filme “De Volta para o Futuro”? O carro inventado pelo cientista Doc Brown usava lixo como combustível. Ainda que nenhuma tecnologia tenha chegado a viabilizar a conversão de resíduos orgânicos em células combustível dentro do próprio veículo, a industria do petróleo já vê essa transformação ocorrendo dentro de uma refinaria nas próximas décadas. Daqui a duas décadas, a refinaria deve estar processando vários tipos de matérias-primas e produzindo, além de combustíveis, energia elétrica e hidrogênio – que pode vingar como combustível para transportes.
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