Edição 288 • 2006

O futuro da petroquímica
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Petroquímicas começam a testar tecnologias de craqueamento catalítico no lugar de pirólise, para processar cargas pesadas. Confirmação comercial de tecnologias de FCC Petroquímico trará nova contextualização ao setor.
Diante das perspectivas de crescimento da demanda de plásticos, a indústria petroquímica se concentra para colocar em operação novos projetos – só que colocar em operação novos projetos não significa apenas construir novas plantas: é imprescindível eqüalizar o fornecimento de matérias-primas.

E acesso a matérias-primas, pelo menos da forma habitual, já não é tão comum assim – devido ao esgotamento dos campos de petróleos leves, a qualidade e a quantidade de nafta oriunda do petróleo pesado já não apresentam boas expectativas para atender ao aumento da demanda futura dos petroquímicos.

A estratégia esquematizada por vários players tem sido construir plantas ao lado das fontes de matérias-primas de baixo custo, principalmente etano – tem sido assim com os projetos que estão sendo instalados no Oriente Médio – o que garante a competitividade desses investimentos.

Em outra alternativa, novas tecnologias foram desenvolvidas – algumas já com escala comercial – com o objetivo de produzir olefinas leves a partir de frações mais pesadas. “Com a pirólise não é possível craquear resíduos mais pesados, surgiram alguns processos com base no FCC. Essencialmente, muda-se o sistema de catalisador, aumenta a severidade, e promove-se algumas modificações no hardware, transformando a unidade em um FCC petroquímico”, explica o ex-presidente da Abiquim, Otto Vicente Perrone.

Os mais conhecidos são os processos Deep Catalytic Cracking – DCC e Catalytic Pyrolysis Process – CPP, desenvolvidos pela chinesa Sinopec e licenciados através da Stone & Webster. Outras iniciativas também despontam mundo afora – a própria Petrobras desenvolveu sua própria tecnologia de FCC Petroquímico, que será utilizada no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

A confirmação comercial dessa tecnologia significará – para a Petrobras ou para qualquer companhia que comprovar sua viabilidade comercial – mais do que a solução para o seu próprio problema: a empresa poderá transformar-se numa licenciadora de tecnologia. Isso porque as petroquímicas que hoje estão alocando seus recursos em regiões de alta turbulência geopolítica só por causa da matéria-prima, deverão redirecionar investimentos para a construção de unidades em locais mais pacatos ou mais próximos do mercado consumidor.

Isso sem contar que boa parcela do investimento vai ser pago com a diferença entre o preço do petróleo no mercado internacional – cerca de US$ 20 abaixo do barril brent – e a utilização como matéria-prima. “Existe uma lógica em torno disso, até sob aspectos estratégicos”, avalia o ex-presidente da Petrobras, Armando Guedes Coelho.

Até agora o FCC Petroquímico foi comprovado em escala protótipo – o teste comercial acontecerá só quando a Unidade Petroquímica Básica do Complexo Petroquímico estiver em operação. E nessa fase é provável que sejam necessários os “ajustes operacionais” – devido a falta de experiência com a operação em escala comercial.
“Precisamos considerar alguns dos fatores ótimos em termos de tamanho de equipamento, eficiência, etc”, ressalta o vice-presidente da Shaw Stone & Webster, Colin Bowen.

Tradicionalmente, o eteno e o propeno são produzidos pelo processo de pirólise – ou steam cracker – em centrais petroquímicas a partir de frações leves. O processamento se torna mais restritivo à medida que as cargas se tornam mais pesadas. “O steam cracker é a base da petroquímica no mundo: processa gás, etano, propano, nafta e gasóleo leve. Mas quando tenta processar frações mais pesadas, aumenta a formação de coque e outros compostos poliaromáticos”, conta Perrone.

Nesse ponto, ganha espaço a tecnologia do craqueamento catalítico fluido – já conhecido das refinarias para produção de combustíveis a partir de resíduos de vácuo. Adaptações nessa tecnologia têm permitido transformar resíduos em produtos petroquímicos.

“Certamente que, para países como o Brasil, que precisam importar nafta a altos preços, isso faz sentido. É uma alternativa tecnológica para obter matérias-primas”, avalia Colin Bowen.

Na China, seis unidades DCC já operam comercialmente – com destaque para uma petroquímica tailandesa, que produz propeno a partir de gasóleo de vácuo hidrogenado, para uma fábrica de polipropileno de escala mundial. O DCC apresenta um rendimento de propeno superior ao do FCC convencional, e produz uma nafta rica em compostos aromáticos.

O CPP – uma modificação do DCC com o objetivo de produzir mais eteno – ainda não tem experiências comerciais. Em planta piloto, apresentou rendimentos de eteno 24,3% e 14,7%, de propeno a partir de uma mistura de gasóleo de vácuo parafínico, com 30% de resíduo de vácuo. A nafta obtida apresenta cerca de 75% de aromáticos.

Além da Sinopec, outras empresas desenvolveram processos similares, como a tecnologia petroFCC, da UOP – que utiliza reciclo de catalisador no reator de FCC – a Indmax, da Indian Oil – com aumento da severidade em um FCC convencional – e o Superflex, da KBR – que utiliza um segundo riser, exclusivo para o craqueamento da nafta.

As principais mudanças do FCC Petroquímico em relação ao FCC convencional é o aumento da severidade – com o aumento da temperatura de reação (variando de 570ºC a 640ºC) e da relação catalisador/óleo, e a utilização de catalisadores a base de zeolitas ZSM-5.

O FCC é amplamente utilizado na Petrobras para geração de gasolina a partir de gasóleos e resíduos de vácuo. A companhia possui FCC de tecnologia própria com duplo riser em operação e tecnologia Donwflow em projeto.

O presidente da Petroquisa, José Lima de Andrade Neto, lembra que a tecnologia da FCC Petroquímico já foi confirmada pela Technip. “Estamos confiantes. Trata-se de um avanço, mas baseado em uma plataforma já conhecida nossa”.

“A Petrobras está qualificada nesse ranking porque é proprietária de um sistema de cracking catalítico chamado RFCC – e há muitos anos domina essa tecnologia, que usa cargas pesadas para produzir combustíveis, e tem unidades em duas refinarias produzindo propeno”, lembra Perrone.

O próprio Colin Bowen admite que, na corrida pelo desenvolvimento tecnológico, a Petrobras poderá ser uma licenciadora de tecnologia.
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