Edição 289 • 2006

Refluxo
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Nacionalização de reservas na Bolívia força Petrobras buscar novas fontes de gás natural para suprir mercado interno. Situação exigirá realinhamento de consumo.
O Decreto Supremo 28.701, assinado pelo boliviano Evo Morales em 1º de maio, significou mais do que a expropriação das reservas de gás natural na Bolívia. As prioridades agora são outras: a Petrobras – e o mercado brasileiro – têm buscado diversificar as fontes de oferta. Em resumo, o setor de gás natural atravessa um novo cenário.

O receio é que, até a Petrobras disponibilizar mais gás dos campos nacionais, a relação entre a demanda e a oferta possa ficar em desequilíbrio. Trata-se de uma equação não muito simples – que exigirá realinhamento de consumo com o crescimento da demanda. “A indústria não poderá crescer no mesmo ritmo que vinha crescendo – pelo menos até ter as novas ofertas de GNL importado e novas ofertas de gás que a própria Petrobras vai produzir internamente”, analisa o sócio-diretor da Gás Energy, Marco Aurélio Tavares.

Até o ano passado, o consumo de gás natural no país vinha apresentando taxas médias de crescimento acima de 19% – nesse ritmo, em 2010 o país estaria consumindo aproximadamente 100 milhões de m³ por dia. Mas, mesmo com todos os esforços da Petrobras, não haveria gás disponível para atender esse imediatamente aumento de oferta – principalmente nos próximos dois anos.

“Como conseqüência dessa expropriação na Bolívia, tivemos uma quebra de expectativa, de poder, rapidamente, incrementar a oferta em 22 milhões de m³ diários, que resolveriam um problema de transição entre a situação atual – de déficit de oferta – e a situação futura – já que, depois de 2010, o Brasil vai ter uma situação bastante confortável no suprimento de gás”.

“Estamos vivendo uma nova realidade no setor de gás natural. Essa nova sistemática de taxação reduzirá os investimentos na Bolívia. Isso acelerou o processo de obtenção de novas fontes – que sempre foi um objetivo da Petrobras”, avalia o ex-diretor da Petrobras, Antonio Luiz Silva de Menezes.
Para o executivo, a demanda continuará crescendo – mas não mais em 15% ao ano.

“Algum aumento de preço para o mercado interno deve dar uma realidade nos preços – processo que já vem ocorrendo desde setembro do ano passado, para evitar um crescimento muito acelerado”, completa Marco Aurélio Tavares.

Outra questão que terá que ser administrada é o despacho das usinas termelétricas. Segundo cálculos da Gás Energy, se todas as termelétricas do Brasil tiverem que operar ao mesmo tempo, serão necessários 42 milhões de m³ de gás por dia.

Nova política de preços?

Para viabilizar um rápido desenvolvimento da indústria de gás no Brasil e a ocupação do Gasoduto Bolívia-Brasil, a Petrobras montou uma agressiva política de preços. Deu certo: a demanda cresceu acima de dois dígitos por ano.

A realidade agora exige uma desaceleração. “Até o final desta década vai haver um estreitamento da oferta de gás – então não podemos seguir incentivando o consumo. A idéia é que isso possa dar uma realidade de preços, para que o mercado possa ter um desenvolvimento mais moderado”, argumenta Marco Aurélio.

Essa seria a oportunidade para os diversos agentes discutirem uma política de preços diferente da que vem sendo aplicada hoje. A precificação por origem – nacional ou importado – não é prática comum em outros países, que normalmente têm preços vinculados à sua utilização. “Tratam-se de mercados consumidores diferentes, que deveriam ter uma política comercial mais inteligente de forma a entender cada um desses segmentos”, explica Tavares.

“Seccionar dessa forma é um erro. Quem define o preço é o mercado comprador, e não a origem”, complementa Menezes.

Nessa equação – que considera os custos de produção e de transporte para formação do preço final – que a cadeia não é incentivada a buscar o gás em outros locais.

O consultor também defende a participação do Estado na construção da infra-estrutura de transporte – semelhante à atuação do Estado na construção das linhas de transmissão de energia elétrica. “Não precisa, necessariamente, ter empresas estatais fazendo gasodutos. Mas o Estado tem que garantir, até que haja um mercado de logística”, argumenta Menezes, citando o exemplo a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil.

Petrobras investirá US$ 18 bilhões para ampliar produção interna

Em resposta à crise na Bolívia, a Petrobras decidiu redirecionar investimentos priorizando o aumento da capacidade interna de produzir gás natural. A companhia irá ampliar para 40 milhões de m³ por dia a produção de gás em campos localizados em três bacias da Região Sudeste até 2008. Serão investidos US$ 8 bilhões para adicionar 16,7 milhões de m³ diários no Espírito Santo, 6 milhões de m³ na Bacia de Campos e 1,5 milhão de m³ na Bacia de Santos.

Em maio deste ano, a Petrobras revisou sua carteira de projetos de produção de gás natural, de forma a acelerar a entrada em operação de alguns campos. O Plangás – programa que visa a acelerar a implantação de projetos para aumentar a oferta de gás natural para a região Sudeste – prevê investimentos totais de US$ 18 bilhões no setor até 2010, quando a Petrobras espera estar disponibilizando 55 milhões de m³.

De acordo com o gerente de Planejamento de Produção de Gás, Mauro Sant’anna, só na região Sudeste serão oito grandes empreendimentos de exploração e produção – e a ampliação dos pólos de processamento de gás natural de Cacimbas / ES, Cabiúnas / RJ e Cubatão / SP. Um dos projetos que a empresa espera colocar em operação até o final de 2008 são os campos campos de Peroá, Golfinho, Canapu e o bloco ESS-164, na Bacia do Espírito Santo. Da Bacia de Campos virá mais gás associado ao óleo produzido por novas plataformas nos campos de Roncador e Marlim Sul e na área do ESS-130.

Já na Bacia de Santos a produção de gás natural chegará a 2,5 milhões de m³/dia com a interligação do campo de Lagosta e da área SPS-25 ao sistema de Merluza. Em 2009, o campo de Mexilhão, que terá capacidade para produzir até 15 milhões de m³/dia, entrará em produção – e no ano seguinte, será a vez dos campos de Uruguá e Tambaú.

O projeto de GNL prevê a aquisição de duas plantas de regaseificação instaladas em navios, com capacidades de 14 milhões m³ – para a região Sudeste – e 6 milhões de m³ – na região Nordeste. As duas unidades poderão entrar em operação em janeiro de 2009. Outro ponto é a instalação de 180 km de gasodutos – com a ampliação do Campinas-Rio, Duque de Caxias-Japeri, Cabiúnas-Duque de Caxias, Cacimbas-Vitória e o Vitória-Cabiúnas.
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