Revista Controle & Instrumentação
Edição nº 69 Maio de 2002
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Cover Page
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| Cagece é referência no Nordeste
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Em Fortaleza, quando alguém está sendo pressionado por qualquer
motivo costuma-se dizer a seguinte expressão: “O pau canta pra cima
de mim”. Essa situação costumava acontecer com uma certa freqüência
em alguns departamentos da Cagece - Companhia de Água e Esgoto do
Ceará - responsável pela distribuição de água e coleta de esgoto em
95% do Estado, ou o equivalente a 153 municípios. Nas estações elevatórias
e departamentos de manutenção, por exemplo, o “pau cantava” sempre
que os usuários ligavam no telefone 195 para reclamar de falta de
água. Também havia o problema de derramamento de água na estação de
distribuição e estouro de adutoras devido a altas pressões na rede.
O problema começou a ser resolvido, mais intensamente, quando a Companhia
decidiu, há cerca de três anos, investir num poderoso plano de modernização,
composto por um Centro de Controle Operacional (Cecop) e automação
de 28 unidades operacionais. O número de intervenções no sistema chegou
a 20 e mais de 60 válvulas foram instaladas. O investimento fez a
Cagece virar referência no Nordeste como uma das mais modernas da
região e, dentro do setor de saneamento, como uma das mais eficientes.
Antes de descrevermos como foi esse projeto, vamos conhecer um pouco
sobre o sistema de distribuição de água em Fortaleza e região metropolitana.
A água que abastece o sistema é proveniente do complexo de açudes
Gavião, Riachão, Pacuti, Pacajus e Orós, este último é o maior do
sistema com capacidade de 2 bilhões de m³. Encontra-se em construção
o Açude Castelão que terá capacidade para 6 bilhões de m³. Depois
que a água é tratada segue para os reservatórios de Mucuripe e Ancuri,
localizados à uma altitude de 100 metros, em relação ao nível do mar
e onde é distribuída pelo sistema pela queda de gravidade. Em geral,
o sistema opera com uma vazão média de 6.200 litros m³/s, enquanto
que o consumo oscila na dos 5 mil litros de m³/s. A população atendida
está na casa dos 2,5 milhões de pessoas. Segundo números da própria
Cagece, a companhia tem hoje a terceira tarifa mais barata do país.
Arquitetura do sistema
Inaugurado em 1998, o Cecop - Centro de Controle Operacional - foi
implantado em 1998 e é composto por dois microcomputadores Pentium
(principal e back up), ambos dotados do sistema supervisório Aimax
da Smar, um rádio modem redundante, unidade no-break, impressora de
relatório e uma torre de comunicação de dados.
O Cecop comunica-se com 28 unidades operacionais divididas entre estação
elevatória e válvulas reguladoras de pressão. Cada estação (UTR) é
dotada dos instrumentos de campo: transmissor de pressão, medidor
magnético de vazão, analisador de cloro residual, medidor ultrassônico,
transdutor de corrente, fator de potência e temperatura; e do painel
com o controlador LC 700 da Smar, unidades de alimentação e comunicação
de dados.
O Hart foi o protocolo adotado nas UTRs para comunicação entre os
instrumentos de campo e o controlador. Entre o supervisório e o controlador
do Cecop, a comunicação dá-se através do protocolo Modbus. Tudo o
que acontece no sistema pode ser visualizado no nível de gerência
e diretoria. Mas, apenas o Cecop detém a autonomia de interferência
no sistema. O trabalho de campo também é acompanhado pelo técnico
em manutenção, José Edenaldo Lucas, através de um notebook conectado
ao sistema.
A varredura das 28 UTRs opera numa freqüência de 902 a 920 MHz. “São
oito camadas do ar para a operação do sistema que escolhe sempre a
melhor para a transmissão dos dados”, Ubiratan Augusto Ribeiro, programador
de computador da Cagece. Segundo ele, o ciclo de varredura não demora
mais que 28 segundos. “A todo instante nós sabemos o que está acontecendo
em cada estação. Daqui nós conseguimos saber, inclusive, se uma pessoa
não autorizada abriu o painel de controle”.
No momento que estávamos realizando esta reportagem, a UTR de nº 7
soou sinal de alarme por diversas vezes. É que entre essa unidade
e o Cecop foi construído um prédio há pouco tempo, o que interrompeu
a comunicação entre os dois pontos. Para resolver o problema, a Cagece
está providenciando a instalação de uma repetidora para ser instalada
em uma outra unidade operacional que receberá o sinal da UTR nº 7
e remeterá para o Cecop.
“Antes da automação havia muitas perdas de água no sistema”, lembra
Ubiratan destacando os benefícios que a população de Fortaleza ganhou
após a inauguração do Cecop e automação das 28 unidades operacionais.
“Estamos gerenciando melhor nossa distribuição. Às vezes chegávamos
para trabalhar e o computador registrava apenas um pequeno filete
de água nos tanques”. Com a automação, a Cagece também conseguiu gerenciar
melhor o racionamento de água, caso haja necessidade. “Antes da automação
era preciso a comunicação entre operadores via rádio ou telefone para
que as unidades fossem sendo fechadas ou abertas”.
No relatório diário, o supervisório acumula todas as informações geradas
pelas unidades operacionais. A cada intervalo de hora o sistema acumula
informações e fornece a média das variáveis desejadas.
Recentemente, a equipe de automação da Cagece detectou a necessidade
de instalar 18 novos medidores de vazão para mapear as perdas do sistema.
A companhia também está projetando o seu sistema de automação na parte
de esgoto. Em 1997, a Cagece fez a aplicação de um sistema de automação
que não deixou os técnicos muito contentes. A intenção é adotar um
sistema semelhante ao que foi implantado pela Smar na parte de distribuição
de água, onde os técnicos ficam livres para realizar alterações no
sistema.
Também com o apoio da Smar, a Cagece, em breve, deve implantar uma
nova ferramenta para detectar pontos de perdas no sistema. A ferramenta,
baseada em software, é a mesma encontrada em algumas plantas da Petrobras
para detecção de vazamentos. |
| Sistema de Fortaleza opera numa vazão de 6.200 litros
m3 |
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Integração da elétrica com a hidráulica
Para o engenheiro Renato Rolim, gerente de energia e automação da
Cagece, o plano de modernização da companhia trouxe um complemento
a um trabalho que já vinha sendo desenvolvido, que é a troca de informações
entre técnicos da área elétrica e hidráulica. “Estudamos, por exemplo,
todo o monitoramento das grandezas nas estações. A automação proporcionou
à companhia um melhor gerenciamento da parte elétrica e hidráulica,
uma vez que tem-se à disposição dados das duas áreas”.
“Hoje não estamos investindo tão pesado na parte de contratação de
pessoal e manutenção porque temos uma rede com pressões estáveis necessárias
para cada localidade”, disse Rolim, ressaltando que com o monitoramento
foi possível aumentar a oferta, ao mesmo tempo em que se reduziu a
vazão. Ele explica que aumentou-se o número de clientes, mas houve
uma redução significativa de bombeamentos, o que também resultou numa
economia de energia elétrica.
“Através da automação pudemos perceber a possibilidade de desligar
três estações de bombeamento em Fortaleza. O sistema mostrou que tinha-se
pressão, a montante das estações, superior a pressão necessária para
a distribuição”, cita Rolim como exemplo. Com o projeto de automação
implantado na parte de distribuição de água, Fortaleza terá a economia
de 1 MW/mês de energia, o que resulta em R$ 40 mil/mês ou R$ 480 mil/ano.
“Vamos deixar de gastar energia no horário de ponta”.
Devido aos resultados apresentados, os técnicos e gerentes da Cagece
estão sendo convidados para realizar várias palestras por empresas
de saneamento do país. A Cagece também está integrando o grupo de
eficientização energética da Eletrobrás, devido ao modelo de otimização
apresentado em seus equipamentos. Com a crise energética houve um
despertar das empresas de saneamento para essa questão. Para o dimensionamento
dos reservatórios, hoje, por exemplo, leva-se em consideração a utilização
da energia elétrica nos horários de ponta.
Verdades sobre o inversor de freqüência - Renato Rolim chama
a atenção para a forte propaganda que se faz no uso de inversor de
freqüência. “Nem sempre é verdade a economia de energia com o uso
de inversor de freqüência. Tem muito marketing por trás do equipamento.
É preciso estudar a curva da bomba, do sistema e da aplicação. Na
Cagece sempre usa-se o inversor levando-se em consideração a característica
de operação da subestação, como também o custo benefício. Não é interessante
usar um equipamento que se pague em oito ou dez anos”.
A Cagece chegou a conclusão que o inversor tem o custo de investimento
e manutenção muito mais caro que a redução mecânica de velocidade.
A preferência da Cagece é utilizar os softers starters. O inversor
de freqüência geraria harmônicas que podem danificar equipamentos
elétricos vizinhos. Essas e outras questões técnicas são concluídas
em cursos e artigos publicados em revistas.
Como foi implantado o projeto
Antes de implantar qualquer instrumento em suas estações, a Cagece
não se preocupou em gastar tempo para elaborar um projeto de automação
que atendesse perfeitamente às suas necessidades. O primeiro passo
foi conhecer sistemas de automação que fossem referência no mundo.
“Visitamos o sistema de saneamento de Lisboa, interior de Portugal,
Barcelona e Israel”, lembra Antonio Norberto Benevides, diretor de
operações da Cagece. Ele conta que alguns fornecedores de soluções
chegaram até a realizar palestras nas dependências da companhia. O
passo seguinte foi observar como os projetos de automação são desenvolvidos
no Brasil. Nesse ponto, a Cagece teve um pioneirismo porque rejeitou
projetos turn key. “Quando se contrata uma empresa para realizar um
projeto turn key, o fornecedor acaba ocupando um espaço que deveria
ser seu”, argumenta o diretor de operações. Ele também destaca as
várias falhas que ficam encobertas devido ao curto espaço de tempo
para análise de projetos turn key. A Cagece decidiu, então, contratar
apenas um modelo de automação, elaborado pela Scai Automação, e discuti-lo
internamente. “Resolvemos não marcar tempo para discutir esse projeto.
Conversamos sobre o que nós queríamos em termos operacionais”. Durante
a discussão foram identificadas todas as unidades onde houvesse a
necessidade de intervenção de equipamentos automáticos. O universo
focado foi apenas o macro-sistema de distribuição de água de Fortaleza,
onde incluía-se as estações elevatórias, as válvulas redutoras de
pressão, adutoras, sub-adutoras e barriletes distribuidores. Em cada
uma dessas unidades foram especificados quais instrumentos seriam
necessários, assim como a comunicação e intervenção do Cecop.
Depois de cinco meses discutindo o que seria melhor para a operação
de distribuição de água da Cagece, só então, foi realizado o processo
de licitação. “Desta forma, pudemos ter um quadro orçamentário detalhado
de quanto iria custar o projeto, cronograma detalhado das atividades
e listagem de equipamentos e instrumentos”, diz Norberto com um ar
de satisfação. “Muitas informações não seriam possíveis caso fosse
adotado o modelo turn key”.
Como o projeto foi muito bem estruturado, a Cagece se sentiu segura
para realizar o processo de licitação e contatar a Caixa Econômica
Federal para a obtenção dos recursos, na época, da ordem de US$ 2,4
milhões. “Nós fomos muito felizes no modelo que adotamos e tivemos
sorte da Smar ter ganhado a concorrência, que entre os benefícios,
nos ofereceram mais de duas semanas de treinamento”, disse.
O resultado da automação empregada na Cagece pode ser observado nas
diversas visitas que a empresa vem recebendo. Diretores e técnicos
em saneamento da Bahia, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do
Norte e Pernambuco já estiveram visitando as instalações da Cagece
para conhecer seu sistema de automação.
“A automação é um universo infinito, mas é preciso saber o que se
quer. Eu posso ter informações metro a metro de uma tubulação, mas
a que custo teremos essas informações?”.
Projetos futuros
A Cagece tem vários projetos futuros, entre eles a automação de várias
unidades operacionais de distribuição de água e coleta de esgoto.
Alguns desses projetos já estão definidos pela diretoria de operações
da companhia.
O Estado do Ceará é dividido pela Cagece em oito unidades de negócios.
Cada uma dessas unidades tem, em média, 30 sistemas operacionais.
Uma idéia futura é ter um Centro de Monitoramento junto à sede da
empresa que receberia informações, on-line, das oito unidades de negócios.
Se for observada a área de concessão da Cagece, o projeto é audacioso,
mas não é impossível. Pelo que foi constatado na empresa, os funcionários
querem estar sempre sintonizados com o que há de melhor na tecnologia
mundial e, extrair dela todos os benefícios possíveis. |
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