Edição 235 – Março de 2002 – Revista Petro & Química
Atuação responsável: de olho nos próximos dez anos
Às vésperas do décimo aniversário, o programa Atuação Responsável começa a rever seus desafios. Se os primeiros dez anos serviu para que o programa fosse assimilado pela indústria química brasileira, a meta a partir de agora é voltar as atenções para a gestão e a cadeia de valor. “Nos primeiros dez anos, estávamos arrumando a casa, fazendo com que as indústrias químicas brasileiras implementassem o Atuação Responsável, que adequassem os pontos mais críticos. Estabelecido este parâmetro, agora temos que entrar na gestão e na cadeia de valor através de seus produtos”, explica Marcelo Kós, gerente do departamento de Assuntos Técnicos da Abiquim.

Kós explica que, desde o início do Programa, em 1994, a imagem da indústria química e de seus produtos melhorou, até mesmo devido à conscientização da importância da química para a vida do ser humano. Os resultados da pesquisa de Imagem da Indústria Química realizada junto ao público e alguns grupos de formadores de opinião pública entre 2000 e 2001 mostram que, para 86% dos entrevistados, a indústria química ajuda a melhorar a qualidade de vida. O objetivo da pesquisa é identificar não apenas a imagem das empresas do ponto de vista de seus vários públicos – clientes, comunidade, funcionários – e a dissonância com a situação real, mas também o que seria necessário fazer, na visão dos entrevistados, para que a imagem se alterasse.“A pesquisa que fizemos foi com o público mais próximo das unidades de produção e com formadores de opinião. Precisamos fazer um esforço para mostrar os produtos, as pessoas continuam a ter restrições, mas de dez ítens sem os quais as pessoas não conseguem viver, os cinco primeiros são produtos químicos”.

A imagem de fábrica perigosa ou poluidora, segundo o coordenador, hoje não passa de um mito na cultura da população. “Existe uma má imagem associada à indústria química, mas podemos afirmar que é falta de informação. O impressionante nessa história é que ainda se associa a indústria química com a poluição. E isso acontece por falta de informação, um conceito pré estabelecido. Isso só comprova que temos que mostrar mais o que estamos fazendo, que a química faz parte da vida, e que as indústrias têm riscos controlados”.

Há dez anos, a maioria das empresas (80%) viviam uma situação que Kós denomina “selvagem”. 10% cumpriam a lei e as 10% restantes eram pró-ativas, se posicionando à frente das leis e necessidades. “Hoje, 80% são cumpridoras da lei, em diferentes estágios, mas já têm programas, e 10% estão com a totalidade das práticas implantadas e são pró-ativas em relação ao meio ambiente, trabalham com critérios de excelência e têm responsabilidade social”.

“Cumprir à risca o programa significa um necessário retorno sobre um investimento, beneficiando as futuras gerações”, avalia Heinz Mayer, coordenador da Comissão de Atuação Responsável.

Segundo Mayer, o Programa de Atuação Responsável é importante e indispensável por muitos motivos, dentre os quais destaca o respeito ao meio ambiente, a segurança e boas condições de trabalho, a saúde dos colaboradores, das comunidades e de todos aqueles que direta ou indiretamente usam seus produtos químicos.

Na próxima década, a principal preocupação vai ser o produto – se são seguros, tóxicos, ou necessários. “Não estamos mais preocupados com o projeto da fábrica, isso está resolvido. A atenção agora é quanto vale a indústria – que pode ser super segura mas ter produtos que não interessam, são tóxicos, ou causam alergias”.

Para se ter uma idéia, nem 10% dos produtos químicos têm suas características toxicológicas inteiramente conhecidas. “O estudo dessas substâncias está sendo levado a cabo em todo o mundo sob o nome High Production Value, que deve esmiuçar até 2004 cerca de mil produtos”, conta Kós.
Kós: desafio é voltar as atenções para a gestão e a
cadeia de valor.
Conceito de sustentabilidade empresarial

O novo modelo de desenvolvimento sustentável proposto pelo grupo de Atuação Responsável inclui os direitos humanos agregado aos cuidados ambientais. “Para as empresas serem sustentáveis nos próximos anos, cada vez mais o lado social vai ter que entrar em jogo, como aconteceu anos atrás, em que a definição de ser responsável era cuidar do meio ambiente, da saúde e da segurança. Agora o conceito de responsabilidade passou a envolver a responsabilidade social”.

E a Abiquim tem feito seu papel de coordenadora, tanto que recusou a renovação de filiação para cinco empresas que não estavam cumprindo com o Programa de Atuação Responsável. Para Marcelo Kós, como a gestão de segurança, meio ambiente e saúde são fatores de competitividade, as empresas sabem o que representa ser “expulso” da associação por não se comprometerem com o Atuação Responsável. “Isso reforça a credibilidade do programa e de quem o cumpre”.

Durante estes anos temos evoluído significativamente na adaptação da Akzo Nobel aos diversos códigos componentes do programa, o diretor Antonio Rollo vê a empresa pronta para atender o Sistema de Verificação que estará sendo implementado.

“Também entendemos que muito ainda tem que ser feito e já estamos voltados para programas relacionados a Responsabilidade Social e Desenvolvimento Sustentado, atuando diretamente junto à nossa comunidade, buscando uma integração harmoniosa nas relações regionais”.

Avaliação por terceiros

A Comissão de Atuação Responsável da Abiquim está preparando os primeiros casos de Avaliação por Terceiros, a exemplo do que acontece em países como EUA, Canadá e Austrália. Essas nova prática baseia–se num sistema de avaliação externa, no qual participam, além dos próprios funcionários, técnicos da própria Associação e indivíduos da comunidade. A associação deve credenciar as certificadoras e manter uma equipe interna para coordenar os trabalhos. “Quando começamos algo desse tipo, a estrutura tem que estar preparada porque é muito trabalho. Um grupo de empresas certificadoras que vai fazer o trabalho, mas só a coordenação demonstrou que avaliar as 157 empresas associadas, mesmo que seja num intervalo de dois anos, demanda cerca de oitenta avaliações por ano, não é um processo simples”.
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