|
MATÉRIA DE CAPA Edição
249 - junho de 2003
|
| Quem vai bancar por Flávio
Bosco |
|
|
| Com as projeções indicando estrangulamento entre oferta e demanda
de derivados, Petrobras lança o maior investimento da história. Governo
busca atrair sócio privado para complementar oferta. |
Caso o crescimento do Produto Interno Bruto apresente uma média
de 3,1% entre 2003 e 2010, a demanda interna por derivados deverá
passar dos atuais 1,7 milhões de barris diários para 2,2 milhões de
barris / dia – um crescimento médio de 2,8% na demanda.
A maior parte dessa demanda será atendida pela própria Petrobras,
que vem investindo US$ 5,5 bilhões na conversão e confiabilidade de
suas refinarias. Mesmo assim, ainda haverá espaço para uma unidade
de refino com capacidade de 150 mil barris diários. “Atualmente, temos
capacidade instalada para processar a ordem de 1.800 mil barris diários,
com rentabilidade. Com a ampliação na capacidade, melhorias em confiabilidade
e modernização tecnológica, poderemos alcançar um total de 2.080 mil
barris/dia – ou 1.900 mil barris, se levarmos em conta um fator usual
de utilização das instalações, da ordem de 90% a 92%”, conta Eider
Aquino, diretor de Refino da Petrobras.
Ou seja, ainda haverá uma diferença de cerca de 292 mil barris entre
a oferta e a demanda. “Nesse espaço cabe uma nova refinaria com capacidade
de 150 mil barris – para ser rentável. E o que faltar no mercado é
atendido através de trading”, explica Eider.
Esses são os dados mais recentes sobre o cenário do refino nacional,
disponibilizados pela Petrobras. Divergem um pouco sobre o estudo
realizado encomendado pela ANP à consultoria Booz Allen & Hamilton.
“O estudo encomendado pela ANP utilizou dados relativos ao período
1996-2000. Havia números de crescimento que foram projetados mas que
não se confirmaram em 2001 e 2002. E a Petrobras, que participou do
estudo, disse, na época, que os investimentos iriam aumentar marginalmente
a produção de suas refinarias – algo que talvez não chegasse a 50
mil barris”, explica Sebastião do Rego Barros, diretor-geral da ANP.
Na década passada, o consumo de derivados apresentou taxa de crescimento
médio de 4,5% ao ano – atingindo 1,8 milhão de barris em 2000. É justamente
a partir de 2001 que os números registram uma redução de 5,2% no consumo
de gasolina e de 2,8% no consumo de GLP – resultado principalmente
do aumento de preços no período. Houve crescimento apenas na demanda
por diesel – de 8,3% - devido principalmente à importância do modal
rodoviário no transporte de cargas.
Rego Barros lembra que este estudo da ANP está passando por uma atualização.
“Fizemos nosso estudo com uma média de crescimento da economia de
2,7%. É muito possível, e desejável, que o Brasil venha crescer mais.
Então este é um tema que não podemos deixar de discutir”.
Risco de desabastecimento?
Os números da Agência Nacional do Petróleo indicam, em 2001, a importação
de 315 mil barris diários de derivados – especialmente diesel, nafta
e GLP – contra uma exportação de 173 mil barris diários – principalmente
de gasolina e óleo combustível.
O diretor da ANP ressalta a fragilidade causada pela dependência da
importação de derivados. “A ANP insiste que a sociedade brasileira
leve em conta a necessidade de se atrair investimentos no refino para
que o Brasil não seja um país demasiadamente dependente da importação
de derivados. Nosso nível de dependência hoje é pouco superior a 10%,
o que é o limite daquilo que devemos considerar como seguro”.
Sem novos investimentos, Rego Barros prevê que o nível de dependência
externa ultrapasse a casa dos 30%. “Isto significa não só um gasto
grande em importação de derivados, mas também deixar de investir no
país, criar empregos e absorver tecnologias. E, do ponto de vista
de segurança, podemos ter situações muito difíceis”, explica o diretor
da ANP.
De qualquer forma, uma nova refinaria deve apresentar um alto grau
de complexidade – contemplando unidades de destilação, coque, hidrotratamento
e hidrocraqueamento catalítico para processar o petróleo nacional.
Governo busca atrair sócio privado
O grande problema é encontrar um investidor para bancar US$ 2,3 bilhões
na construção de uma refinaria com capacidade para processar 150 mil
barris diários – ou US$ 2,8 bi numa unidade de 200 mil barris, como
contabiliza o Ministério de Minas e Energia. “Não podemos achar que
a quantidade de recursos exigidos vai ser exclusivamente bancada pelo
Governo Federal”, diz a ministra Dilma Rousseff (Minas e Energia).
A atividade de refino apresenta as menores margens de lucro da cadeia
do petróleo – embora seu risco seja proporcionalmente menor do que
a exploração. A taxa de retorno de uma unidade de refino geralmente
gira entre 12% e 15% – muito menor quando comparada com as atividades
de exploração e produção, proporcional ao seu grau de risco. |
|
|
Os últimos dados disponíveis apontam uma capacidade mundial de
refino da ordem de 82 milhões de barris /dia, para atender a uma demanda
de 74,5 milhões de barris. É em meio a esse cenário de ociosidade
na capacidade de refino no mundo que o Governo estuda formas para
atrair o capital privado. O primeiro desafio é garantir regras claras
e estáveis. “Um investimento em refino é alto e de longo prazo. Como
o investidor vai querer colocar seu dinheiro onde o governo controla
os preços? Amanhã o governo pode querer controlar os preços para baixo,
para controlar a inflação”, questiona o professor Adriano Pires, do
Centro Brasileiro de Infra Estrutura.
Pires ressalta que um novo investimento pode não ser definido neste
momento. “A modernização que a Petrobras vem fazendo em suas refinarias
é suficiente para atender nossa necessidade. A discussão sobre investir
em uma nova unidade fica para o próximo Governo – seja do próprio
Lula ou outro Governo”. Mesmo assim, a hora é oportuna para atrair
investidores: mesmo que dados indiquem um excesso de capacidade de
refino no mundo, o parque instalado favorece mais a produção dos chamados
derivados escuros – ao passo que a demanda crescente é por derivados
claros.
Projeções da consultoria Pira apontam o estrangulamento da oferta
de gasolina, diesel e QAV nos EUA, Europa e América Latina – havendo
sobra desses derivados apenas na Rússia. Já no caso dos derivados
escuros, as projeções são de excesso de produção na América Latina
e Rússia – e demanda nos EUA.
A tendência natural seria os países da América Latina atenderem à
demanda americana, mas os investimentos em ampliação na capacidade
de refino nessa região ainda são tímidos. “Temos que dar ênfase à
produção de derivados claros – e isso abre perspectivas para o Brasil
que, tendo petróleo e tendo esse mercado, apresentará rentabilidade
para construir a refinaria”, avalia Eider.
O diretor de Refino da Petrobras explica que o Brasil é dos poucos
países que, mesmo com mercado acima de 1 bilhão de barris diários,
apresentará taxa de crescimento acima de 1,8% entre 2003 e 2010. “Estamos
numa situação impar: temos mercado e crescimento do mercado. Isso
permite criar condições estruturais para buscar investimentos em refino.
Porque não vai ser fácil obter derivados claros, uma vez que haverá
déficit desses produtos”.
E, com investimentos menores – de cerca de 60% do valor total de uma
unidade nova – várias companhias estudam converter suas unidades de
refino para atender aos novos padrões de consumo, às questões ambientais
e especificações de qualidade dos combustíveis. “A tendência é as
empresas investirem em conversão. A Petrobras não é a única inteligente
do mundo”, pontua Adriano Pires.
Localização ainda indefinida
Outro problema é determinar a localização dessa nova unidade. Por
ser um pólo indutor de desenvolvimento, vários Estados reivindicam
sediar a nova refinaria. “Esta será uma questão que terá dois componentes
para embasar a decisão: a viabilidade da produção naquele local, a
proximidade com o mercado consumidor e com a produção; e o fato de
que esses projetos implicam na possibilidade de levar o desenvolvimento
regional a determinados Estados ou a um conjunto de Estados de uma
região”, enfatiza Dilma.
A ministra explica que nenhum investidor irá aplicar US$ 2,8 bilhões
em um projeto dessa natureza, se não houver viabilidade técnica e
econômica consistente.
Representantes de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão,
Piauí, Sergipe, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina já
procuraram o Ministério e a Petrobras para atrair o investimento.
O Rio de Janeiro foi mais longe: assinou, com a Andrade Gutierrez,
KBR e Sondotécnica, o protocolo para desenvolvimento do projeto de
estruturação para implantação de uma refinaria na região norte do
Estado – próxima à produção da Bacia de Campos. “O lucro que a Petrobras
obteve no primeiro trimestre deste ano daria para construir uma refinaria.
Se continuar assim até o final do ano, seriam quatro refinarias. Como
o investimento não é feito de uma vez só, eu creio que nós teremos
uma refinaria", argumenta a governadora do Rio, Rosinha Matheus.
A decisão final, no entanto, deverá ser tomada levando-se em conta
uma série de fatores. “A refinaria ideal é aquela que está próxima
da produção de petróleo, próxima do mercado consumidor, e que faça
o produto que o mercado está precisando. E os incentivos fiscais complementam
essa conjunção de fatores para determinar a localização”, explica
Eider Aquino. |
|
|
Ed. 249 - junho de 2003
|
|
|
|
VEJA MAIS
|
Matéria de Capa 2
Quinta Rodada cheia de novidades
Art
Artigos Técnicos
|
|
NA EDIÇÃO IMPRESSA
|
|
Petro & Química - Edição
249
|
|
Seminário discute papel de agências
Petrobras adapta refinarias ao petróleo nacional
Brasil OffShore reafirma Rio no calendário internacional
de eventos
Congresso reúne pesquisadores ligados ao setor de petróleo
Rio de Janeiro tributa produção de petróleo
Shell prepara produção em Bijuoirá-Salema
Embarcações de apoio movimentam indústria naval
E muito mais...
|
|