|
As recentes descobertas de óleo leve e gás anunciadas
pela Petrobras não ocorreram por acaso aliás
nada no mundo do petróleo ocorre por acaso. Mas, nesse caso
em especial, muito esforço foi despendido pelos exploracionistas
da Petrobras, alguns deles vinculados ao Programa Tecnológico
em Fronteiras Exploratórias Profex.
No passado recente foram descobertas grandes reservas de óleo
pesado. Algumas localizadas em águas profundas, onde os desafios
de produção são maiores do que aqueles das
reservas localizadas em águas rasas ou em terra. Então
a Petrobras, através do Programa, passou a desenvolver tecnologias
para entender a degradação do óleo, conta
o coordenador do Profex, Ciro Appi.
Um dos principais desafios do óleo pesado encontra-se ainda
na fase de produção: primeiro porque não se
consegue extrair do reservatório o mesmo percentual de óleo
quando comparamos com os campos de óleo leve. E depois porque
se gasta muito mais energia para transportar óleo viscoso
até as plataformas.
O primeiro passo foi estudar a degradação do óleo
e quais as variáveis ligadas ao comportamento geológico
da área. E a partir daí tentar evitar as áreas
onde esse comportamento pode estar presente.
Uma das linhas de pesquisa nessa área será entender
melhor o processo de biodegradação por bactérias
presentes nos reservatórios. Algumas espécies desses
microorganismos chamam a atenção dos pesquisadores
porque vivem em condições inóspitas e se alimentam
dos compostos mais leves do petróleo e não
de oxigênio, como a maioria dos seres vivos.
Um trabalho conjunto envolvendo a UFRJ, UFRN, Fiocruz e pesquisadores
das áreas de biotecnologia e geoquímica do Cenpes,
quer identificar os fragmentos de DNA das bactérias responsáveis
pela degradação do petróleo. Tentando
isolá-las para estudar o seu DNA e entender sua função,
conta o coordenador do Profex.
Batizado por Genopetro, o trabalho está na fase de leitura
do código genético de alguns microorganismos já
isolados. Na seqüência, os pesquisadores tentarão
reproduzir as bactérias e colocá-las em contato com
o óleo para identificar quais são responsáveis
pela biodegradação. Os primeiros resultados dessa
fase são esperados para o final deste ano.
A segunda parte desse projeto, no entanto, está condicionada
a esses primeiros resultados. Se os pesquisadores conseguirem isolar
um tipo de organismo que se alimente com a parte boa
do petróleo, o trabalho será tentar reverter essa
função e então aumentar os índices
de recuperação desses reservatórios.
Carteira de projetos
Esse, no entanto, não é o único projeto desenvolvido
no âmbito do Profex: uma carteira de seis grandes projetos
estuda desde a predição de ocorrência e qualidade
de reservatórios até sísmica 4C tudo
para dar suporte ao processo exploratório da companhia.
Criado em 1996, o Profex já acumula algumas conquistas desde
então com destaque para os projetos de predição
da acumulação de hidrocarbonetos em corpos turbidíticos,
e de reexploração de áreas produtoras. A
Petrobras trabalha com o que existe de mais moderno em exploração
existem até tecnologias que as outras companhias não
estão desenvolvendo, conta Ciro Appi.
Nos últimos dois anos, foram investidos R$ 9 milhões
no desenvolvimento de tecnologias e know how valor que poderá
ser maior a partir deste ano, quando a carteira deverá ser
ampliada. Os ganhos, no entanto, nem sempre são facilmente
mensuráveis. Se for considerar o que a metodologia
desenvolvida acrescenta a uma descoberta, os ganhos são múltiplos,
comenta o coordenador do Profex.
Outro ganho, mais indireto, é a interação com
a comunidade acadêmica com a criação
de redes reunindo universidades e centros de pesquisas.
Predição de ocorrência e qualidade
Dos projetos em andamento, um deles tem foco na construção
de um modelo geológico voltado para a predição
da ocorrência e da distribuição de reservatórios
de boa qualidade.
Tentar predizer a ocorrência e a qualidade de reservatórios
não é um assunto novo. A evolução está
na utilização de ferramentas de predição.
Para isso, os pesquisadores recorrem a técnicas sofisticadas,
como geocronologia e traço de fissão o material
coletado da rocha é submetido a uma irradiação
que mostrará os traços que informam os esforços
e temperaturas a que essa rocha foi submetida.
Atualmente os pesquisadores vêm estudando a ocorrência
e a qualidade na margem equatorial do Brasil um grande desafio
para a Petrobras, por representar uma imensa área onde até
agora os resultados apresentados são modestos em comparação
com os da margem leste.
Em função desse trabalho, está sendo criada
uma rede de estudos geodinâmicos entre várias universidades
brasileiras, que receberão equipamentos de datações
geocronológicas.
O laboratório mais sofisticado será montado na Universidade
de São Paulo onde será instalada uma micros-sonda
iônica de alta resolução. Inédita no
Brasil, esse equipamento conhecido como Shrimp irá ler a
parte sólida.
Outros três laboratórios serão montados com
espectrômetros de massa com plasma induzido e laser ablation
ICP-MS, na Universidade de Brasília, e nas Universidades
Federais do Rio Grande do Sul e do Pará, para ler a parte
líquida e gasosa.
Na UFRGS, está sendo construído um tanque simulador
de fluxos gravitacionais de Alta Densidade, para simular as condições
de formação dos depósitos turbidíticos.
Um primeiro protótipo desse tanque simulador foi construído
na Universidade há dois anos.
Até mesmo a atividade de perfuração tem sido
tema do Profex. Porque a Petrobras já perdeu poços
em águas profundas ao atravessar grandes espessuras de sal,
onde o fluído de perfuração hidratou a rocha,
que migrou, comprimindo o revestimento de aço e fechando
o poço. Foi montado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas
IPT um laboratório onde as propriedades da rocha salina
são usadas para simular a perfuração em grandes
espessuras de sal. Resultados desse projeto foram de premiação
em avaliação de projetos tecnológicos no Estado
de São Paulo.
Estudo sobre pressões também é um tema fundamental
para a exploração, não só para predizer
problemas de perfuração e acidentes como kick
de gás e blow out de óleo mas também
para descobrir as rotas de migração do óleo.
Modelagem de bacias
Um outro tema desenvolvido pelos pesquisadores ligados ao Profex
é a modelagem de bacias técnica que utiliza
sofisticadas ferramentas de software e hardware para reproduzir
os processos de formação, preenchimento e deformação
a que foi submetida uma bacia sedimentar ao longo do tempo geológico.
O objetivo, nesse caso, é desenvolver tecnologias para a
reconstituição do comportamento de uma bacia sedimentar
ao longo do tempo geológico (como se deu a geração
e em qual momento ocorreu a migração, quais foram
as rotas seguidas e onde estão as armadilhas que aprisionaram
o óleo), remodelando todo o passado de uma bacia sedimentar,
para descobrir exatamente onde poderiam estar as acumulações.
Um projeto em parceria com a IBM desenvolveu um software que permitiu
criar uma malha de densidade infinita de pontos, onde são
reconstruídos todos os detalhes da morfologia com
os hardwares disponíveis até então, as malhas
eram abertas demais para reproduzir esses detalhes. Uma bacia
tem uma grande densidade de falhamentos. Se você fizer uma
malha muito aberta, não consegue traduzir a geometria correta
dessas falhas.
Para tal foi desenvolvido um cluster com 72 CPUs, que agora está
sendo ampliado.
A própria evolução da sísmica 3D e o
desenvolvimento de salas de visualização e
mais recentemente de imersão permitiu avanços
na modelagem. Por falar em imersão, o Cenpes terá
uma sala própria, que permitirá aos engenheiros e
pesquisadores caminharem dentro da imagem.
Sísmica 4C e 4D
A carteira se estende a projetos que tratam de imageamento de sub-superfície
desde a aquisição até o processamento
de dados geofísicos.
Um exemplo nessa área são as tecnologias relacionadas
à sísmica multicomponente aí desenvolvidas
em conjunto com outro programa do Cenpes, o Programa de Recuperação
Avançada de Petróleo Pravap.
A sísmica 4C consiste na obtenção de informações
não apenas da onda principal (P), mas também a onda
cisalhante (S). Essa onda S é o quarto componente da sísmica
4C. Mas como essa onda não se propaga em meio a água,
numa aquisição sísmica offshore é necessário
implantar hidrofones no fundo do mar ligados à embarcação.
A combinação dessas informações permite
aos pesquisadores saber não só o tipo de rocha, mas
também sua porosidade.
Já a sísmica 4D consiste em levantamentos simultâneos
em uma determinada área, para monitorar a evolução
da recuperação. Fazendo levantamentos várias
vezes ao longo do tempo, observamos a migração do
óleo.
O primeiro levantamento sísmico 4D no Brasil está
previsto para ser realizado no segundo semestre deste ano, nos campos
de Marlim e Voador, abrangendo uma área total de 580 km².
Adquirir sísmica 4D, aliás, não é problema:
já existem tecnologias disponíveis comercialmente
a própria Petrobras participou de um projeto multicliente,
que reuniu 15 empresas na primeira aquisição 4C, há
cerca de cinco anos. O que ainda encarece esse tipo de aquisição
é a profundidade da lâmina dágua.
Mas o grande desafio é processar a quantidade de informações
para isso, a Petrobras precisa recorrer ao cluster desenvolvido
pela Área Tecnológica de Geologia e Geofísica
do Cenpes, que permite o processamento de uma enorme quantidade
de dados com grande rapidez.
Além do hardware o sucesso está no desenvolvimento
do algoritmo de processamento paralelo: todas as funções
matemáticas que precisam ser resolvidas são distribuídas
paralelamente para cada um dos micros da rede que funcionam
como nós desse cluster que recebem a tarefa,
realizam a operação matemática, e devolvem
a informação para um computador central. Isso diminui
exponencialmente o tempo gasto em processamento tarefas que
levariam mais de oito dias são realizadas em 1 hora.
A construção desse hardware permite que a Petrobras
utilize varias novas tecnologias de processamento de dados sísmicos,
como a Post stack depth Migration PSDM e Wave Common Deep
Point WCDP. A primeira delas a Migração
Pré-Empilhamento consiste em migrar cerca de 4.800
traços antes de empilhá-los, corrigir desvios de posição.
Já a WCDP imagea o subsolo sem a premissa da necessidade
de um campo de velocidades preciso. Ainda embrionária, a
técnica é desenvolvida pelo Cenpes em parceria com
a Academia Russa de Ciências. Alguns testes com o WCDP já
acenam com boas perspectivas para a técnica.
|