Edição 239 – Julho de 2002 – Revista Petro & Química
Proteção anticorrosiva pode reunir custos,
desempenho e proteção ambiental
Quintela: combinando desempenho técnico com aspéctos ambientais e econômicos
A Petrobras vem trabalhando intensamente no desenvolvimento de técnicas de proteção contra a corrosão considerando aspectos ambientais. A empresa desenvolveu, no seu Centro de Pesquisas, inúmeros projetos que abordam desde o tratamento de superfície até a aplicação da tinta, passando pela formulação de produtos sem solventes.

O desafio dos pesquisadores do Cenpes é desenvolver um trabalho diverso, a ponto de atender todas as unidades da empresa – entre plataformas, refinarias, dutos, e navios. Só no Cenpes, cerca de 25 profissionais – entre eles alguns PhD’s – estão envolvidos com o tema.

Após desenvolver um projeto de pesquisa mais abrangente sobre pintura industrial, mais tradicional técnica de proteção anticorrosiva, a Petrobras passou a considerar aspectos ambientais a partir da segunda metade da década passada. O objetivo era melhorar o desempenho, reduzir custos e adotar padrões ambientais mundiais. “Sabedores da importância que a Petrobras tem no cenário nacional, decidimos investir em ecologia, para tirar o estigma de que a pintura é uma atividade extremamente insalubre”, comenta Joaquim Quintela, consultor técnico do Cenpes.

O primeiro trabalho foi realizado em 1991, com a substituição do jato de areia seca por jato abrasivo úmido. “A tendência é usar abrasivos não poluentes, como a granalha de aço e abrasivos sintéticos, que emitem pouco material particulado, e o tratamento com abrasivos molhados ou só com água”.
Plataformas: projetos abordam desde o tratamento de superfície até a aplicação da tinta
Mais recentemente, a Petrobras adotou o hidrojateamento – jateamento com água sob alta pressão. Além da limpeza da superfície, esse processo remove sais solúveis que podem estar aderidos ao substrato – ao contrário de outros tratamentos com abrasivos secos. A presença de sais solúveis sob as camadas de tintas é um dos fatores que mais contribuem para falhas na pintura. “Quando se fala em revestimento anticorrosivo, não adianta trabalhar só a tinta e esquecer outros pontos, como a limpeza da superfície. Apostamos nessa tecnologia, que está bastante difundida. Cada vez mais só se fala em usar hidrojateamento para preparar a superfície”, explica Quintela.

Outro ponto a ser atacado era a formulação de tintas com baixa emissão de compostos orgânicos voláteis – não somente os solventes, mas outras substâncias tóxicas tiveram sua utilização restringida, como o zarcão e o alcatrão-de-hulha. “A Petrobras é pioneira na normalização de tintas desse tipo. Possuímos três normas para tintas (N-2628, N-2629 e N-2630), e estamos preparando mais duas normas, que são enquadradas nos mais modernos conceitos de proteção ambiental”.

Algumas tintas à base de epóxi por exemplo, além de serem isentas de solventes, não precisam de controle de umidade relativa e ponto de orvalho – além do controle na emissão, a aplicação do material fica menos condicionada a condições climáticas. Essa tecnologia é ideal para manutenção em plataformas offshore, onde o custo da aplicação chega a ser até sete vezes mais do que uma pintura em canteiro. “São materiais mais caros, mas trazem outros ganhos e um custo menor ao longo da vida útil da estrutura. Imagine quanto custa reparar, offhsore, 15% da área: praticamente outra pintura”.

A aplicação das tintas também mereceu atenção dos pesquisadores. Segundo Quintela, o uso de equipamentos diferenciados – como pistolas sem ar – possibilita uma qualidade melhor. “O operador pinta mais rápido, e o equipamento polui menos, porque não precisa de solvente para diluir a tinta”.

O engenheiro explica que a melhor surpresa foi a redução nos custos. “Trabalhar com tintas que tenham menor quantidade de solventes diminui o número de demãos. E o produto de melhor qualidade precisa menos de intervenções para manutenção”.

Isso sem contar em outros custos relacionados com a pintura, como o tempo do equipamento parado, e mão-de-obra. “Esquema de pintura moderno é aquele que reúne custo, desempenho e proteção ambiental”, resume Quintela.

Novas tecnologias

Mesmo que a pintura industrial seja a mais tradicional técnica de proteção anticorrosiva, os engenheiros do Cenpes também trabalham com outros tipos de proteção, como a resina éster-vinílica e o revestimento metálico para algumas aplicações específicas.

É o caso, por exemplo, de alguns vasos separadores, que demandam uma resistência química e térmica maior. Nesse caso são utilizados revestimentos com fibra de vidro. “Usamos resinas éster-vinílicas reforçadas com flocos de fibra de vidro, conhecidos por flake glass. É uma boa barreira, mas precisa de uma aplicação especializada, o que torna esse tipo de revestimento mais caro. Por isso é utilizado em condições específicas”.
Refinarias: técnicas para pintar linhas quentes sem parar a unidade
Outro tipo de revestimento que vem sendo empregado em situações onde os revestimentos orgânicos não podem ser aplicados, ou não apresentam tanta eficácia, são os metálicos. É o caso de zonas aquecidas – onde a tinta não consegue suportar as condições operacionais, devido às altas temperaturas. “Existe uma discussão sobre o limite de temperatura, mas caminhamos para um dado de campo: nos pontos onde a pintura não tem funcionado, optamos pela metalizaçã”.

Esta tecnologia é, também, muito empregada nas nas plataformas offshore – que também estão sujeitas a condições operacionais adversas.

Nos casos de metalização, as matérias-primas mais utilizadas são o alumínio e o zinco. A aplicação se dá por uma pulverização conhecida como Termal Spray (aspersão térmica), no caso do alumínio, TSA. O metal, em forma de pó ou arame, fundido, é impelido a aderir contra o substrato. “Existem vários métodos de aspersão térmica, chama oxiacetilênica, arco elétrico, chama de alta velocidade (HVOF), plasma e detonação. Alguns profissionais do Cenpes são especializados na aspersão térmica de metais”, conta o engenheiro.

O custo de aplicação de metal varia de acordo com o processo e o tipo de estrutura a revestir - como o custo é bem maior do que uma pintura industrial, essa técnica, embora com utilização crescente, ainda é restrita a condições especiais.

“A Petrobras é extremamente dinâmica. Estamos atentos para inovações no mercado. Se um fornecedor provar que, tecnicamente, uma nova tecnologia atende às necessidades da companhia, nós usamos. A implantação de novos conceitos e tecnologias não é uma tarefa fácil, exige muitos testes de campo e laboratório, e acima de tudo, muita perseverança, explica Quintela.

Nas refinarias do Sistema Petrobras, por exemplo, os engenheiros vêm desenvolvendo técnicas para pintar linhas quentes sem a paralisação da unidade – a técnica já vem sendo testada na Revap. A pintura da linha de condensados já é feita sem parar, uma vez que o preparo da superfície é feito com jato de água, que não contém abrasivos, e a tinta utilizada pode ser aplicada com a superfície molhada.

Para se ter uma idéia, a pintura de um tanque, que demandava até oito meses de trabalho, já pode ser feita em dois meses – em alguns casos extremos, em até 30 dias. “Mesmo com a utilização de tintas especiais e processos de preparação de superfície mais caros, o fato de não parar o equipamento acarreta ganhos de produção, e os custos de manutenção diminuem muito”, avalia Quintela.
Edição 239 - Julho de 2002
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