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Uma solução caseira está permitindo à Petrobras trabalhar com tecnologias
de vanguarda em estudos geofísicos e geológicos: um cluster montado
a partir de 80 PC’s forma um hardware com capacidade de processamento
similar às potentes – e caras – workstations.
Com uma enorme quantidade de dados, um computador comum levaria pelo
menos um mês para processar toda a informação necessária para o trabalho
dos geólogos da empresa. Por outro lado, uma workstation não custa
menos de US$ 50 mil. “Para viabilizar o processamento dessas informações,
foi necessário disponibilizar um hardware compatível. Com isso, conseguimos
uma capacidade de processamento infinitamente maior do que as máquinas
convencionais, e a um preço relativamente barato, porque 80 computadores
não custam tão caro quanto as máquinas normalmente utilizadas para
esse trabalho”, conta o responsável pela área de estudos geofísicos
e geológicos da Petrobras, João Claudio Conceição.
O segredo está no algorítimo de processamento paralelo: todas as funções
matemáticas que precisam ser resolvidas são distribuídas paralelamente
para cada um dos micros da rede – denominados “nós” – que recebem
a tarefa, realizam a operação matemática, e devolvem a informação
para um computador central registrar. Isso diminui exponencialmente
o tempo gasto com o processamento. “Tarefas que levariam mais de oito
dias são realizadas em uma hora. É uma diminuição substancial”, avalia
João Claudio.
Caso algum dos 80 nós “travar”, ela é automaticamente desativada,
e as tarefas a ela atribuídas são distribuídas pelas outras máquinas.
As memórias utilizadas no cluster são do tipo Error Correction Code
– ECC que fazem correção de erro automaticamente.
A construção desse hardware permite que a Petrobras utilize novas
tecnologias de processamento de dados geofísicos e geológicos, como
a PSDM, WCDP e a Filtragem Prony. “A companhia domina uma série de
rotinas de processamento e interpretação de dados. A missão do Cenpes
é buscar novas tecnologias, desenvolver e disponibilizar para a área
de Exploração e Produção”, explica Breno Wolff, gerente geral de P&D
de Exploração da Petrobras.
Da equipe gerenciada por Breno, 40 pessoas – sendo 31 técnicos – cerca
de oito geofísicos estão dedicados à pesquisa de técnicas para processamento
de dados sísmicos. Só esse ano, a área de geofísica tem um orçamento
de R$ 2 milhões. O valor pode ser considerado quase irrisório quando
comparado aos benefícios que pode trazer: uma perfuração errada custa
US$ 20 milhões à companhia.
Mais sinal e menos ruído
João Claudio explica que o estudo sísmico é feito através de emissão
e obtenção de uma onda sísmica. “O navio emite uma onda de choque,
que atravessa a água, e penetra no subsolo se distribuindo até grandes
profundidades. Ao chocar-se com as interfaces entre as várias camadas,
parte dessa onda vai sendo refletida, e capturada pelos hidrofones
na superfície do mar”.
Em terra, o processo não se diferencia muito: dinamites enterradas
em perfurações de dois metros emitem essa onda de choque, que são
capturadas por geofones instalados na área – com uma perda de produtividade,
devido a problemas com topografia e logística.
O problema, tanto para a coleta de dados onshore quanto para offshore,
é que junto com o sinal, é capturado um ruído – frações das ondas
sísmicas dentro destes complexos horizontes. Todo o trabalho se resume
a aumentar a chamada relação sinal / ruído – eliminar ao máximo os
ruídos e aumentar o ganho dos sinais.
A pesquisa realizada no Cenpes está focada na área de processamento
– a transformação do dado coletado pelos geofones em uma imagem. “Só
atuamos em aquisição e interpretação quando é necessário para dar
suporte ao nosso foco”, conta.
Uma das técnicas trabalhadas pela equipe é a Migração Pré- Empilhamento
– PSDM: antes de empilhar, cerca de 4.800 traços são migrados, para
corrigir desvios de posição. “Essa técnica, chamada Pré-Streck Deep
Migration, é muito perseguida pela indústria do petróleo. Investimos
e desenvolvemos nosso próprio algorítimo, e atualmente estamos aperfeiçoando
a técnica de determinação da velocidade, para obter um produto final
ainda mais confiável”.
Na coleta de dados, o registro do tempo que a onda sísmica demora
entre a emissão na fonte, a reflexão em uma determinada camada, e
a captura no hidrofone, teoricamente se daria em linha reta. Na prática,
acontecem uma série de divergências causadas por heterogeneidades
na velocidade das camadas (denominadas anisotropias) bem como devido
à estruturas complexas. A impedância acústica (a multiplicação da
densidade da camada pela sua velocidade, para a onda sísmica) em cada
interface é que vai definir a energia que será refletida e capturada
pelos geofones – quanto maior a impedância, maior a reflexão da onda.
Ao longo desse caminho, a onda sofre uma série de atrasos e desvios,
e o hidrofone acaba não registrando o refletor na sua localização
real, daí a necessidade de migrar a informação. “O display que traz
as informações coletadas pode apontar uma interface de grande impedância
acústica, onde cada traço sísmico dê um sinal forte o suficiente,
de forma a conseguir mapear o refletor com facilidade. Quando isso
ainda for um dado bruto, as técnicas de migração ajustam a localização
do refletor para uma posição real. O processamento faz uma análise
de todas as distorções no percurso da onda, e tenta corrigir para
uma posição mais correta”.
Normalmente essa migração é realizada após o empilhamento dos dados.
Cada ponto do subsolo é amostrado pelo menos 2.400 vezes – a função
dessa superposição de imagens é acentuar os sinais e anular os ruídos.
A técnica da migração pré-empilhamento proporciona uma imagem mais
evidente do subsolo. “Isso aumenta exponencialmente o uso do computador.
Em compensação, proporciona um resultado muito mais preciso”, conta
João Claudio.
Com a migração, a escala vertical pode ser dada em profundidade –
antes era emitida em tempo. Só que isso pressupõe o conhecimento preciso
do campo de velocidade admitida para a rocha e o tempo em que a onda
sísmica demorou entre a explosão e a captura no hidrofone. “Um software
derivado dessa tecnologia determina o campo de velocidade, o que era
um processo crítico para o PSDM. O display convertido para profundidade
torna mais exata a interpretação”.
Outro programa derivado utiliza abordagens multi-focais, que entram
no algoritmo e reduzem o tempo de processamento de uma linha de horas
para alguns segundos. “O próximo passo agora é implementar o programa,
com todos os seus derivados, para ser utilizado na rotina de processamento
da área operacional”.
WCDP e Filtragem Prony
Paralela ao PSDM foi trabalhado o Wave Common Deep Point – WCDP, uma
metodologia que se propõe a imagear sem a premissa da necessidade
de um campo de velocidades preciso. Ainda embrionária, a técnica é
desenvolvida pelo Cenpes em parceria com a Academia Russa de Ciências.
“O WCDP também demanda uma grande capacidade de processamento, mas
oferece produtos mais precisos em termos de imageamento”.
Alguns testes com o WCDP já acenam boas perspectivas para a técnica.
Mas ainda há muito trabalho a ser realizado: ainda não é possível,
por exemplo, utilizar a técnica para levantamentos 3D.
A Petrobras também vem trabalhando com a Filtragem Prony, um método
alternativo para a detecção direta de hidrocarbonetos. “Existem diversas
maneiras de tentar avistar uma assinatura da presença de hidrocarbonetos
diretamente em um display sísmico. O método mais convencional é o
chamado Amplitude Versus Offset – AVO, já utilizado pela Petrobras.
A técnica Prony é outra metodologia matemática”.
A Filtragem Prony não chega a ser uma novidade, mas não era aplicado
devido a sua complexidade matemática – e conseqüente demanda de processamento.
Com a disponibilidade do hardware de paralelismo, que permite realizar
tarefas em tempo mais curto, a Petrobras começa a fazer os primeiros
testes de detecção direta de hidrocarbonetos através da metodologia.
“Testamos a técnica em alguns campos, e o resultado foi bastante animador.
Recebemos dados sísmicos e mapeamos as ocorrências com altos índices
de acerto”.
A onda S
Apesar de a Petrobras não possuir navios sísmicos, os técnicos do
Cenpes também desenvolvem técnicas de aquisição, que são repassadas
para as empresas – para que a coleta de dados obedeça a alguns parâmetros.
É o caso da sísmica multicomponente, que considera não apenas a onda
P (principal), mas também a onda S (cisalhante), que tem uma direção
de vibração perpendicular à direção de movimento. Essa onda possui
uma velocidade menor do que a onda P, mas um grande potencial para
trazer informações. E o agrupamento dessas duas ondas em uma sessão
única proporciona uma imagem mais rica. “O intérprete vai enxergar
com muito mais clareza as estruturas e facies sedimentares”, conta
João Claudio.
O problema é que essa onda S só se propaga em meios sólidos – mas
não na água. Nos levantamentos offshore, a onda provocada pelo navio
até que é divida em P e S quando penetra o subsolo, como se houvesse
uma fonte sísmica naquele ponto, mas essa informação não chega aos
hidrofones porque a reflexão da onda também precisa atravessar a água
durante o caminho de volta.
Para aproveitar a onda S, a saída foi implantar hidrofones no fundo
do mar – denominados geofones de cabo de fundo. No fundo do mar, os
hidrofones funcionam com três bobinas, e são conectados, por cabo,
a uma embarcação. Com duas bobinas horizontais, perpendiculares entre
si é possível medir a onda S, enquanto a bobina vertical e o hidrofone
mede a onda P. “Essa técnica é chamada de 4C: são quatro aquisições
de uma vez só”.
Para utilizar essa técnica de aquisição de cabo de fundo, os técnicos
do Cenpes desenvolveram a metodologia própria de processamento dos
componentes. “Participamos de um projeto multicliente no Golfo do
México, de onde obtivemos os dados brutos. A partir desses dados foi
desenvolvido o algorítimo para processamento, que também precisa ser
diferenciado, devido aos quatro sinais”.
No Brasil, os primeiros testes foram realizados em campos nas bacias
do Rio Grande do Norte e de Sergipe, onde as lâminas d’água eram as
mesmas que no Golfo do México. Para lâminas mais profundas, só agora
estão prestes a ser feitos os levantamentos experimentais, no Campo
de Marlim. “Para o processamento, não importa a profundidade, mas
para a empresa que fará o levantamento sísmico, esse é uma variável
importante”.
Essa técnica de 4C vai de encontro à chamada sísmica 4D – que considera
o tempo como componente. A empresa pode instalar seus cabos de fundo
em uma área, e prendê-los a uma bóia na superfície, de onde, telemetricamente,
poderá enviar os dados. Em determinados períodos, um navio passa pela
área, emitindo novas ondas sísmicas.
Os dados coletados entre um período e outro podem ser comparados,
para acompanhamento da evolução do desenvolvimento do campo. “A sísmica
4C e a sísmica 4D estão interligadas. Caso a definição da imagem seja
suficiente, é possível observar como está a drenagem do óleo e o deslocamento
da água no reservatório, para orientar melhor no gerenciamento do
desenvolvimento do campo”, conta João Claudio.
No mundo inteiro, apenas algumas entidades, com as quais a Petrobras
procura formar intercâmbios, trabalham com esses projetos. “São tecnologias
de vanguarda, que o Cenpes tem por obrigação buscar e desenvolver
em escala comercial, para uso da empresa”, finaliza Breno. |
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