Edição 242 – Outubro de 2002 – Revista Petro & Química
Centro de excelência em gás
Flávio Bosco
Laboratório de vazão: fonte de receita para o centro
Este ano a Petrobras e o Senai / CNI estão investindo R$ 14 milhões no Centro de Tecnologia do Gás – CTGás, com intuito de desenvolver mão-de-obra, equipamentos e serviços para o mercado de gás natural. Os resultados irão reverter tanto para a Petrobras – com o aumento do combustível na matriz energética – quanto para a CNI, uma vez que torna o gás natural economicamente viável para um grupo maior de empresas. “As atividades desenvolvidas no CTGás impactam tanto no consumo de gás quanto na competitividade das empresas”, conta o diretor executivo da entidade, Orlando Clapp Filho.

É o caso, por exemplo, dos cursos de instalação, manutenção e conversão veicular, realizados no centro tecnológico e nos 16 núcleos da rede Regás: com a formação da mão-de-obra, há um impacto direto no mercado de GNV. Outro exemplo é o programa de certificação de mão-de-obra para os profissionais das prestadoras de serviço à Ceg e a Comgas, uma forma encontrada para garantir a qualidade do serviço. “Há um ganho financeiro, devido a venda do combustível, mas também há um ganho institucional, porque parte das empresas dessa nessa cadeia estão ligadas à CNI”, explica o diretor.

Ao final deste ano, aproximadamente dois mil alunos deverão ter se formado no CTGás. Mais do que isso, o empreendimento se antecipa à demanda que o mercado deverá apresentar à medida que o gás natural vá ocupando maiores percentuais na matriz energética. Segundo Clapp Filho, ao contrário de trabalhar de forma reativa após o mercado se estabelecer – como normalmente se dá em mercados infantes – a qualificação da mão-de-obra acontece de forma antecipatória. “É pouco provável que a questão da qualificação da mão-de-obra seja um gargalo muito significativo, mesmo com o mercado do gás natural crescendo 25% ao ano”.

A vedete é o curso técnico de gás natural, mantido com apoio do Programa de Recursos Humanos da Agência Nacional do Petróleo. O curso, que dura um ano, reúne 64 alunos da região Nordeste. “Os técnicos sairão prontos para atuarem nas distribuidoras de gás em seus Estados”, conta Maria Julia Sanna, coordenadora da Unidade de Negócios de Educação do CTGás.

Também são mantidos no centro tecnológico cursos de pós-graduação – em parcerias com universidades. Entre 2000 e 2001, por exemplo, 30 engenheiros participaram do curso de especialização, fruto de convênio entre o CTGás e a Universidade Potiguar. Outros 30 profissionais participaram do curso realizado em parceria com a Universidade do Mato Grosso do Sul.

Além da sede em Natal / RN, o CTGás atua em âmbito nacional através da Rede Nacional de Núcleos de Tecnologias do Gás Natural – Regás. São 16 núcleos distribuídos por 15 estados, vinculados administrativamente a uma Unidade Operacional do Senai e tecnicamente suportados pelas Unidades de Negócios do CTGás. Cada núcleo segue uma configuração básica, e possui oficinas específicas. “Em São Paulo, por exemplo, há uma oficina predial. Já nos núcleos de Alagoas, Sergipe e Curitiba, existem oficinas de instrumentação. Isso é um crescimento ancorado no mercado”, explica Clapp Filho.

Onze laboratórios

Mas isso não é tudo. Criado há três anos para fomentar a utilização do gás natural no Brasil, o Centro Tecnológico também presta serviços de consultoria, assistência técnica e desenvolvimento de equipamentos. Para isso conta com onze laboratórios de pesquisa aplicada.
Sistema de cogeração instalado no CTGás
Cinco desses laboratórios – caracterização química, pressão, temperatura, vazão de gás e testes de cilindros – estão em fase de credenciamento junto ao Inmetro. Entre os contratos de prestação de serviço estão o monitoramento da transferência de custódia no Gasoduto Bolívia-Brasil e estudos de viabilidade econômica para redes de distribuição estadual. Essa, aliás, tem sido uma nova fonte de receita para o CTGás – este ano, a previsão de receita é de R$ 4,5 milhões, 30% maior do que a receita gerada no ano passado.

Um desses serviços é o que vem sendo chamado de balanço energético. Enfatizando aspectos de custo, eficiência, segurança e impacto ambiental, os técnicos do CTGás traçam um diagnóstico para as empresas medirem a viabilidade econômica e os benefícios ao adotarem o gás natural.

O projeto de fornos para indústrias cerâmicas de pequeno porte é um bom exemplo: os técnicos do CTGás desenvolveram um protótipo, que está sendo testado em uma cerâmica instalada em Macaíba / RN, com capacidade para seis mil tijolos por queima. “Esse segmento é marcado pela defasagem tecnológica e agressão ao meio ambiente, por isso torna-se propício ao uso do gás natural”, conta Wellington Penetra, coordenador da Unidade de Negócios de Assistência Técnica e Tecnológica.

O trabalho desenvolvido é mais uma solução de engenharia financeira do que uma inovação tecnológica. Contudo há um outro ponto a favor do gás natural: a agressão ao meio ambiente, uma vez que a utilização da lenha como combustível tem sido a principal responsável pela desertificação avançada na região do Seridó. “Essa indústria emprega, só no Rio Grande do Norte, cerca de sete mil pessoas. Não pode simplesmente ser desarmada, com uma proibição do uso de lenha. É necessário ter uma solução conjuntural, e a etapa tecnológica é crucial”, completa Clapp Filho.

Um trabalho semelhante, realizado com sucesso em 22 padarias na cidade de Natal, está sendo estendido para os Estados de Alagoas e Pernambuco. O trabalho será realizado em parceria com as distribuidoras estaduais.

Para pequenas e médias empresas, o CTGás vem trabalhando em um projeto ainda mais arrojado: o desenvolvimento de um sistema de co-geração de energia para empresas de pequeno porte – com consumo entre 50 kWh e 300 kWh – que deverá permitir uma redução de custo de aproximadamente 40%, e poderá fornecer refrigeração, energia e água quente.

O primeiro sistema foi instalado no prédio do próprio CTGás, com capacidade para gerar 375 kW. A água quente gerada pelo motor é enviada a um chiller de absorção, onde se produz água gelada, para abastecer o ar-condicionado do prédio. Um sistema supervisório controla 40 sensores distribuídos desde a queima do gás natural até os painéis de interligação com a rede da distribuidora local – o sistema serve de referência para o curso de geração e co-geração de energia a gás, realizado no centro tecnológico.

Paralelamente, os técnicos do CTGás vêm desenvolvendo um chiller por compressor que, no lugar do motor elétrico, utiliza um motor veicular a gás natural, com capacidade de 12 mil BTU’s.

Para o segmento automotivo, o centro tecnológico está desenvolvendo um compressor de pequeno porte, usado nos postos revendedores – que deverá custar metade do preço dos aparelhos usados atualmente. Também para popularizar o uso do GNV, os técnicos do CTGás estudam o desenvolvimento de uma unidade para abastecimento doméstico. “O usuário poderá abastecer o seu carro durante a noite, em sua casa”, diz Guido Salvi dos Santos, Coordenador da Unidade de Relações com o Mercado.

Pesquisas

Instalados com detectores e cromatógrafos, um dos serviços já agendados será a análise da composição do gás natural de todas as distribuidoras do país – em dois anos, o CTGás deverá montar um banco com dados sobre a qualidade do gás distribuído no Brasil. “Serão utilizadas aproximadamente 100 amostras de cada concessionária para fazer uma fotografia da qualidade do gás natural no Brasil”, conta Alcides Balthar, engenheiro químico que irá responder pela pesquisa.

Outra pesquisa desenvolvida nos laboratórios do CTGás é o armazenamento de gás natural dentro das estruturas do carvão mineral. A técnica, conhecida como gás natural adsorvido, consiste em utilizar carvão mineral para adsorver as moléculas de gás natural. “O que pode dobrar o volume de gás em um mesmo tanque, com a mesma pressão”, completa José Alcides Martins, coordenador da Unidade de Negócios de Pesquisa.

A infra-estrutura do CTGás também permite treinar profissionais ligados à indústria do gás, como acontece com o laboratório de instrumentação. Equipado com instrumentos e softwares de controle, o laboratório é utilizado para treinamento e atualização de técnicos da própria Petrobras e outras indústrias de processo da região Nordeste.

Empreendimento estratégico

Fruto de um consórcio entre a Petrobras e o Senai / CNI, o CTGás já se mostra um empreendimento estratégico para a indústria nacional. O centro tecnológico ingressa num mercado ainda incipiente, mas já ocupa seu espaço, desenvolvendo tecnologias, contribuindo para a formação de profissionais, competitividade para as empresas e redução nos impactos ambientais.

Desde que criaram a entidade, em 1999, a Petrobras e o Senai já investiram mais de R$ 45 milhões. “O empreendimento é estratégico para um mercado que tem características particulares no que diz respeito a inovação, crescimento, economicidade e aspectos ambientais”, avalia Orlando Clapp.

Um bom termômetro da importância do centro tecnológico é o número de acessos à sua página na internet: nos últimos seis meses, foram 74 mil visitantes. “É um número muito importante, em função da natureza da página”.

Entre os serviços oferecidos pela Unidade de Negócios de Informação – responsável pelo site – está o acesso a bases de dados relativas ao gás natural, com destaque para o acesso privilegiado ao International Center for Gás Technology Information – ICGTI. A unidade mantém ainda um boletim com notícias relacionadas ao setor, que é enviado para cerca de 1,1 mil usuários, e um sistema de atendimento a questões relacionadas ao gás. “Nosso sistema de informação atendeu, no primeiro mês, 60 consultas de pesquisadores, usuários e engenheiros”, conta Ana Cristina Cavalcanti Tinoco, coordenadora da Unidade.
Edição 242 - Outubro / 2002
Assine já!
VEJA MAIS
Matéria de Capa 1
Petrobras: na vanguarda da geologia

Matéria de Capa 2
A busca por um número ótimo

Artigo Técnico
Integração de tecnologia foundation fieldbus e wireless ethernet em sistemas de controle e aquisição de dados de injeção de água em poços de petróleo
NA EDIÇÃO IMPRESSA
Petro & Química - Edição 242
Politeno ganha PNQ

Retomada do crescimento é desafio para setor petroquímico

Processamento de dados sísmicos aquece mercado

Petroquisa desenha seus planos

P-34: comissão investigará causas do acidente

Oleoduto ligará Rio à São Paulo

Relatório do atuação responsável aponta evolução

E muito mais...