|
MATÉRIA DE CAPA Edição
247 - Abril de 2003
|
| O que vem depois do SDCD? por Flávio
Bosco |
|
|
O que fazer depois de implantar o sistema digital de controle? O
caminho natural seria ganhar fôlego e partir para o controle avançado.
Mas a empresa pode agregar valor ao sistema de controle com outros
caminhos, trabalhando as malhas de controle ou aproveitando os dados
coletados no processo como fonte de informação gerencial.
Obviamente que, em termos quantitativos e qualitativos, a implantação
de um controle avançado traz ganhos muito mais significativos, mas
esse tipo de investimento custa de dez a quinze vezes mais em relação
a melhorias no sistema de controle regulatório. Dessa forma, a empresa
pode investir pontualmente em alguns quesitos. “Certas empresas preferem
implantar um projeto total. Mas se quisessem fazer por etapas, os
investimentos seriam menores, e ganhariam recursos para os próximos
passos”, explica Luiz Eduardo Rubião, diretor de operações da Chemtech,
empresa especializada em otimização de processos.
No caso da sintonia de malhas, o controle regulatório pode ser potencializado,
garantindo que a operação siga o que foi implementado nos blocos de
controle, considerando a dinâmica do processo. Já um sistema de visualização
dos dados permite transformar a informação do processo em informação
de negócios. “Estamos distribuindo essa informação pela empresa, agilizando
o processo de tomada de decisão, ampliando o conhecimento do sistema,
e quantificando índices de desempenho”, completa Rubião.
Dois projetos implantados pela Chemtech – um na Ásia e outro na Arábia
Saudita – permitem colher dados de diferentes sistemas (de laboratório,
controle do processo, corporativo ou manutenção), e integrá-los em
telas que traduzam a informação para os diferentes níveis dentro da
empresa.
São ferramentas que atendem a toda a empresa, nos diferentes níveis,
desde o chão-de-fábrica até o corporativo, uma vez que, em uma ferramenta
só você consegue integrar informações de diferentes fontes. “O operador
que vai usar esse sistema está interessado em ver o trend do processo,
para saber, por exemplo, como está a temperatura do reator ou do forno.
Já o gerente da planta está preocupado com o estoque, produção. Alguém
da parte corporativa quer ver como está o inventário geral nas diferentes
unidades de produção”, explica Flávio Guimarães, gerente da Chemtech.
No case implantado na Arábia Saudita – em uma refinaria e uma unidade
de gás – o objetivo da empresa era exibir os dados do software corporativo
para os engenheiros – principalmente dados de manutenção. Já na Ásia
– em três refinarias – o propósito foi disponibilizar os dados de
produção para os gerentes.
No Brasil, já vemos alguns casos de integração dos dados de processo
com os sistemas corporativos nos setores químicos e petroquímicos
(o ERP da Petrobras ainda não contempla a parte de processo).
Nesse segmento, a maior aplicação desenvolvida pela Chemtech pode
ser encontrada na Monsanto – o projeto implantado há dois anos envolve
a integração de três fábricas com os módulos que gerenciam a produção
dentro do SAP, tendo como base da aplicação o sistema MES para traduzir
a informação adquirida pelo sistema de controle em informações de
produção e negócio, que sobem para o nível corporativo.
O desafio foi integrar três diferentes níveis de automação ao software
de gestão. Na unidade de São José dos Campos / SP, onde são produzidos
herbicidas, está instalado um SDCD. Já a unidade produtora de matérias-primas,
em Camaçari / BA, possui um sistema híbrido, e no site de beneficiamento
de sementes, em Uberlância / MG, está instalado um sistema supervisório.
Para se conectar com o SAP, no escritório localizado em São Paulo,
a empresa utiliza o Enterprise Link – um conector certificado da SAP.
“Em todos eles existe uma camada PIMS, sistema de informações de processos,
que armazena de modo temporal os dados do sistema de controle para
fazer os cálculos de produção”, conta Flávio.
Todos os dados do processo e os dados de laboratório relacionados
com a produção são reunidos então no MES. “E a empresa sabe a quantidade
produzida e o quanto foi consumido para produzir um determinado item.
Unindo esses dados às ordens que vêm do software de gestão, podem
ser gerados relatórios e a informação pode ser distribuída por toda
a empresa”, completa Rubião.
Uma das vantagens pode se dar selecionando qual foi o melhor desempenho,
a partir dos dados coletados: os parâmetros dessa melhor “corrida”
podem ser enviados para o sistema de controle. “Algumas aplicações
permitem que a informação que está no MES volte para o sistema de
controle, definindo, por exemplo, parâmetros de produção”.
A Petrobras possui uma aplicação semelhante, em seu Centro de Pesquisas
– Cenpes, onde foram integradas as plantas-pilotos – com a mesma idéia
de unir numa base PIMS e disponibilizar os dados para os usuários
acompanharem o desempenho dessas plantas.
A idéia básica do MES é fazer essa interligação, trazendo do ambiente
de negócios a informação do que deve ser produzido, e levando de volta
a informação do que realmente foi produzido. “Isso permite calcular
índices de performance da planta, acompanhando seus avanços, o que
dá subsídios para a tomada de decisões”, conta Flávio.
Sintonia de malhas
Trabalhar a sintonia das malhas de controle é uma outra forma de potencializar
o sistema de controle do processo – e também um degrau para a implantação
do controle avançado. “Antes de partir para o controle avançado, devemos
deixar tudo perfeito no controle regulatório. Se não tiver o PID bem
sintonizado, o controle regulatório estará recebendo o comando, mas
não vai conseguir executar adequadamente”, alerta Flávio.
Só que, às vezes, o sistema não atua como especificado, não por um
problema na malha, mas por problemas na instrumentação, ou até mesmo
por estratégia de controle mal concebida. No primeiro caso, a malha
de controle não atuará da forma correta se um elemento primário (sensor)
ou um elemento final (válvula) não estiverem trabalhando de forma
correta. Uma auditoria realizada na instrumentação seria suficiente
para identificar o problema e encaminhar sua solução.
Mas às vezes o erro reside na estratégia de controle adotada. É importante
considerar todos os fatores que influenciam no desempenho da malha
e suas respectivas dinâmicas, para então chegar a uma estratégia que
potencialize a ação do sistema de controle.
Uma terceira fonte de problemas é a determinação dos parâmetros de
sintonia dos controladores. Seus valores são função da dinâmica da
variável controlada, mas usualmente são utilizados os defaults do
sistema de controle, que frequentemente não expressam esta dinâmica.
“Utilizamos um software que coleta os dados de testes realizados na
planta e calcula a dinâmica do processo. Para uma determinada perturbação,
o processo vai variar em uma determinada magnitude durante um intervalo
de tempo. A dinâmica então pode ser resumida de forma simplificada
em três variáveis: o ganho (o quanto o processo reage), a constante
de tempo (em quanto tempo ele reage), e o tempo morto (quanto tempo
ele leva para começar a reagir). Determinando estes três parâmetros,
calculamos os demais parâmetros de controle. E isso permite, uma vez
entendendo a dinâmica do processo, que um sistema atuando de forma
automática atenda às especificações da unidade”.
Um caso típico é o controle de temperatura em reatores que operam
em batelada.Usualmente é utilizada uma malha em cascata – como acontece
com uma produtora nacional de borracha sintética – onde a temperatura
de reação é a malha mestre e a malha escravo é um split range que
controla uma mistura de água com vapor. O problema é saber como dividir
adequadamente o sinal entre as válvulas de água e de vapor para atingir
a temperatura de reação. Com a revisão da estratégia de controle é
possível equilibrar a distribuição de faixa em função do balanço energético,
que costuma estar em um ponto diferente. “Em diversas unidades petroquímicas
achamos o ponto ótimo para fazer esse equilíbrio entre a fonte fria
e a fonte quente”, conta Flávio.
“A sintonia dos parâmetros PID só vai dizer quais são os números de
cada bloco de controle. Há toda parte de engenharia de dimensionamento
das válvulas – algumas válvulas não estavam adequadas, e sugerimos
mudá-la antes de fazer a sintonia”, completa Rubião.
Um dos principais ganhos com estas melhorias é a segurança operacional
– porque essas unidades trabalham a altas temperaturas. O outro é
o fato da temperatura estabilizar em um período de tempo menor – acelerando
o início do processo de reação, o que aumenta a produtividade da planta.
“Conseguimos reduzir parte do ciclo de reação de reatores de polimerização,
porque conseguimos estabilizar mais rápido a temperatura, e com isso
fazer corridas mais curtas. E o grande ganho foi a qualidade do produto
final”, comemora Flávio.
Ainda em reatores de polimerização, a tecnologia gás-sólido em reator
de leito fluidizado – utilizada por uma produtora brasileira de polietilenos
é um empecilho para fechar as malhas de controle devido à sua dinâmica
mais complexa. Algumas malhas mais críticas – como nível do reator
– costumam operar em manual pela dificuldade de determinar os parâmetros
PID sem considerar o comportamento do processo. “Analisando essa dinâmica,
conseguimos chegar a valores que tornavam o controle automático estável.
Nesse caso foi importante também a escolha do conjunto de parâmetros
que iriam ser utilizados, permitindo que: mais de 30 malhas fossem
sintonizadas em uma unidade petroquímica”, conta Flávio.
Na Deten, instalada em Camaçari, a equipe de instrumentação utilizou
o mesmo software para fechar malhas de trocadores de calor e colunas
de destilação para a partida da planta. “A equipe observou a dinâmica,
fez os testes durante a partida, e colocaram os parâmetros no sistema
de controle, permitindo a partida em modo automático – o que se traduziu
em um ganho de tempo importante para a operação”.
“Quando você tem o seu sistema de controle automático funcionando
adequadamente, de acordo com a dinâmica do processo, os ganhos são,
basicamente, o aumento da produtividade, redução do consumo de utilidades
e matérias-primas, e ganhos de qualidade e de segurança”, completa
Rubião.
Controle avançado
Se o próprio controle regulatório ainda não está totalmente explorado,
o que dizer então do controle avançado? Que algumas empresas vêm trabalhando
para dominar a ferramenta.
A Petroquímica União, por exemplo, fala em rede neural desde 1999,
quando desenvolveu uma rede para calcular a concentração de topo e
fundo de uma coluna de separação de propeno. “Para calcular a concentração
do teor de propano na corrente de topo, havia um analisador em linha
– que tinha intervalos grandes entre as medidas, dificultando seu
uso em aplicações de controle avançado. Para conseguir uma rede com
esses resultados de forma mais rápida, fizemos testes dinâmicos na
planta, coletamos os dados de testes de laboratório e identificamos
a relação existente entre as variáveis do processo”.
Para a indústria de processos, uma rede neural é, na verdade, um modelo
matemático usado para inferir propriedades de medição complexa em
função de variáveis de processo de fácil medição, como temperatura,
pressão e vazão. A rede tem esse nome pois é treinada para aprender
a relação existente entre as variáveis medidas com a variável analisada.
Depois do treinamento vem a fase de validação, quando os dados de
operação são comparados com o resultado real. “Para aplicações do
controle avançado, seria necessário medições em espaços menores de
tempo, e isso só seria possível desenvolvendo uma rede neural para
cálculo de concentrações em correntes de topo e fundo”.
Atualmente a PQU já implantou o controle avançado na “parte quente”
– e prepara a instalação nas colunas de destilação. Já a central de
matérias-primas da Braskem (antiga Copene) utilizou uma ferramenta
desenvolvida pelo Cenpes da Petrobras e pela Chemtech para aplicações
de controle avançado. Esta ferramenta é um ambiente em tempo real,
que se conecta com diversos sistemas de controle, onde é possível
inserir aplicações próprias de controle avançado, que no caso da Braskem,
teve os algoritmos de controle avançado desenvolvidos pelo Cenpes.
|
|
|
Ed. 247 - Abril de 2003
|
|
|
|
VEJA MAIS
|
Matéria de Capa 2
Osmose reversa ou
Troca Iônica?
Petróleo & Gás
E agora?
Artigo Técnico
Micro Motion atende a Norma Oficial
da API(1)
|
|
NA EDIÇÃO IMPRESSA
|
|
Petro & Química - Edição
247
|
|
Politeno é empresa de classe mundial
Eleito novo conselho diretor da Abiquim
Setor de infre-estrutura está estagnado, diz Abdib
TOP 2002
uma salva de palmas
Petrobras revê planejamento estratégico
Preço do gás depende do consumo, avisa presidente
boliviano
E muito mais...
|
|