|
PETRÓLEO & GÁS
Edição 247 - Abril de 2003
|
| E agora? Flávio Bosco |
|
|
Mal acabou a invasão das forças da Coalizão Anglo-Americana ao Iraque
–atingindo parcialmente o objetivo de destituir o governo e encontrar
armas químicas– começa agora outra batalha, de extrema importância
para o destino da economia mundial: saber com quem ficará o petróleo
iraquiano. O direito às reservas de 112 bilhões de barris – a segunda
maior do mundo – poderá ser o foco de outra batalha, desta vez entre
o povo iraquiano, o governo americano, os credores do Iraque, as companhias
contratadas para reconstruírem o país devastado pela guerra e as empresas
que já possuem contratos de exploração firmados com o antigo governo.
“Como isso vai ser resolvido será a grande questão”, avalia o consultor
David Zylberstajn.
O efeito geral dessa guerra será uma forte tentativa por parte dos
EUA de estabilizar politicamente a região, através de um amplo acordo
de paz entre israelenses e palestinos. Uma forte presença militar
americana no Iraque neutralizará a influência da Síria e do Irã na
região. “O efeito disso na área de petróleo será uma maior estabilidade
nos preços internacionais, que se manterá em uma faixa conciliando
os interesses tanto dos exportadores como dos importadores, incluindo
aí os EUA”, avalia o secretário-geral do IBP, Álvaro Teixeira.
Desde o ano passado, quando os EUA intensificaram a campanha para
destituir Saddam Hussein, alguns especialistas denunciaram que os
americanos, na realidade, estavam de olho nos poços de petróleo do
Iraque. Não se esqueça que, desde os ataques de 11 de setembro de
2001, os americanos já não sentem tanta segurança no relacionamento
comercial com a Arábia Saudita –detentora da maior reserva mundial–
e por isso estavam procurando novas fontes para suprir sua demanda.
“Uma das opções seria o Iraque que, além da disponibilidade de óleo
de excelente qualidade, possui um sistema de logística bem desenhado
– e que depende apenas de um investimento em modernização”, explica
Armando Guedes Coelho, ex-diretor da Petrobras.
Além das reservas de óleo –que apresentam um grande potencial de expansão,
com prováveis 220 bilhões de barris – o Iraque também possui reservas
provadas de gás natural superior a 3 bilhões de m³. A capacidade de
refino é de cerca de 400 mil barris por dia. Até antes da guerra,
o Iraque produzia aproximadamente 2,5 milhões de barris por dia, dos
quais exportava 2 milhões de barris – a maior parte através do programa
“Oil for Food”, da ONU, além de prováveis contrabandos de 300 mil
barris através da Síria. Seu sistema de logística é formado por três
oleodutos e um terminal de exportação que, juntos, permitem escoar
acima de 4,5 milhões de barris diários.
Mas as guerras com o Irã e do Golfo resultaram numa falta de investimentos
em manutenção de toda essa estrutura. Passados 12 anos de sanções
econômicas, a indústria petroleira do país apresenta elevada necessidade
de investimentos – o estado dos oleodutos, por exemplo, limitam a
capacidade de escoamento para pouco mais de 2,5 milhões de barris
por dia. O Iraque produz atualmente 125 mil barris de petróleo por
dia –5% de sua produção de antes da guerra.
As reservas do país estão concentradas em três grandes complexos:
Kirkuk (região norte do país), Bagdá (centro) e Rumailah (sul). Os
maiores campos são o de Majnoon – descoberto pela Petrobras nos anos
70 – West Quma, Nahr Umr e Halfaya.
Contexto político
A primeira questão a ser resolvida é a liderança do governo local
após a queda do regime. Localizado numa região onde as diferentes
etnias carregam conflitos históricos, o desafio é implantar um sistema
democrático com representatividade tanto dos curdos quanto dos xiitas
e sunitas. “O conceito de democracia na região é diferente, por causa
das várias etnias”, explica David Zylberstajn.
Sob a liderança iraquiana no governo local, o consultor Jean-Paul
Prates prevê um sistema democrático plural, com representatividades
étnicas e políticas naturais e a substituição das tropas militares
da Coalizão por tropas da ONU. Nesse caso, as petroleiras americanas
e inglesas deveriam negociar novas oportunidades, preservando contratos
europeus e trabalhando em conjunto com outras companhias segundo os
financiamentos multilaterais e a criação de empresas locais –o que
significa a ampliação, ainda que lenta, da produção iraquiana.
A principal conseqüência para o mercado do petróleo seria a preservação
dos contratos europeus –uma solução para o mal-estar causado entre
EUA e França, Alemanha e Rússia– o preço do barril girando entre US$
25 e US$ 28, o reaquecimento das economias em geral. “Os desafios
deste cenário são o controle da diversidade étnica e política iraquiana,
as negociações dos contratos existentes e a alocação da nova produção
iraquiana na OPEP”, explica Prates.
Os contratos de exploração acertados entre o governo de Saddam Hussein
e as companhias da Europa e Ásia deverão ser o foco de novas discussões.
O Iraque teria acordado cerca de US$ 40 bilhões para exploração de
petróleo, que estavam em compasso de espera pelo fim do embargo.
Pela Convenção de Genebra, a Coalizão teria o direito ao petróleo
iraquiano para restituir os custos da ocupação –mas não os custos
da guerra. A Convenção impede, por outro lado, que sejam tomados ativos
de produção que estejam em regime de concessão a companhias de outros
países. “Isso vai criar uma série de contenciosos. Até que ponto os
contratos antigos serão honrados?”, questiona Zylberstajn.
As leis americanas impedem a exploração de petróleo em territórios
sob ocupação militar, e que a força ocupadora conceda direitos de
exploração – por isso a importância da definição de um novo governo.
O administrador civil americano do Iraque, general da reserva Jay
Garner, já anunciou uma nova equipe de gestão para o Ministério do
Petróleo –que será dirigido pelo iraquiano Thamer Ghadhban, ex-diretor
de planejamento do Ministério– e de um Conselho Consultivo, confiado
ao americano Philip Carroll, ex-presidente da Shell. Em nota oficial,
o assessor de Jay Garner, Tim Cross reiterou a posição americana,
segundo a qual “os iraquianos devem ser os beneficiários da riqueza
petrolífera do seu país”.
Fim da Opep?
O anuncio não deixa claro quem será o verdadeiro dono do petróleo
iraquiano –que poderia ser tratado como “o Tesouro da Guerra”. Deter
as reservas seria, para os EUA, uma forma de controlar até mesmo os
preços do mercado internacional.
Isso poderia significar um enfraquecimento ainda maior da Opep –que
já não é tão poderosa quanto há alguns anos. “Hoje a Opep já não tem
uma força institucional tão poderosa porque a diversidade de oferta
é maior. Os países da organização dependem do petróleo, e um embargo
poderia significar graves conseqüências para a economia”, explica
David Zylberstajn.
“Mas os contratos não foram acertados com ‘gente de pouca importância’.
São empresas da Turquia, Síria, Vietnã e China, que não vão deixar
esse assunto passar em branco”, alerta Zylbertajn.
A vantagem de um posicionamento militar na região é a garantia para
as companhias que forem explorar o petróleo no país, assim como acontece
no Mar Mediterrâneo e no Oceano Índico. “Enquanto os tanques estiverem
posicionados, os investimentos virão. A região sempre foi instável”.
Para Jean-Paul Prates, a prioridade para as empresas americanas e
inglesas aconteceria num cenário marcado pela liderança anglo-americana
no governo local. Nesse caso, seria implementado um sistema democrático
bi-partidário, com representatividade étnica assegurada, mas com a
permanência militar para garantir a integração do território, e uma
rápida ascensão da produção de petróleo.
Os efeitos esperados nesse cenário seriam o preço do barril girando
entre US$ 23 e US$ 25, o reaquecimento da economia americana e global
e uma “democracia epidêmica” nos países vizinhos. “Os desafios deste
cenário são as reações internacionais e a desconsideração da ONU,
um ‘terrorismo endêmico’ e a alocação da nova produção iraquiana na
OPEP”, explica Prates.
O fator que mais ameaça a transformação do petróleo iraquiano em um
tesouro de guerra é a dívida que o Iraque possui com bancos e países
–estimada em US$ 383 bilhões– e que o país não paga desde 1990. Isso
sem contar as reivindicações da Guerra do Golfo.
Prates não descarta um cenário catastrófico-anárquico, com o preço
do barril ultrapassando a casa dos US$ 30 caso não houver o reconhecimento
dos vencedores – e da nova liderança, seguido de convulsões internas
intensificadas, desagregação territorial, guerra civil e terrorismo.
Essa combinação de totalitarismo, poder e discriminação racial e religiosa
já provocou duas crises que abalaram o mercado de petróleo e a economia
mundial, na década de 1970.
Fora uma possível instabilidade política regional, o retorno do Iraque
ao mercado de petróleo não assusta tanto, justamente pela diversidade
de oferta e pela retração na demanda. “Nenhum indicador aponta o aumento
da demanda ou restrição da oferta. A guerra vai destampar uma rolha
da garrafa que é o Iraque, mas isso não deverá afundar os preços”,
explica David Zylberstajn, para quem o barril tende a girar entre
US$ 23 e US$ 24.
Outro ponto é a necessidade de investimentos na infra-estrutura da
indústria petroleira no país. Seriam necessários investimentos superiores
a US$ 50 bilhões e alguns anos para que o Iraque acrescente um volume
significativo à oferta mundial.
Nas mãos de empresas privadas –sejam americanas, inglesas, francesas
ou chinesas– o ponto mais positivo seria o fim da hegemonia dos países
islâmicos e árabes no mercado mundial, que já conta com a importante
presença da Rússia –terceira maior produtora de petróleo do mundo,
com 7,2 milhões de barris por dia.
Conseqüências para o Brasil
A exploração do potencial petrolífero do Iraque também não traria
conseqüências catastróficas para o Brasil –embora a abertura do mercado
iraquiano possa tomar alguma atenção que as companhias poderiam ter
não só com o país, mas também com o Golfo do México, Costa Oeste da
África e Rússia. Explorar petróleo no Iraque custa dez vezes menos
que no Brasil.
Um cenário marcado politicamente pela liderança iraquiana estável,
com regime político aberto e pacífico, com a retirada gradual das
tropas militares e as empresas americanas e inglesas aceitando a presença
de outras companhias internacionais seria, segundo Jean-Paul Prates,
o cenário bom para o Brasil.
Os efeitos esperados seriam a consolidação de oportunidades para as
empresas brasileiras –pela experiência no país e pela simpatia da
população local dado pelo histórico nas relações entre os dois países.
Por outro lado, esse histórico de relacionamento com o regime deposto
e a oposição do Brasil ao ataque serão desafios a serem enfrentados.
Isso dependerá, contudo, da definição da situação política local.
“Claro que, para investir no Iraque, as companhias internacionais
desejarão se certificar de que há um sistema político (geral) e regulatório
(específico) estável o suficiente para garantir que seus investimentos
frutificarão. Qualquer que seja o cenário político instaurado, o certo
é que um novo marco contratual, legal e regulatório não será rápido
de fazer. Portanto, o Brasil ainda terá alguns meses para acertar
as condições de atratividade ao investimento de E&P, mas não será
muito tempo mais”, explica Jean-Paul Prates. Para Zylbertajn, as opções
entre Brasil e Iraque não são excludentes, mas complementares. “O
Brasil pode ser uma espécie de hedge até mesmo para a própria região”.
“No que se refere ao investimento no Brasil, é claro que teremos (Governo
e indústria) que acompanhar de perto as evoluções no Iraque”, finaliza
Prates. |
|
|