MATÉRIA DE CAPA – Edição 248 - Maio de 2003
Participação em toda a cadeia por Flávio Bosco
Onip lança programa para estimular a criação de empresas nacionais nas atividades sísmicas
As companhias que adquiriram concessões para exploração de petróleo durante a primeira rodada realizada pela Agência Nacional do Petróleo já estão no período de perfuração e o Brasil deixou de colher parte dos primeiros frutos da abertura: o levantamento e o processamento de dados geofísicos. Isso porque, apesar de o país ter regulado a coleta de dados spec ao mesmo tempo da quebra do monopólio do setor, não articulou uma política industrial que fomentasse a criação de empresas nacionais de pesquisa geofísica capazes de assumir parte das atividades programadas.

Com isso, a maior parte dos US$ 200 milhões anuais gastos com levantamento sísmico entre 1999 e 2002 foram parar nas mãos de empresas estrangeiras. É certo que a maior parte desse recurso teria como destino certo as grandes empresas internacionais de coleta de dados – são elas que possuem os navios de aquisição que custam pelo menos US$ 100 milhões. E mais de 99% dos levantamentos de dados foram realizados em bacias offshore, onde estava focado o interesse das companhias.

A oportunidade está nas bacias terrestres, onde o capital necessário para montar uma empresa de coleta de dados é bem menor e o conhecimento ainda é escasso. “Não existe nenhuma empresa no Brasil que faça levantamentos em blocos terrestres, e trazer uma equipe de fora custa muito caro. Isso está começando a ser uma preocupação das companhias que adquiriram concessão de blocos , porque assumiram um compromisso mínimo de fazer esses levantamentos”, explica o consultor da Onip, José Mario Miccollis.

Na década de 1980, a Petrobras chegou a operar 14 equipes – próprias ou contratadas. Hoje mantém apenas uma equipe própria. Há pouco mais de um ano, para levantar dados na Bacia do Paraná, a El Paso contratou a CGG – um levantamento orçado em US$ 9 milhões.

Pelos cálculos de Miccollis, o levantamento de um quilômetro de sísmica terrestre 2D dificilmente custará menos que US$ 10 mil.

A demanda não é dada apenas pelas empresas concessionárias. A ANP lançou no ano passado o Plano Decenal de Estudo e Serviços de Geologia e Geofísica, a ser realizado entre 2002 e 2011. Trata-se de uma iniciativa abrangente para levantamento de dados sobre as bacias brasileiras, especialmente nas áreas consideradas de nova fronteira, com o objetivo de conhecer melhor o seu potencial.

As bacias terrestres brasileiras ainda são praticamente desconhecidas – com raríssimas exceções, como as bacias do Solimões, Paraná e o Recôncavo Baiano. ”São regiões pequenas. O que foi coberto por esses levantamentos é quase desprezível”, avalia Miccollis. Apesar de os recursos estarem contingenciados pelo governo, a Agência informa que vem implementando alguns estudos.
Onipgeo

O objetivo da Onip é estimular a criação de empresas nacionais de pesquisa geofísica, capazes de assumir parte das atividades atuais ou já programadas para o setor de prospecção e exploração de petróleo e gás natural no Brasil. Para isso vem trabalhando, em conjunto com a Finep e o Observatório Nacional, no projeto Onipgeo. “Queremos ampliar a participação das empresas nacionais em toda a cadeia de petróleo e gás”, explicou Bruno Musso, superintendente de projetos da instituição.

O problema vai se amenizando à medida que avança a cadeia de exploração: para o processamento de dados, já existem algumas empresas, e algumas universidades foram equipadas para processar dados geofísicos. Já quando o assunto é perfuração, o país dispõe de empresas com know how.

Mas a exploração de petróleo tem suas peculiaridades: como a perfuração de um poço pode chegar a US$ 25 milhões, as avaliações econômicas têm falado mais alto na decisão gerencial – e com isso ganham força as atividades de coleta, processamento e re-processamento.

Um estudo preliminar coordenado pela Superintendência de Estudos Estratégicos da ANP estima que os investimentos em atividades de exploração no período 2002-2006 será de, no mínimo, US$ 1.385,4 milhões (US$ 148,7 milhões em sísmica e US$ 1.236,7 milhões em perfurações) – os investimentos mínimos foram calculados a partir de aplicação de estimativas de preços de serviços de sísmica e de perfuração aos compromissos mínimos em aquisição de dados e perfurações de poços exploratórios. “Normalmente os concessionários cumprem programas superiores”, pontua a Agência.

Para induzir a eficiência na exploração, os concessionários têm prazos para realizar os investimentos obrigatórios do programa exploratório mínimo, que são garantidos por cartas de crédito nos valores totais estimados para estes investimentos – caso as empresas não invistam no prazo, estas garantias são executadas. Além disso, a concessionária é obrigada a devolver, a cada 2 ou 3 anos, parte da área de concessão na qual não tenha realizado descobertas – isso significa que a companhia precisa realizar a melhor avaliação possível da área, antes de escolher a parcela a ser devolvida. As áreas devolvidas ainda voltam a leilão em novas rodadas da ANP – o que permite a aplicação de novas idéias.

Nos últimos meses, as reservas brasileiras registraram um leve aumento – após cinco anos de estagnação – graças às novas descobertas de óleo e gás. Essas novas reservas serão significativas para manter a auto-suficiência por mais algum período – isso porque, com o declínio da produção de alguns campos e sem novas descobertas, a partir de 2010 o consumo voltará a ser maior do que a produção. “A autosuficiência, quando alcançada, vai exigir novas descobertas, porque o consumo continua crescendo”, alerta Miccollis

Oportunidades

Desde a abertura do setor, foram coletados dados de praticamente toda a costa brasileira – apenas restam algumas áreas em que os dados coletados são antigos. “Por outro lado, águas terrestres é algo que pode interessar a empresas ou grupos empresariais nacionais entrarem no mercado. E não é de interesse da maior parte das grandes companhias estrangeiras, porque essa atividade exige uma logística local complicada – o que é fácil de entender: é diferente para uma companhia mandar um navio de aquisição de montar uma equipe que vai ficar três anos com 250 pessoas no campo”, avalia Miccollis.

A demanda existe tanto por parte das empresas concessionárias de blocos exploratórios quanto pelo Plano Decenal da ANP. Para se ter idéia, um simples reconhecimento 2D na Bacia do Parnaíba significaria 40 mil km de sísmica – US$ 400 milhões investidos.

O consultor da Onip explica que o assunto interessa a vários grupos. “As empresas que existiram no passado praticamente deixaram de existir porque não havia mercado. Obviamente isso é uma questão de oferta e demanda”.

Mão-de-obra não é o maior problema: vários técnicos já trabalharam com esses levantamentos no Recôncavo e na Bacia do Solimões. Obviamente que a tecnologia mais atualizada poderia ser um problema. Para isso, a Onip sugere parcerias para transferência de know how. “Quem deixa de atuar nesse setor por alguns anos perde o topo do know how”.

Empresas de pequeno e médio porte também poderiam se especializar em soluções personalizadas, principalmente nos blocos terrestres da região Nordeste. “A região do Recôncavo, que é fartamente conhecida, muito provavelmente terá gás embaixo. Mas aí tem que fazer um trabalho de sísmica”, finaliza Miccollis.
Ed. 248 - Maio de 2003
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