| Revista Controle & Instrumentação
Edição nº 79 Abril de 2003
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Cover Page
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| Como funciona a Nova Anchieta |
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Em 2003, ela completa 50 anos de Brasil e de contribuição para a
indústria automobilística nacional. Responsável pela produção de sucessos
como o Fusca, o Gol e a Kombi, há um pouco mais de um ano a Volkswagen
do Brasil investiu R$ 2 bilhões na construção da unidade mais avançada
tecnologicamente do país: a Nova Anchieta. Localizada em São Bernardo
do Campo, São Paulo, a nova linha de montagem é responsável pela produção
do Novo Polo, carro de plataforma mundial da VW.
Hoje, a fábrica, que passou uma reestruturação física, conta com avançadas
tecnologias, modernos processos de produção e alto nível de automatização
– são cerca de 400 robôs, solda a laser e pintura automatizada, entre
outros. “É uma fábrica que trouxe um ganho de mais de 20 anos em termos
de modernização para a planta Anchieta”, diz o gerente de Processos
da Nova Anchieta, Gilberto Teixeira.
Segundo Teixeira, o projeto foi desenvolvido numa parceria entre os
profissionais técnicos da Volkswagen do Brasil com a matriz da empresa,
na Alemanha. “Alguns profissionais brasileiros ficaram muito tempo
na Alemanha para acompanhar este desenvolvimento e depois fazer a
implantação aqui”.
Tanto o desenvolvimento das duas versões do Polo, produto da Nova
Anchieta, como da fábrica foram projetos realizados em parceria entre
técnicos e engenheiros da Volkswagen do Brasil com a Alemanha. “A
diferença é que o projeto da fábrica foi comandado e implementado
pela Volkswagen do Brasil. São coisas distintas: eles têm o domínio
do produto e nós temos o domínio do projeto e da implantação da fábrica",
ressalta Teixeira.
Solda a laser, ilhas robotizadas na armação, automatização na linha
de pintura, uso de palm tops para controle da produção em tempo real,
montagem por sistema modular e transportadores de carrocerias que
se adaptam à altura do empregado, são algumas das inovações que fizeram
com que a Nova Anchieta conseguisse economizar um terço do tempo que
era necessário na antiga linha de montagem.
As inovações
Uma das novidades da fábrica é a utilização de um sistema denominado
FIS - Fertigung Infomation System. O FIS é um Sistema de Informação
para a Produção que possibilita a montagem do veículo, desde de a
armação - onde nasce a carroceria - até a montagem final. “É um sistema
de grande porte que comunica, através de etiquetas colocadas no carro,
todas as informações para que a armação possa montar o veículo”, diz
a engenheira de Processos, Débora Agráz Cutino Nogueira, responsável
pelo desenvolvimento, estudo e implantação da parte dos sistemas que
auxiliam a comunicação interna, a leitura, a difusão de dados.
Segundo Débora, as etiquetas utilizadas pelo FIS, conhecidas como
etiquetas TPS, são coladas no carro na armação rebitada e disponibilizam
todas as informações necessárias para a montagem do veículo durante
o processo. Estas etiquetas possuem um kennumber, que é o número com
o qual é marcado o nascimento do carro - como se fosse um RG – e possui
informações básicas contidas num código de barras, que é lido durante
todo o processo. Alguns pontos específicos da linha de montagem possuem
scanners que lêem estas informações e indicam que decisões devem ser
tomadas, sejam manuais ou automatizadas. “Isso é feito ao longo do
processo, igualmente na pintura e na montagem; o que muda são os meios.
Lá, são etiquetas TPS, na pintura é uma etiqueta keko, que tem os
seus barcodes”. Os pontos de leitura do kennumber, chamados de DCPs
- Data Capture Points, variam de área para área de acordo com a necessidade.
O pessoal da logística, que fica em uma sala específica, consegue
ver toda a parte de produção de carros e localizar, se preciso, o
carro que quiser.
O FIS funciona com um sistema de gerenciamento para a produção, que
auxilia tanto o pessoal de logística quanto o de processo. Ele informa
toda a listagem do carro e, de acordo com as áreas, vai lançando e
disponibilizando novos dados. Os DCPs captam as informações de onde
o carro está: na armação, na pintura ou se está no processo final.
Nos pontos de DCPs que têm operador; se por acaso falhar o scanner,
o operador digita o número que está na etiqueta TPS. “Acontece que
existem pontos que estão no alto e não têm operador, para isso nós
temos cerca de 10 pontos com câmeras, que permitem, da sala de controle,
que outros operadores possam ver on line. Se o carro passou e o scaner
não leu, libera-se um alarme para os operadores e eles automaticamente
verificam onde está parado. Basta olhar na tela, digitar o número
da etiqueta e liberar a linha”, diz Débora. Isso evita a parada de
produção, de processo e a perda de produção. O fornecedor dos DCPs
foi a empresa CSI, e a parte de software foi elaborada pela ICS da
Alemanha. |
| Transportadores de carrocerias que se adaptam à altura do
empregado |
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Sem perder tempo
Com o FIS, muitas peças não ficam em estoques. “Trabalhamos com o
Just in Time (JIT). Isso facilita bastante, inclusive para a parte
financeira, porque não é vantagem pra ninguém ter estoque de peças,
a não ser peças críticas, necessárias em caso de emergência. E quem
”starta" o JIT é o FIS", explica Débora.
A Nova Anchieta possui pontos específicos dentro do FIS que dão um
sequenciamento definitivo para os carros na linha de produção. “Não
podemos garantir que um carro que nasce na armação, vai chegar na
mesma sequência na montagem final. Muitos carros são tirados para
serem auditados, por exemplo”. Existe, um ponto específico do FIS
onde os carros entram em sequência definitiva. Na hora em que ele
passa por esse ponto, o FIS “starta” todos os fornecedores JITs -
sejam eles internos ou externos, que recebem uma comunicação dizendo
que ‘determinado carro, que vai precisar de tais peças já entrou em
processo’. Então o fornecedor já coloca estas peças em ordem e manda
em lotes para a fábrica, de acordo com a necessidade. Quando o carro
chega na montagem final, as peças estão certas para a montagem.
Antes de entrar em sequenciamento definitivo é preciso saber se tecnicamente
não houve nenhum problema para segurar o carro no depósito. Se houver
um fornecedor com problemas para entrega de material, é colocado este
impedimento no sistema, e o carro é retido no depósito até a regularização
desta situação. Quando este problema for resolvido, a logística retirará
do sistema este impedimento, começando a liberar os veículos automaticamente
em Fifo - First In First Out. “Os primeiros a ficarem bloqueados são
os primeiros a saírem, para evitar perda de produção na montagem -
senão poderá acarretar falhas no processo e a linha poderá parar por
falta de peças”, ressalta Débora.
O supervisório
Além do FIS, a fábrica possui um sistema supervisório implantado para
ajudar a manutenção e para detectar problemas que podem ocorrer no
processo. O sistema supervisório utilizado na Nova Anchieta também
foi montado pela equipe brasileira. “Trata-se de um software que já
existe no mercado, porém, que teve que ser adaptado às nossas instalações”,
lembra Débora. “Temos ligado nesse supervisório as máquinas, PLCs,
os micros de solda, tudo o que tiver no chão de fábrica relacionado
ao processo está ligado em rede, e esta rede manda todas as informações
para o supervisório”.
Muito utilizado pela maioria das indústrias, na automobilística o
supervisório não funciona diferente: é ele quem diz o porquê o processo
parou, por quanto tempo, onde está o maior problema, quanto isso reflete
em perda de produção, aponta as responsabilidades, se foi uma parada
técnica ou não, entre outros. É com ele que cada gerente consegue,
por meio de rede, dizer qual está sendo o entrave do processo. “Este
é um sistema inteligente porque consegue dizer, num relatório ou num
gráfico, quantas paradas foram técnicas, quantas foram por problemas
de emergência ou administrativos. Se você considerar tudo como parada,
você perde totalmente a referência”, lembra a engenheira.
Na Nova Anchieta os supervisórios ainda não estão 100% em funcionamento.
“Hoje, podemos dizer que temos 85% dele funcionando, pretendemos entregá-lo
100% em junho. Há algumas coisas que ainda estão sendo ajustadas”,
diz Débora. |
| Tela mostra - on line - o que passa por um dos pontos DCPs
com câmera |
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O controle das peças
E, por fim, o sistema Pluma, de chamada de peças, que viabiliza o
processo. “Imagine um processo com certo número de peças em caçambas
ou em algum outro meio e que vão acabando à medida em que os carros
são montados. Este sistema permite que não se criem falhas no meio
da produção, ou seja, que se faça o re-carregamento dessas peças sem
que a produção sinta, sem que haja perda de tempo e, conseqüentemente,
de veículos”, enfatiza a engenheira.
O Pluma, segundo Débora, é um sistema que a VW do Brasil já tinha,
não foi criado para o Polo – mas foi adequado para atendê-lo. “É ele
quem controla o abastecimento da linha de produção com algumas peças.
As peças têm um número de barcode, que também é lido através de scanner
e passado para o depósito, que vai abastecendo a linha de acordo com
as necessidades”, explica. Com este processo, o sistema vai dando
baixa para a logística, que vai solicitando mais peças para o fornecedor.
O supervisor da Engenharia de Manufatura - Armação da VW, Orlando
Giusti, ressalta que a nova fábrica reduziu consideravelmente o tempo
de produção por veículo: a cada minuto sai um carro pronto. “Com toda
a automação, o processo de produção de um carro foi reduzido de 12
para 8 horas, diz. Débora lembra ainda que os três sistemas instalados
na nova fábrica não foram Turn Key. “A matriz nos direciona naquilo
que realmente temos que implantar na fábrica. Podemos dizer que o
conceito foi Turn Key, mas a execução na planta foi feita pela Volkswagen
do Brasil”.
Ela explica que o conceito do FIS faz parte do Konzern da VW, ou seja,
como ele funciona, o que ele pode atender, quais são os seus recursos,
entre outros. “É um sistema que nos oferece uma variedade de recursos
mas, para trazê-lo para o Brasil, tivemos de saber trabalhar com ele,
adaptando-o ao nosso processo”.
Foi aí que, segundo Débora, entrou a engenharia brasileira - com o
planejamento de fábrica - que se juntou às engenharias específicas
de processo - armação, pintura e montagem final, as áreas de logística
e tecnolgia da informação. “Trabalhamos em equipe porque conhecíamos
o processo, sabíamos como ele iria funcionar, mas precisávamos saber
também do processo, quais eram as necessidades pra que esse carro
realmente atendesse a todo o movimento”, lembra.
A Armação
A Nova Anchieta, atualmente, trabalha em dois ou três turnos, por
causa do período de baixa demanda. Mas os engenheiros ressaltam que
o processo, as linhas de produção, foram feitas para atender 24 horas.
Caso seja necessário, a fábrica passa para três turnos diretos com
facilidade, sem implicar em nenhum problema de processo - seja na
parte de linha, seja na parte de sistema.
“Alguns setores, por motivo de exportação, estão trabalhando os três
turnos”, diz Orlando.
O nível de automação da fábrica, segundo ele, foi uma decisão da diretoria
da Volkswagen, que utilizou critérios técnicos de ganho qualitativos
e sociais. “Somente na minha área - a de Armação - temos hoje 300
robôs instalados, que fazem operações de solda. Seja solda ponto,
seja solda mig ou laser”, diz.
O ponto alto em tecnologia da área de Armação é uma cabine de solda
a laser que garante a geometria do carro na junção dos seus componentes:
teto, lateral e plataforma. “Esta cabine faz toda a junção do teto
com a lateral, da lateral com a plataforma, através de um componente
de solda que nós chamamos internamente de cordões geométricos porque
faz a amarração dessa geometria. Depois, o carro passa por uma linha
sequencial de solda”, diz.
A solda a ponto também é feita com equipamento de última geração e
Orlando ressalta que a solda mig (com equipamentos de última geração)
é “limpa” (com quase nenhum respingo). “Como trabalhamos com chapas
zincadas, em cada dupla face a solda mig não queima toda a área zincada.
Ela consegue manter uma grande porcentagem dessa pigmentação de zinco”,
diz.
A nova cabine para solda a laser também já está instalada em outras
plantas da empresa que produzem o Polo. “Para solda de veículos, a
solda a laser começou a ser utilizada na fábrica de Curitiba, mas
numa proporção muito menor para o Golf e para o Audi. Agora, para
o Polo, considerando a proporção, são cerca de 5.800 mm de solda a
laser na carroceria dentro do carro, é o maior volume linear de solda
que temos conhecimento na América Latina”, diz Orlando. |
| Painel instalado na fábrica diz como anda a produção |
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Toda a área de Armação da Nova Anchieta tem cerca de 300 funcionários
por turno sendo que, para as linhas automáticas, existem especialistas
que pertencem à produção, mas com perfil de pessoal de manutenção.
Estes foram contratados com grau superior e conhecimento em eletrônica
para que possam monitorar e fazer com que a linha funcione perfeitamente.
Na manutenção, a empresa possui funcionários com o mesmo perfil, para
que possa ter o mesmo nível de trabalho e conhecimento. “Todo um treinamento
preliminar foi feito junto aos integradores. Mandamos equipes para
a Europa para poder fazer um treinamento no fornecedor para a solda
a laser e também trouxemos fornecedores das outras máquinas de solda
e aplicativos de programa operacional para que fossem ministrados
treinamentos internos”, ressalta Orlando.
Na área da Armação, foram quatro os integradores responsáveis por
fazer toda a instalação: a Volkswagen de Braunschweig, que fez a instalação
de parte da plataforma; a Expert/Gerlach, que fez a instalação da
outra parte da plataforma; a FATA, empresa italiana que fez a instalação
da linha da lateral (em todas existem operações automáticas, robotizadas
e alguma coisa manual ainda, numa proporção de 70% automática e 30%
manual); e o departamento interno de Ferramentaria da Volkswagen do
Brasil. “Nosso departamento de Ferramentaria fez a linha de carroceria.
Foi a responsável por trazer a solda a laser, instalar e ajustar;
fabricou e instalou todas as linhas automáticas para produzir portas
e tampas traseiras e dianteiras. Também as instalações de montagem
depois da carroceria pronta e soldada, como a colocação das portas
e tampas, além do ajuste e funilaria final do carro, antes da pintura”,
diz.
Para facilitar a interface entre os equipamentos e a VW, foi definido
como padrão de rede o Interbus. Entre as vantagens, estão as reduções
nos números de conexão e painéis, com a utilização dos módulos IP-67
(Rugged Line e CDIO) nas células de solda, bem como a redução no tamanho
dos painéis da área de Armação devido ao uso de módulos ST e Inline
compondo pequenas ilhas de I/Os distribuídos na medida certa da aplicação.
Outras vantagens foram o sistema preciso de diagnóstico DIAG+ da rede
Interbus e a padronização das instalações, assim a pessoa treinada
em determinada área pode ser transferida para outra sem problemas,
permitindo versatilidade das equipes.
Uma nova rede
Para atender a Nova Anchieta, devido ao volume de automação, houve
a necessidade de implementação de uma nova rede de fábrica. “Devido
ao aumento de automação, houve a necessidade e a preocupação de termos
uma rede que realmente atendesse o chão de fábrica, que fosse exclusiva
dele”, conta Débora. Para a nova fábrica então, a Volkswagen do Brasil
construiu uma rede chamada Backbone, com tudo funcionando em Fast
Ethernet.
“Imagine uma rede fisicamente única, que passa pela fábrica inteira,
virtualmente, com vários canais. Hoje, os dados de todos os pontos
que estão ligados dos FIS estão numa única VLAU. Em uma outra, só
trafega o supervisório; em outro só trafega o Pluma, e assim por diante”,
enfatiza a engenheira. Todas estas precauções foram tomadas para que
não ocorra o congestionamento da rede. “É interessante que os sistemas
fiquem com seu meio”, conclui. A nova rede também possui bloqueios,
para evitar que funcionários do escritório interfiram em algo no chão
de fábrica. Somente as pessoas com permissão conseguem entrar.
Atualmente, o FIS possui cerca de 400 pontos de rede; o supervisório,
270 pontos; e o Pluma cerca de 50 pontos - considerando algumas adaptações
para a produção do Polo. O sistema supervisório, que veio da empresa
GefaSoft, funciona basicamente através dos PLCs e equipamentos de
chão-de-fábrica. Cada robô tem o seu PLC, com placas Ethernet e protocolo
TCP-IP. Já o FIS possui um protocolo específico, que é o PMon.
A Nova Anchieta também possibilita que cerca de 1000 modelos ou mais
de Polos sejam feitos na mesma linha de processo. O cliente não é
mais obrigado a comprar um carro por pacote. O cliente escolhe o que
ele quer ter no carro e paga por aquilo que colocar nele. “ O sistema
foi desenvolvido e está pronto para receber este tipo de conceito.
Já está pronto para atender esta necessidade de mercado”, ressalta.
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